Socrates 3

Manuel Alegre: o pragmatismo das causas

Já se sabia que o candidato do aparelho iria ganhar. Tinha tudo a seu favor na lógica burocrática e interesseira dos exangues partidos políticos da nossa democracia. Mas o que não se sabia é que Manuel Alegre iria protagonizar o início de uma metamorfose profunda no pragmatismo corrompido de que padece a generalidade das forças partidárias do nosso País. De facto, o pragmatismo dos interesses, das subserviências e das pequenas e grandes corrupções chegou ao fim.
Maria Belem Roseira

E chegou ao fim por uma simples e única razão: deixou de haver margem de manobra para o despesismo corrupto, para a irresponsabilidade política e para a indecência manifesta. O tempo das vacas gordas dos Fundos de Coesão chegou ao fim. Malbaratámos esta oportunidade única de organizar as nossas vidas? Os políticos passaram o tempo a tomar conta de si mesmos? Deixaram o País de tanga e sem ideias? Vem aí um ciclo irreversível de recessões e uma imparável curva ascendente nos custos da energia e do dinheiro? Que fazer com os políticos que temos? Para já, vigiá-los de perto e sem descanso!

A vitória de Manuel Alegre não passou nunca por ganhar agora a direcção do PS. Passou sim, e conseguiu-o, por mobilizar a opinião socialista para o futuro da força partidária que, sózinha ou acompanhada, terá o destino do País nas mãos em 2006 ou em 2010. O número, sem precedentes, de militantes que pagaram as quotas atrasadas e acorreram às urnas, e o número de votantes regulares no PS que pediram — e continuarão a pedir — a sua adesão ao partido (entre os quais me incluo), não apenas na esperança de uma mudança imediata do comportamento político e ético do PS, mas sobretudo pela convicção de que é urgente preparar o Partido Socialista para os desafios dramáticos que a sociedade Portuguesa vai encontrar nas próximas duas décadas, representam, creio bem, o início de uma metamorfose sem precendentes na história dos partidos Portugueses. Os desafios do futuro imediato exigem, pois, muito mais do que um mero rotativismo eleitoral em volta do bloco central dos interesses que, ao longo das últimas décadas, se revelou incapaz de definir uma estratégia clara e sustentável para Portugal, mas soube, isso sim, aproveitar-se sem escrúpulos da abundância que transbordava das mesas orçamentais do poder.

Manuel Alegre e a sua equipa estão pois de parabéns por esta extraordinária e corajosa pedrada no charco.
Os escriturários da opinião pública, disfarçados nas suas cândidas máscaras de isenção jornalística (como se boa parte do jornalismo que temos não fosse uma mera sucursal das agendas políticas do atarantado poder económico lusitano), versejaram sobre as virtudes do pragmatismo, em volta da improbabilidade ministerial de Manuel Alegre, esquecendo que, a seu tempo, não faltarão nem candidatos nem boas escolhas, seja para o Governo, seja para a Presidência da República. Bastaria um pouco de honestidade intelectual para ter reparado na qualidade programática do Manifesto proposto por Manuel Alegre (sobretudo o ponto relativo à necessidade de recuperar a ideia de um Estado Estratega, por oposição ao traiçoeiro Estado Mínimo). Bastaria ter reparado nas prestações de Maria Belém Roseira, para saber que a mesma seria uma Primeira-Ministra infinitamente mais inteligente, arguta e humana que o populista desastrado Pedro Santana Lopes, o qual herdou o poder dum correlegionário transfuga, como se o poder não passasse duma Lotaria de fim-de-semana. Se os opinadores de pacotilha não dependessem tanto do que lhes pagam para dizer e escrever baboseiras, talvez dissessem a verdade. Assim, apenas conspiram a soldo do status quo.

Como escrevi, a propósito do escândalo de pedofilia (não percebo que faziam os manos Pedroso no campo de visão dos média, a noite passada, na sede de campanha de Manuel Alegre…), e também sobre a evolução da actual coligação partidária de direita, o sistema político estabilizado (e corrompido) em volta de um Bloco Central de poder acabou. Tal só foi possível enquanto rios de dinheiro afluiam ao nosso País. O mundo Ocidental vai ser forçado a aprender a superar a ideologia consumista, e o nosso País vai atravessar um longo período de penúria orçamental, desemprego e mal-estar. Neste quadro político-social, nada impedirá a radical clarificação dos interesses de cada um. