Guerra global

Iraque: conflitos assimétricos e guerra preventiva.

Iraque: vitima de guerraO-A-M
blog #24
18 Abril 2004

A guerra do Iraque continua. Continuou depois da queda de Bagdade, continuou depois da captura de Saddam Hussein, continuará depois de 30 de Junho de 2004. Não estamos, porém, confrontados com uma guerra qualquer. Esta é uma guerra de estilo novo: global, assimétrica, suja e hipermediática (de hipermédia…). Muito mal gerida pelos falcões de Washington. Ameaçando a estabilidade em toda a bacia mediterrânica. Impondo, em suma, o maior desafio estratégico que a Europa terá que enfrentar nos próximos 10 ou 20 anos.

A táctica dos assassínios selectivos, elevada por Israel à categoria de espectáculo mediático, contrapontual do efeito devastador das bombas humanas, não será a melhor ideia para o futuro desta complicação civilizacional, mas pode ter efeitos dissuasores de curto prazo e transformar-se num clássico do novo modelo de guerra assimétrica em curso (a chamada guerra anti-terrorista). As acções militares selectivas (por muito crua que seja esta afirmação) são menos letais do que as guerras civis, menos devastadoras do que as guerras militares convencionais e encontram-se a anos luz de um ataque químico ou nuclear. Estamos a falar de coisas terríveis, e no entanto, diante da evidência incontornável dos factos, não poderemos deixar de os analisar, nem deveremos, infelizmente, deixar de conjecturar as soluções que, em nosso entender, pareçam as mais humanas e objectivamente adequadas para estancar a hemorragia em curso e todo o espectáculo macabro que a rodeia. Pode ou não impor-se uma forma de governo representativo no Iraque? Isto é, pode-se ou não forçar a maioria Chiita a moderar a sua concepção doutrinária de Estado Islâmico? Eu creio que sim. Desde que todos tenhamos uma visão ponderada dos ciclos históricos. Se o socialista Zapatero ainda teve que jurar por um Rei e por uma Bíblia, para ser Chefe de um Governo europeu eleito por sufrágio directo e universal, por que não podemos ter todos um pouco mais de paciência para com o Iraque e o Mundo Árabe em geral? A eleição de Kerry poderia seguramente acelerar esta perspectiva. O novo Primeiro Ministro espanhol, ao decidir antecipar a retirada dos militares do seu País do Iraque, afirma no fundo o desejo de uma reaproximação da Espanha ao eixo Paris-Berlim, não deixando, por outro lado, de dar uma bofetada oportuna no Sr Bush e na estratégia da nova direita messiânica norte-americana. A ver vamos.

PS: o remoque de Durão Barroso ao seu homólogo Espanhol repõe os dois países onde estavam antes do Conselho de Guerra dos Açores: Portugal não deve perturbar a sua aliança estratégica (a qual impõe sacrifícios…) com o Reino Unido e a super-potência norte-americana; e Espanha deve retomar as suas prioridades mediterrânicas.

Antes de iniciar este blog escrevi alguns textos sobre o Iraque, que enviei por email e publiquei na revista O António Maria. Apesar dos raciocínios e sentimentos contraditórios neles manifestos, resolvi trazê-los de volta e arrumá-los por ordem cronológica. Quanto mais não seja, servir-me-ão de lastro a meditações futuras sobre a infindável imprestabilidade humana. — ACP

Lisboa, 04.03.2003

Vai correr tudo mal

Iraque: bomba de fragmentacao made in USAO somatório de testemunhos chegados ao meu portátil ao longo dos dois últimos meses não deixa margem para dúvidas sobre a natureza agressiva da actual Administração estado-unidense na sua mais recente tentativa de condução unilateral da política mundial. Sob o pretexto de uma mudança da natureza dos conflitos estratégicos, que os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 teriam confirmado, os estrategos mais duros da mão militar norte-americana decidiram ter chegado o momento de responder à guerra global e irregular das redes terroristas e dos Estados párias em geral com uma guerra não menos global e tão irregular quanto as circunstâncias o exigirem. Na sua perspectiva, o 11-9 provou que as chamadas guerras em rede, desterritorializadas, tendo como principal objectivo desorganizar o chamado mundo civilizado, democrático e rico, atingiram a idade adulta, e como tal, deverão esperar dessa mesma civilização, que pretendem destruir, uma resposta não apenas proporcional, mas também à altura da ameaça anunciada. Este maniqueísmo político comete um sério erro estratégico ao não tentar perceber por que raio será que o mundo está a ficar fora de controlo e tão anti-americano.

