Ciberdependente

Quantas horas podemos estar sem conectividade?

O-A-M

#25

20 Abril 2004

Estive 36 horas (entre 19 e 20 de Abril) sem acesso à máquina, i.e. sem acesso à rede.

A primeira coisa que procurei perceber depois de desfazer a mala foi se o quarto, enfim o hotel tinha acesso Internet assegurado. Telefonei para a recepção. Uma voz feminina jovial diz-me que se conectasse o laptop à linha do telefone, e depois marcasse para um ISP, teria Internet… O Extremadura Hotel, de Cáceres, apesar de novo, parecia velho em matéria de conectividade.

Busquei nas listas telefónicas disponíveis no quarto. Nada, nem sequer uma entrada autónoma para Internet. As poucas entradas para ciber cafés deixavam-me desesperado. Será que ainda existem uns números de acesso gratuito em Espanha, como sucedeu na minha última estadia em Sevilha, no Hotel Meliá. Meia hora a folhear as listinhas, e nada!

Desisti por momentos, e continuei a arrumar as coisas. Liguei a televisão. O Zapatero parece que vai cumprir o prometido. As imagens espectaculares de um carro de Rally a atropelar mãe e filhote repetem-se insanamente. Os concursos e os “reality shows” alastram como uma praga monótona sobre o espectro radioeléctrico. Vou tomar um duche. Os filmes pornos disponíveis são, como de costume, péssimos. A publicidade televisiva espanhola continua divertida. Preciso desesperadamente de me ligar à máquina…

Jantei meio lombinho de porco com molho de queijo de ovelha e batatas fritas. Come-se bem em Cáceres! O Protos, um Ribera del Duero que raramente nos deixa ficar mal, ajustou-se à degustação. “Vuelvo a la habitación”. O lixo televisivo continua. Salva-me do naufrágio um documentário corajoso sobre a prostituição fina e a escravatura de mulheres em Espanha. Fiquei a saber que por 3000 euros posso comprar, comprar literalmente (e também libertar da escravatura sexual) uma “jovencita” mexicana ou romena. Fiquei a saber que para foder uma “pessoa famosa”, tipo locutora de televisão, cantora, modelo, etc., preciso de 600 a 30 mil euros, dependendo, claro está, da exclusividade deste tipo de estrelas, nem sempre disponíveis – “por supuesto”!

Acordei cedo. O pequeno almoço continental compõe-se de dois copos de água fria de Mondariz, um chá preto e uma torrada com azeite e tomate. Quando me preparo para regressar ao quarto, passo pelo balcão e reparo num autocolante que diz: “Wi-Fi en este hotel”. Pergunto como funciona. Não sabe. Nem tem nenhum folheto sobre o assunto. Subo a correr para o quarto 102. Mudo as configurações do TCP do meu iBook para Airport. Aguardo… Nada!

Telefono para a recepção. Não, não funciona. E não sabe como? Não, não sabe… Mas poderá informar-se? Concerteza. O tempo passa e tenho que ir até à cidade velha. Também por lá, desta vez em trabalho, tenho um breve contratempo com a ligação de uns Macs a uma rede institucional. Duas horas depois, problema resolvido. Menos mal.

De volta ao hotel, a boa notícia: o Sr. director do Hotel vai facultar-me “una tarjeta” de acesso à rede Wi-Fi! Terei, no entanto, que mudar de andar, pois a rede apenas abrange o piso de entrada e os últimos dois andares do hotel. Nenhum problema, é p’ra já!

A coisa tem a sua cerimónia. Aguardo o Sr director no hall. Desembrulho um rebuçado, enquanto alguns alemães fazem perguntas e um espanhol marca um serviço especial para uma Primeira Comunhão. Chega sorridente, como se viesse dar-me as chaves dum Ferrari. Eu creio que ele me vai mesmo dar-me as chaves do meu Ferrari! Momento irritante: o tempo que o Snow White (assim se chama o meu iBook) demora a pôr a trabalhar o sistema operativo e toda a tralha de extensões do sistema. “Tarda mucho ese macintosh”, comenta o interlocutor de circunstância, que obviamente pertence ao proletariado microsoft. Sorrio sem esboçar a mínima irritação. O importante é atingir o objectivo. Mais uns irritantes segundos, e já está! Como se o presente fosse pequeno, fico ainda a saber que a Telefónica me regala o acesso durante a minha estadia, pois está dando início, e por conseguinte promovendo, esta novidade. Depois a coisa irá custar uns 12 euros por dia. É caro, mas nenhum ciberdependente, como eu, vai hesitar um segundo. Os economistas chamam-lhe rigidez da procura. E eu chamo-lhes (aos donos do negócio, claro está) filhos da…

Dirigo-me para o quarto. Arrumo tudo e espero que alguém me ajude a mudar de poiso. Um rapaz dos seus 19 anos surge poucos minutos depois. Ao entrarmos no elevador pergunta-me: “por lo de la web, verdad?”. Sim… “Yo se, me pasa lo mismo. No puedo estar sin conexión…”

36 horas sem máquina, 20 e poucas mensagens úteis, 300 e tantas mais de spam. Limpei a caixa de correio. Respondi de imediato às mensagens urgentes. Pensei na mini crise de abstinência por que passara. Deverei marcar uma consulta sobre ciberdependência? — ACP

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