Women on Waves 6

Artista, médica e navegante holandesa põe Governo Português em transe ideológico

WoW modelO-A-M
#46
02 Setembro 2004
Poucos saberão que há precisamente um ano as Women on Waves (WoW), apresentaram na Mediamatic Foundation / perspectives on digital culture uma exposição da sua actividade simultaneamente social, política e artística. Nela se puderam apreciar quatro instalações de Willem Velthoven, em colaboração com Rebecca Gomperts, a clínica móvel de abortos, A Portable, do Atelier van Lieshout (AvL), e documentação sobre a então mais recente expedição marítima das WoW. A clínica móvel, A-Portable, continua a ser considerada uma peça chave do Atelier van Lieshout, tendo sido aliás apresentada na Bienal de Veneza (2001) e na AvL Ville (Roterdão, 2002).
Como podemos ler no Sítio da Mediamatic Supermarkt,

“os projectos iniciados pelas WoW transcendem as fronteiras tradicionais; não apenas entre países, mas também em domínios profissionais diversos, tais como o direito, a medicina, a navegação marítima, a arte e a literatura. Um dos objectivos cruciais das WoW é alertar a opinião pública. A par das campanhas de sensibilização e apoio, as artes visuais e os novos média, mas também a moda e a imagem em movimento têm-se vindo a revelar como ferramentas importantes deste projecto”.

Olhando para a história recente dos tactical media e do hacktivismo, categorias com menos de uma década, daquilo a que poderíamos chamar uma arte pós-Contemporânea, este foi porventura o gesto ético e artístico com maiores repercussões no quotidiano sócio-político de um País. Não se trata de nenhuma brincadeira. Mas poucas vezes uma “obra de arte” — ainda que híbrida—, foi capaz de precipitar um Governo europeu em tamanha atrapalhação. Enviar navios de guerra (ainda que obsoletos) contra uma embarcação europeia, desarmada, pacífica, com uma tripulação exclusivamente feminina e em missão ideológica mais do que legítima, deixou a actual maioria governamental numa figura caricata dificilmente ultrapassável. A gargalhada seria geral se o assunto não fosse, como é, demasiado sério.

Soube que a manifestação de ontem em frente à residência do Primeiro-Ministro foi, como muitas outras, anémica e pobre de ideias. A culpa principal é, obviamente, da decadência manifesta das forças políticas tradicionais (partidos, grémios e sindicatos); demasiado usadas, falhas de imaginação, burocratizadas e sobretudo corrompidas pela proximidade do Poder que a Democracia naturalmente lhes faculta. Creio sinceramente que a reforma dos métodos de debate e agitação política já só pode ter origem em vórtices criativos exteriores a este tipo de organizações. As ONG são um bom começo. Mas a minha convicção profunda é que o mais interessante há-de surgir dos novos colectivos em torno daquilo a que poderíamos chamar criatividade cognitiva. Mas para chegarmos aqui — como o fez Rebecca Gomperts e as WoW, precisamos de entender uma coisa essencial: vivemos sob a influência permanente de um novo tipo de realidade. Chama-se realismo mediático.

PS1 — As declarações do Primeiro-Ministro, à saída do Palácio de Belém, sobre o agendamento político da legislação sobre o aborto no decorrer do novo ano parlamentar, podendo ter em vista regulamentar a actual Lei por forma a incluir os riscos psicológicos no elenco das condições clínicas que possibilitam a IVG, é, para além de uma bofetada de luva branca no Sr Portas, um sinal extremamente auspicioso para o desenrolar civilizado deste terrível debate. Esperar para ver…

PS2 — Devo ao Nuno Sacramento (a quem enviei os meus blogs sobre as WoW) o link que me permitiu este artigo.

PS3 — No âmbito da Porto 2001, a convite de Miguel von Haffe Pérez, Meta Bauer comissariou a exposição First Story-Women Building / New Narratives for the 21st Century, na qual as WoW participaram. A acção em que estão neste momento envolvidas é assim uma segunda visita ao nosso País, cujo êxito espectacular se está a dever em grande medida ao atrofiamento neuronal irreversível dos rapazes que actualmente cavalgam o Governo Português. [04 Set 2004]

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