A crise económica deixou de ser um problema nacional, regional ou internacional, para passar a ser uma endemia sistemática e global, a que nenhum dos remédios conhecidos tem trazido significativas melhorias. A guerra é outra das doenças generalizadas, aparentemente sem cura. E a corrupção, por sua vez, agrava ainda mais estes dois flagelos humanitários. A fome e a violência assassina que aí vêm serão inevitavelmente portadoras das mais diversas máscaras e ideologias, mas a causa comum que fará delas a frente imparável da entropia e da distopia em curso é uma só: a derrapagem antropológica da espécie.

Quando se diz que a guerra do Iraque é uma guerra pelo controlo inequívoco das fontes energéticas a favor do grupo de países industrializados, democráticos e ricos do planeta (E.U.A., Canadá, Europa, Japão, Austrália e Rússia, mais uma banda flutuante de países aliados ou historicamente associados), e que portanto não há motivos para divergências fundamentais no seu seio, está-se de facto a sublinhar o óbvio. A divergência actual entre a Europa e os Estados Unidos, por muito importante que seja ? e a possibilidade da moeda europeia vir a substituir o dólar norte-americano em muitas das transacções internacionais, como as que dizem respeito ao petróleo, é uma divergência importante (que aflige os bonecreiros que agitam o neurónio sobrevivente do Sr. Bush) ?, não mostra a verdadeira linha divisória da crise actual.

A crise tem uma causa única, e essa decorre da nossa própria derrapagem enquanto espécie. Se os estudos pioneiros sobre a sustentabilidade da Humanidade, realizados por Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows e Jørgen Randers (“The Limits to Growth”, 1972, e “Beyond the Limits”, 1992) fazem algum sentido, e eu creio que fazem, estamos a menos de 20 anos de uma catástrofe antropológica sem precedentes, aliás irremediável, se as coisas continuarem fora de controlo, como de momento estão. O actual modelo de crescimento económico e o actual modelo de felicidade não só se esgotaram, como podem ter exaurido a nossa própria viabilidade enquanto espécie. E assim como um número apreciável de formas de vida desaparecem para sempre em cada dia que passa, nada impede que o nosso fim esteja mais próximo do que somos capazes de admitir. Num dos cenários previstos em “Beyond the Limits”, por volta de 2020 assistir-se-à a uma queda brutal e simultânea da população, da produção industrial, das reservas alimentares, da esperança de vida, do consumo ‘per capita’, da quantidade de alimentos disponíveis e dos serviços (saúde, educação, regime de pensões, justiça, comunicações, serviços municipalizados de água e energia, etc.) Pode alguém imaginar o significado subjectivo deste cenário computacional?!

A resposta dos falcões americanos à crise actual traduz uma visão totalitária do futuro. Para eles, bem informados sobre a escassez dos recursos e sobre os devastadores efeitos retroactivos do modelo de crescimento capitalista, há que potenciar ainda mais as assimetrias socio-económicos actuais e assegurar sem hesitação a distribuição desigual dos recursos. Se for necessário, e será seguramente necessário (!), a fome e a guerra devidamente telecomandadas levarão a cabo a espinhosa missão de corrigir os excessos demográficos. A guerra, incluindo sofisticados sistemas de guerra nuclear limitada, de guerra logística, de guerrilha planetária e de guerra electrónica, poderão ser uma realidade inescapável nas próximas décadas. A sua função será sobretudo uma função separativa e concentracionária, deixando depois à economia da escassez a missão aniquiladora. De facto, o controlo violento das reservas energéticas e o controlo violento dos movimentos demográficos são os elementos básicos da estratégia posta em marcha pelos actuais sectores radicais do Capitalismo. Bush é apenas a figurinha caricata desta larga e macabra manobra de sobrevivência, a todo o custo, de um modelo civilizacional exangue (mas nem por isso menos disposto a fazer correr rios de sangue e sofrimento). Tony Blair representa o elo de ligação (só aparentemente em risco) entre o polícia americano e a velha Europa. Os senhores Barroso, Portas e Aznar, que deveriam estar proporcionalmente calados à sua óbvia falta de dimensão estratégica e operacional, revelam também, no seu atlantismo frenético, a mesma verdade básica desta crise: nada de definitivo irá separar o continente americano da Europa na grande tempestade que se avizinha.

Esta rigidez estratégica, somada a uma escandalosa crise económica, torna os norte-americanos cada vez mais impróprios para liderar a imprescindível reorganização do mundo. Por outro lado, este mesmo unilateralismo cultural estimula, por contraposição, a expansão de uma conectividade anti-imperialista sem precedentes. No pior dos cenários (já anunciado pela Coreia do Norte), vários serão os Estados e redes clandestinas ao serviço das mais variadas causas desesperadas, dispostos a jogar a roleta russa da guerra biológica, química e nuclear, contra os Estados Unidos e os seus agentes político-comerciais instalados em países maioritariamente muçulmanos. A segunda guerra do Iraque colocará os EUA num isolamento profundo, empurrando a Europa para um protagonismo de tipo novo. A Europa que se prepare, pois, para as pesadas responsabilidades que aí vêm. Receber uma mais do que previsível vaga de imigração norte-americana (imigração humana e imigração de capitais) será uma delas. Mas desenhar a travagem de emergência que assegure a sobrevivência e sustentabilidade da espécie humana, em colaboração com o resto do mundo, é desde já o seu maior desafio. Um desafio, porém, que não poderá ser confiado apenas aos modelos tradicionais da política: inquinados pela corrupção e pela inércia dos privilégios burocráticos.

Apesar de a Europa surgir nesta fase da confusão, como um bloco geo-estratégico flexível e com credibilidade negocial, apenas a realidade aumentada de uma República Electrónica baseada na conectividade humanista pós-política poderá gerar as energias suficientes para corrigir a trajectória suicida deste vai-e-vem chamado Terra.

Poucos mortos!

Ministerio iraquinao de PlaneamentoPost Scriptum. Lisboa, 17.03.2003, 14:22.
O ‘ultimatum’ dos Açores acentua alguns elementos decisivos para a compreensão da crise actual:
1) seria um desastre para o futuro do mundo vermos os USA perderem completamente a face nesta partida de póker;
— o Reino Unido, o seu velho aliado (Portugal) e o seu velho inimigo (a Espanha), na sua divergência táctica com o eixo franco-alemão, acabam por tornar-se na principal força mediadora do tenebroso jogo de estratégia iniciado por esta crise de hegemonia;
— Portugal (através do seu Primeiro-Ministro), apesar da situação delicada em que se colocou e apesar das questões ideológicas entretanto chamadas à colação (como a radicalização militarista dos Estados Unidos), agiu correctamente sob pelo menos quatro pontos de vista: 1) respeitou as suas alianças estratégicas, com o Reino Unido, com a NATO e com os Estados Unidos; 2) coadjuvou e continuará a coadjuvar o Reino Unido no esforço de impedir o isolamento total dos Estados Unidos nesta crise; 3) toma posição como país independente, ao lado do sempre ambicioso vizinho castelhano, clarificando uma vez mais que, se houver iberismo, ele terá que ser multipolar; 4) e demonstrou ser capaz de, como pequeno país europeu, ter uma presença mais do que simbólica na decisiva partida de xadrez que se vai seguir.

O que está em causa neste funeral do ‘status quo’ saído das conferências de Ialta e Potsdam é a possibilidade de definir uma nova ordem mundial assente num efectivo eixo atlântico, ou, em alternativa, o caos que inevitavelmente adviria, quer dum isolamento excessivo dos EUA, quer da travagem do processo de construção europeia. A Europa continua a precisar do potencial tecnológico e militar dos EUA, mas estes vão precisar cada vez mais da parceria económica e diplomática europeia.

Se no plano ideológico, faz todo o sentido a actual movimentação pacifista, que como tal deve ser estimulada e defendida, se no plano político é preciso travar o desvario (muito pouco constitucional) do actual poder norte-americano, não deixa de ser igualmente certo que a crise iraquiana necessita de um desfecho justo, militarmente controlado, do qual resultem sinais muito claros para as ditaduras que se preparam para desestabilizar o planeta, e ainda, e de uma vez por todas, a solução do conflito entre Israel e a Palestina. Depois de desarmar o Iraque do seu potencial de armas de destruição massiva (nuclear, química e biológica), haverá que fazer o mesmo em Israel – custe o que custar! E já agora, daqui para a frente, que os franceses (fornecedores ilegais de tecnologia nuclear ao Iraque), os alemães (fornecedores ilegais de tecnologia química ao Iraque) e os norte-americanos (fornecedores de toda a espécie de merda bélica ao mesmo Iraque) aprendam a lição e não voltem a brincar com o fogo. Ao activismo planetário contra o terrorismo e a guerra, e pela sustentabilidade, compete manter a maior pressão possível sobre a carne irremediavelmente fraca dos políticos!

Desafio os intelectuais e os artistas independentes a acompanharem activamente a presente crise! — ACP

05 Mar 2003

O Lobo e o Cordeiro

Danos colateraisEsopo (circa 620aC-560aC):
Enquanto bebia água no cimo de um ribeiro, o lobo reparou num cordeiro alguns passos abaixo. Decidido a atacá-lo, começou a magicar numa desculpa plausível para fazer dele sua presa.

“Seu patife!” gritou, correndo até ao cordeiro. “Como te atreves a turvar a água que eu estou a beber!”
“Peço desculpa,” respondeu o cordeiro humildemente, “mas não vejo como posso ter feito alguma coisa à água que corre de si para mim, e não de mim para si.”
“Seja”, respondeu o lobo, “mas sabes muito bem que ainda há um ano andaste a chamar-me nomes feios pelas costas.”
“Mas, Senhor,” disse o cordeiro, “Eu nem sequer havia nascido há um ano.”
“Bem,” assertou o lobo, “se não foste tu, foi a tua mãe, e isso para mim é a mesma coisa. De qualquer maneira, não adianta tentares desviar-me do meu jantar.”

E sem uma palavra mais, caíu sobre o desgraçado e indefeso cordeiro, despedaçando-o.

Mutatis mutandis…

A actual campanha de Bush contra Saddam Hussein recorda inevitavelmente esta moraleja, ainda que no caso vertente, a ovelha seja obviamente ranhosa. A fábula, para ser justa, necessitaria agora de alguns ajustes:

“Era uma vez dois filhos da puta. Um tinha muito petróleo, mas queria mais. O outro tinha muito petróleo, mas queria ser o Senhor das Arábias e o Grande Senhor dos Petróleos. O primeiro filho da puta e muitos outros filhos da puta antes dele ajudaram o infiel dos bigodes a armar-se até aos dentes. Depois, deram-se todos conta que o problema do petróleo iria ser uma coisa mesmo séria por volta do ano 2020 dC. Seguiu-se a confusão planetária, na qual o dito Hussein passou a ser a grande desculpa para uma iguaria irresistível, cuja caça faria milhares de vítimas inocentes, no Iraque, e depois por todo o mundo.
Moral da história: um tirano encontrará sempre um pretexto para a sua tirania. Mas se queremos evitar a tirania temos que, a tempo e horas, ver-nos livres dos tiranos, ainda que vistam pele de cordeiro.

NT – Consta que o grego autor desta instrutiva fábula não resistiu à fúria do Governador de Atenas, Peisistratus, conhecido inimigo da liberdade de expressão. Esopo foi condenado à morte por sacrilégio e atirado por um penhasco abaixo. As fábulas, essas, sobreviveram. — ACP

Abril 2003

Colmeias Furiosas

11-S. Foto:GulnaraSamoilovaGlória ou ocaso de um império?

As pessoas atentas fazem perguntas como esta: se Nova Iorque ou Washington estivessem sujeitas ao terror de um bombardeamento aéreo ininterrupto semelhante ao que há mais de vinte dias cai sobre a cidade de Bagdade, qual seria a resposta do Governo norte-americano? Retaliaria ou não com armas de destruição massiva? Os EUA tiveram a ousadia e o despudor de serem o único país da Terra a usar semelhante armamento (contra o Japão, em 1945). Voltará ou não a fazê-lo?

Noam Chomsky, numa recente entrevista sobre o desvario do poder americano, refere-se ao caso iraquiano como a presa indefesa que a pandilha de Bush elegeu para cobaia da sua mais recente doutrina imperial: a doutrina da “guerra preventiva”. Esta doutrina, com laivos messiânicos, surgiu da ideia de que os Estados Unidos, para defender a sua actual posição hegemónica, hipoteticamente ameaçada por uma conspiração terrorista internacional, terá que impor uma “soberania limitada” a todas as restantes nações do mundo. E para tal, segundo a mesma doutrina (defendida por gentuça da laia de Richard Perle), arrogar-se-à a prerrogativa de pairar acima da ONU, da Convenção de Genebra e do Tribunal Penal Internacional, sempre que lhe convier, bem como de desencadear acções punitivas comerciais, diplomáticas e militares (incluindo o uso de armas nucleares tácticas) quando considerar que os interesses norte-americanos foram, estão ou poderão vir a ser postos em causa. Talvez isto não passe dum pesadelo passageiro. Mas a verdade é que existe a possibilidade desta perigosa deriva estratégica da maior potência militar do planeta nos conduzir a um aterrador beco sem saída!

