O António Maria

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Rússia

Outubro 25, 2007 · Deixe um Comentário

Vladimir Putin
Vladimir Putin, um amante de Judo, e muito mais :-)


Vladimir Putin

É difícil deixar de comparar a figurinha mesquinha e algo psicopata de George W. Bush com a estampa olímpica de Vladimir Putin. É difícil deixar de ver no homem que recuperou a dignidade da Rússia após os anos ébrios da delapidação que se seguiu à implosão da União Soviética, um dos muitos personagens da longa e convulsiva dramaturgia russa.

De oficial dos serviços secretos da ex-União Soviética a líder de um império desmembrado e pilhado por uma horda de hienas apoiada por ávidos gentios norte-americanos de todas as profissões e matizes, aquele homem tímido foi-se impondo paulatinamente ao respeito, primeiro dos seus concidadãos, e agora do resto do mundo.

Dele depende, neste preciso momento, a integridade física do planeta! Vladimir Putin é de facto o único travão capaz de sustar a alucinação dos End-Timers que tomaram de assalto a América e ameaçam transformá-la numa perigosa estirpe neo-fascista do imperialismo. Bush e a canalha que o rodeia quer mesmo desencadear a III Guerra Mundial, acabar com a Europa (seria essa a consequência imediata), e boa parte da China e da Rússia, em nome da sobrevivência de uma supremacia anglo-saxónica, branca, álgica, doentia e protestante, devota de um Cristo redentor loiro e de olhos azuis. Os judeus, que podem até ser o gatilho do grande holocausto nuclear, estariam infelizmente entre os sacrificados do Apocalipse por que ardentemente clamam estas bizarras minhocas das zonas mais profundamente ignaras e desgraçadas da América.

Zbigniew Brzezinski, autor dum célebre livro chamado The Grand Chessboard (1997), escrito quando ainda acreditava na possibilidade de uma longa e estável supremacia norte-americana no mundo, escreveu recentemente um desesperado lamento à má sorte da super-potência, no qual se esforça por remediar o que aparentemente já não tem cura: o modelo imperial capitalista saído do American Way of Life. Esse livro chama-se sintomaticamente Second Chance (2006). Não resisto a transcrever o parágrafo inicial, e outro da sua conclusão:

“The self-coronation of the U.S. president as the Global Leader was a moment in historical time if not a specific date on the calendar. It followed the collapse of the Soviet Union and the end of the Cold War. The American president simply began to act as the global leader without any official international blessing. The American media proclaimed him as such, foreigners deferred to him, and a visit to the White House (not to mention Camp David) became the high point in any foreign leader’s political life. Presidential travels abroad assumed the trappings of imperial expeditions, overshadowing in scale and security demands the circumstances of any other statesman.”

(…)

“Though in some dimensions, such as the military, American power may be greater in 2006 than in 1991, the country’s capacity to mobilize, inspire, point in a shared direction and thus shape global realities has significantly declined. Fifteen years after its coronation as global leader, America is becoming a fearful and lonely democracy in a politically antagonistic world.”

A América exportou em nome da ganância e de uma desejada supremacia imperial o fundamental da sua capacidade produtiva para a Ásia. Na última década e meia, intensificou mesmo, de um modo sem precedentes, essa alienação de conhecimentos e de práticas para um único país, a China. Contava, a partir da célebre “globalização” anunciada por Bill Clinton, forçar todo o mundo a trabalhar para si, alimentando eternamente uma cultura doméstica hedonista, prisioneira psicológica de um consumismo insane e de uma contínua alucinação mediática. O truque era simples: exportar a actividade produtiva e a extracção de mais-valias para zonas onde predominassem regimes de semi-escravatura e em geral factores produtivos extremamente favoráveis; imprimir sem qualquer supervisão internacional o papel-dinheiro que fosse necessário (dólares e títulos de dívida pública) para poder adquirir as mercadorias produzidas fora do seu território; garantir o acesso sem limites às principais fontes energéticas mundiais; proteger politicamente os regimes favoráveis aos seus jogos económicos e controlar o planeta por todas as formas e feitios, disseminando bases militares nas suas juntas nevrálgicas, montando uma rede espacial de satélites militares, instalando sistemas de devassa sistemática das comunicações mundiais (Carnivore), etc. Para o sucesso deste empreendimento imperial precisaria, no entanto, de três coisas: aniquilar a Rússia, espezinhar o Médio Oriente e amedrontar a China, explicando a esta última que uma tão esmagadora super-potência jamais lhe permitiria sair do seu papel de fornecedor de coisas baratas e mais-valias. O sonho transformou-se entretanto num pesadelo!

A Europa andou, durante toda a década e meia que durou esta crise de liderança, entretida com o seu projecto aduaneiro, exportando igualmente boa parte da sua capacidade produtiva para a China e demais países emergentes. Sem cabeça política, dividiu-se demasiadas vezes em volta das suas prioridades estratégicas, esquecendo, por exemplo, que o seu lugar no século 21 passa menos por andar ao colo do mano atlântico, do que por estender a sua solidariedade construtiva ao Norte de África, ao Médio Oriente e sobretudo à Rússia, tornando claro que os jogos de poder do tio Sam contra estas regiões são prejudiciais, em primeiro lugar, à própria estabilidade da Europa.

A Rússia percebeu, como perceberam as repúblicas do Mar Cáspio, a Índia, o Irão e sobretudo a China, que só uma aliança militar alternativa (a SCO) ao expansionismo desregrado e agressivo da NATO, propugnado pelo equivocado Brzezinski, seria capaz de travar o cerco americano e acordar os sonâmbulos europeus. Foi isso que aconteceu, em grande medida, graças à energia e lucidez de Vladimir Putin, após, obviamente, recompor o potencial nuclear estratégico de Moscovo, só possível depois de recuperar a propriedade e o controlo económicos do país. As duas guerras invasivas contra o Iraque e a invasão do Afeganistão traduziram-se, talvez inesperadamente para quem as desencadeou, no principal factor, a par do crescimento da China, da Índia, do Brasil e dos Emiratos Árabes, da valorização acelerada do petróleo e do gás natural, recursos cuja disponibilidade e acessibilidade entraram numa curva irremediavelmente descendente. Enquanto a América e boa parte da Europa anseiam pelo petróleo para poderem brincar com os vários dildos das sua cultura hedonista, a China e demais países produtores de mercadorias precisam desse mesmo petróleo para fabricar os dildos que tanta falta nos fazem. É toda uma diferença!

A cimeira Europa-Rússia que hoje tem lugar em Portugal, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, na conjuntura explosiva que o mundo está a atravessar, tem uma importância crucial para o futuro imediato do próprio projecto europeu. Ou a Europa descola diplomaticamente da América e defende os seus interesses regionais de forma inteligente e clara, ou permanece atrelada às manobras inglesas (e agora também do garnisé francês), deixando os proto-fascistas da Casa Branca conduzirem o planeta para uma III Guerra Mundial. Mesmo que limitada, mesmo que não alastre imediatamente a todo o planeta, uma guerra de mini-nukes (contra o Irão, por exemplo) levará necessariamente a um novo Tratado de Tordesilhas, desta vez entre os EUA e a Rússia-China, por cima dos escombros materiais e ideológicos de uma Europa decapitada de qualquer protagonismo nos próximos duzentos anos. O contrário desta possibilidade passa pela existência de uma terceira posição estratégica independente, protagonizada pela Europa, em nome da racionalidade, da distensão e da cooperação mundial. Não é assim tão difícil.

O facto de Vladimir Putin ser recebido no Convento de Mafra, um lugar de meninice que conheço bem e admiro (pois foi aí que adquiri boa parte da minha sensibilidade estética e curiosidade intelectual), revela a importância histórica conferida pela diplomacia portuguesa à visita no novo Czar da Rússia. Oxalá seja um bom prenúncio!

OAM 268, 25-10-2007, 01:11

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Europa cognitiva

Outubro 19, 2007 · Deixe um Comentário

Erasmus por Hans Holbein
Erasmo de Roterdão (1466-1536) por Hans Holbein (1497-1543).

A etapa do conhecimento

In the mid-80s, nearly 90% of European students studying abroad went to the US; ten years later, in the mid 90s, this proportion had completely reversed with only 10% going to a US university and 90% going to another European country’s university. Europe2020, Oct.2007

Desiderius Erasmus Roterodamus, ou Erasmo de Roterdão, foi um dos filósofos da modernização do Cristianismo, movimento esse que viria a sofrer uma particular radicalização com Martinho Lutero, de cujas teorias nasceria a pouco e pouco uma Ética nova (do determinismo, do conhecimento, da razão, do trabalho e da sociedade) a que Max Weber chamaria, já no século 20, o “Espírito do Capitalismo”.

Ambos puseram em causa os formalismos mais ortodoxos e hipocritamente piedosos do decadente Império Apostólico Romano, que impediam o livre pensamento e a livre circulação de ideias, de pessoas e de mercadorias na sociedade burguesa que se expandia então rapidamente. Mas se a metodologia de Martinho Lutero funda, de algum modo, uma tradição reformista revolucionária na Europa, a de Erasmo de Roterdão, pelo contrário, prossegue um caminho mais intelectual, centrado na proposta de uma libertação puramente cognitiva do pensamento, supondo convictamente que a verdade não pode se não resultar da liberdade. Talvez por isso o nome deste filósofo humanista flamengo viesse a ser escolhido, alguns séculos depois, para nome de um dos programas educativos com maior sucesso alguma vez lançado na Europa depois da própria criação das universidade — o programa Erasmus.

Este programa de circulação de estudantes universitários pelas instituições de ensino superior europeias começou em 1987. Em 1990, movimentou 20 mil estudantes. Em 2004-05 o número subiu para 120 mil.

The development of a global European academic system centred on the strong inter-academic networks born from Erasmus resulted in a proliferation of partnerships between EU establishments and universities from other continents (in the UNESCO’s 2004 top-ten academic destinations, there were 5 EU countries: UK, France, Germany, Spain and Belgium). Meanwhile Asia is becoming a prominent academic destination due to the growing importance of this continent on a global scale. In 2006, EU member states welcomed twice more foreign students than the US (over 1,200,000 versus 560,00048), an evolution parallel with the growing loss of educational market shares suffered by US universities. — Europe2020, Oct.2007

A perda de influência dos Estados Unidos no mercado mundial do conhecimento e da formação é igualmente atestada pela crescente importância dos masters, doutoramentos e demais programas de pós-graduação europeus, e ainda pela importância crescente das universidades asiáticas, nomeadamente na China, Japão e India. No entanto, o poder de atracção das universidades europeias é, segundo o Europe2020, o facto mais destacável na evolução recente a nível mundial do fenómeno da formação e investigação. Na Europa, esta tendência condicionará cada vez mais a criação de redes, ou ligas de universidades e centros de formação avançada, ordenadas por rankings da qualidade e prestígio, com efeitos evidentes na competitividade educacional intra-europeia. Nos próximos vinte anos, segundo o Europe2020, uma tal perspectiva deverá estimular e condicionar fortemente as decisões dos estudantes, professores, investigadores, gestores e investidores envolvidos na economia do conhecimento.

Não sei se o contrato realizado entre o governo português e o MIT foi a decisão mais oportuna, sobretudo atendendo ao atribulado processo seguido e ao silêncio que se lhe seguiu. O que sei é que temos uma janela de oportunidade que não devemos desperdiçar, sobretudo agora que os bifes do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) acabam de ser lançados às feras da subsidio-dependência e do subsídio-oportunismo lusitanos.

Os milhões que até hoje se delapidaram na educação e na formação profissional pagas pelos fundos comunitários, de nada ou para pouco serviram. Houve muita roubalheira e descaramento e ninguém foi preso. Esperemos que desta vez sirva para preparar convenientemente a integração das nossas melhores instituições de ensino e formação técnico-profissional nas competitivas redes cognitivas em gestação por essa Europa fora.

Para tal, será necessário apostar forte num conjunto limitado de escolas, institutos e programas de excelência, sobretudo nas áreas que podem fazer a diferença do nosso desenvolvimento no contexto europeu: investigação e tecnologias avançadas aplicadas aos têxteis, calçado e acessórios; ciências e tecnologias do mar; energias alternativas; ciências genéticas e biotecnologias; ciências médicas; ciências e tecnologias da alimentação; informática e sistemas computacionais; ambiente; sustentabilidade; agricultura biológica e turismo.

