Subsidiar a Cultura 1

Quem, o Augusto M Seabra? Tem toda a razão!

Apesar de não perder os tiques Adornianos (escusados em caso tão falho de substância), o gajo tem toda a razão. A burocracia artística do final do século 20, instalada na rede falida da museologia europeia, comporta-se cada vez mais como um lobby descarado e sem regras do comércio internacional das artes. Vejam-se, por exemplo, os sucessivos escândalos que atingiram as leiloeiras Sotheby’s e Christi’es.

Por cá, as coisas atingiram as proporções de iniquidade e incompetência esperadas. Creio que escrevi há muitos anos uma catilinária contra o então todo-poderoso, e não menos ridículo, curador da colecção FLAD, um tal Castro Caldas, sobre os perigos, a inutilidade e sobretudo o desperdício económico envolvidos na substituição de regras racionais de investimento e gestão em arte, por meras regras de conveniência mais ou menos nepotistas, sem controlo nem responsabilização.

Ainda há poucos meses denunciei a aldrabice pegada que rodeia a permanente campanha de agit-prop em volta da biografia e da obra do Sr Cabrita Reis (o mesmo jantarista que conseguiu a proeza de inaugurar no mesmo mês uma estátua a um Presidente de Câmara na Maia e umas luminosas elucubrações plásticas em Veneza, com a cumplicidade inacreditável de quase toda a crítica e curadoria nacionais).
Tudo isto para sublinhar a evidência de o nosso sistema artístico se ter transformado há muito numa procissão de interesses paroquiais e retóricas imbecis. Apesar de ter havido um pintor de meninas que se comparou ao Figo (como se algum campónio de Xangai o conhecesse, como de facto conhece – e por vezes adora – Figo), a verdade é que tudo isto não passa de um jogo a feijões. Mas ainda assim, quando estão em causa dinheiros públicos, ou instituições pseudo-privadas cuja sobrevivência depende estritamente do Orçamento Geral do Estado, o abuso de informação privilegiada e a canalização forçada de recursos públicos para interesses privados (e familiares) é intolerável eticamente e deve ser penalizada. Por outro lado, temos que exigir uma regra qualquer para as comissões de serviço dos administradores de espaços vazios. Se, ao fim de quatro anos, continuarem sem público (excepto nos coquetails inaugurativos), devem, pura e simplesmente, ser substituídos por incumprimento de objectivos. As rotações do pessoal directivo, por sua vez, têm de deixar de ser, de uma vez por todas, uma pescadinha de rabo na boca e um assunto de família!

Neste contexto, a defesa de Pedro Lapa perante o ataque de Augusto M Seabra no passa de uma piedosa confissão de culpa. Os outros (Sardo, Pinharanda, Melo, etc.), pelos vistos, nem se atrevem a piar!

Tal como noutros dominios, a procissão ainda vai no adro. O essencial, porém, é que nenhum dos visados percebe patavina do que realmente está a acontecer na cultura contemporânea. Limitam-se a voar em bando e a escrever, muito de vez em quando, coisas ilegíveis. E por aqui morrerão. Cada vez menos contribuintes se dispõem, entretanto, a alimentar semelhantes pantomimas…

A arte pós-contemporânea já começou a ser outra coisa. Está bem e recomenda-se. Mas caminha para outra galáxia cultural, menos materialista, mais partilhada, mais democrática. Se me pagarem, eu digo-vos porquê. — ACP

Arte e Sistema (a Culturocracia, Prosseguindo)
Por AUGUSTO M. SEABRA
Domingo, 28 de Dezembro de 2003

O-A-M
blog #22
4 (?) Janeiro 2004

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