Que está de facto em causa nesta agressão inqualificável contra um povo indefeso perante a tecnologia apocalíptica que sobre si se abateu? O terrorismo, o petróleo, a crise interna americana, a probabilidade de o Euro vir a substituir (ou coexistir com) o Dólar como divisa de referência internacional; o surgimento duma nova Europa, economicamente poderosa e militarmente espevitada, a probabilidade de uma aliança estratégica entre a Europa, a Rússia e o mundo árabe (face à iminente trilateralização geo-estratégica do planeta); ou o imparável isolamento cultural dos Estados Unidos da América? Quando os chacais rondarem a carcaça do regime iraquiano, perceberemos até onde a Europa foi ou não, é ou não, a verdadeira espinha finamente cravada nas amígdalas de Bush, Condolezza Rice, Donald Rumsfeld, Dick Cheeney e de muitas empresas americanas.

Entretanto, nem tudo parece perdido nesta crise.

Desde logo, porque tem sido precisamente nos Estados Unidos que a mais séria oposição civilizacional ao desvario paranóico dos falcões da indústria militar e do fundamentalismo protestante se tem manifestado com enorme determinação e coragem. As leis proto-fascistas de limitação das liberdades cívicas aprovadas pela duvidosa maioria do Congresso norte-americano (“His Fraudulency”, Bush II, teve menos 300 mil votos que Al Gore…), permitem sequestrar cidadãos, dentro e fora da América, para interrogatórios em regime de prisão preventiva, à margem de quaisquer controlos democráticos. Os Prémios Nobel da Paz, Jody Williams e Maidread Corrigan (conhecidas pela sua campanha para por fim ao fabrico de minas anti-pessoais), foram presas em Washington durante uma manifestação contra a agressão ao Iraque. Mas quando a maioria de que falam as sondagens acordar para as tremendas consequências desta guerra injusta, em cuja frente de batalha vimos todos meninos e meninas de 17 anos a combater pela bandeira americana, o actual protesto das largas franjas intelectualizadas da América explodirá como um verdadeiro enxame furioso em direcção à seita que tomou conta do Partido Republicano e de uma parte importante dos meios de comunicação de massas. Mais do que uma esperança e do que um desejo, esta parece-me em definitivo a evolução provável da situação política no complicado pós-guerra que se seguirá à tomada de Bagdade. Creio na democracia americana e sobretudo creio na formidável energia criadora da colmeia laica, trabalhadora, tenaz, tolerante e generosa amadurecida ao longo dos seus 200 anos de História. As críticas mais mordazes e lúcidas ao comportamento diabólico das corrompidas elites americanas têm-me chegado sobretudo de Nova Iorque (com especial destaque para a excelente Newsletter da Village Voice), de S. Francisco e em geral da muito vasta e muitíssimo activa web norte-americana.

A transparência mediática da actual crise contribuíu, como nenhum outro factor, e ao contrário do cepticismo anti-tecnológico e anti-informacional de alguns, para as dificuldades do comando aliado da guerra, para a exponenciação de um autêntico movimento global contra o “terror” desencadeado pela pandilha de Bush, e ainda para a imposição mediática do princípio da condenação e penalização populares dos chamados danos colaterais. Já imaginaram quão ciclópica será para os Estados Unidos montar a próxima campanha belicista? Pense-se, a título de exemplo, na Venezuela, em Cuba, na Coreia do Norte, na Arábia Saudita, ou no Irão. Acredito que o enxame da opinião pública planetária será capaz de travar tais cenários de “horror e espanto”, desmontando a barbárie contida na doutrina da chamada “guerra preventiva”. Temo, por outro lado, que a doutrina da dissuasão ganhe cada vez mais adeptos entre os alvos potenciais (alguns deles já enunciados!) do complexo industrial-militar dos EUA. — ACP

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