É preciso, por outro lado, usar de um grande profissionalismo e criatividade na gestão desta importante virtualidade do QREN. A constituição de um colégio de comissários supervisores dos processos de aprovação de projectos, com a responsabilidade e a independência que a simples vinculação a direcções-gerais politicamente condicionadas e governos a prazo nunca poderão assegurar, faria toda a diferença.

OAM 264, 19-10-2007, 02:22

Categorias: Cultura · Europa · Internacional

É o Capitalismo, estúpido!

Setembro 26, 2007 · Deixe um Comentário

 

Os trabalhadores da General Motors, membros da UAW (International Union, United Automobile, Aerospace and Agricultural Implement Workers of America), entraram em greve nacional ontem, 24-09-2007, às 11 da manhã. Esta é primeira greve nacional promovida por aquele poderoso sindicato nos últimos 37 anos. Mais de 80 unidades de produção afectadas, em pelo menos 30 estados da União, é o resultado, para já, das duras negociações em curso.

A GM perdeu 70% dos seus trabalhadores nos últimos 12 anos.
Os donos da multinacional automóvel, abraços com uma crise sem precedentes desde 2005 (CNN), que quase levou a empresa à falência em Março de 2006 (Guardian), pretendem transferir 51 mil milhões de dólares de responsabilidade com as reformas e despesas de saúde dos seus trabalhadores e respectivas famílias para fundos controlados pelos próprios sindicatos (union-controlled trust funds.)

Para quem pensava que isto era apenas uma crise de crédito mal parado, é bom começar a tomar mais atenção à literatura económica especializada. Quanto ao ministro das finanças português e ao director do Banco de Portugal, talvez fosse bom falarem verdade aos portugueses, começando por falar verdade ao primeiro ministro. Ou estão à espera que o BCP e a TAP abram falência, e uma centena de Câmara Municipais se declarem insolventes?!

Tal como o desassossego na antiga Birmânia, que tanto parece preocupar o fundamentalista cristão George W. Bush, a crise automóvel que atinge e se agravará na América, ao longo dos próximos anos, deriva do mesmo mal: o fim de um paradigma energético. Veremos se o pregador conseguirá resolver as sucessivas crises sociais que atravessarão o seu país nos próximos tempos, sem recorrer aos caceteiros da Guarda Nacional. — OAM 245

Categorias: Economia · Internacional
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Asfixia energética

Setembro 25, 2007 · Deixe um Comentário

Monges budistas desfilam em Yangun
Milhares de monges budistas percorrem ruas da capital Yangun
na maior manifestação em 20 anos contra junta militar de Mianmar.

Manifestações em Mianmar (antiga Birmânia) tiveram início no mês passado por causa do aumento de combustíveis. A gasolina subiu 100% de uma só vez e o gás natural subiu cinco vezes ao longo deste ano. A manifestação de 23/09/2007, que reuniu 20 mil pessoas, entre as quais mais de 3 mil monges budistas, está a gerar uma crise política de consequências imprevisíveis no actual regime militar que governa a antiga colónia britânica vizinha da China, do Laos, da Tailândia, do Bangladesh e da India. — in Folha online 24/09/2007.

Este género de crise, há muito anunciado pelos estudiosos do Pico Petrolífero (Peak Oil), tenderá a repetir-se um pouco por todo o planeta, com primordial incidência nos países e zonas económicas mais débeis. Veremos assim um número crescente de crises políticas com carácter de massas, potencialmente violentas, em volta das subidas bruscas dos preços da gasolina/gasóleo, gás, leite, pão, rações, adubos, …, água. Tal como agora se remeteu a causa da crise para os rodapés das notícias, erguendo uma cortina de fumo em seu redor (no caso, uma manobra de diversão do trio Bush-Cheney-Rice para chatear os chineses), é provável que encobrimentos semelhantes ocorram no futuro. – OAM #243


Referências:
Blog de ciber-dissidência de Ko Htike
Album fotográfico da ciber-dissidência de Lae Moe

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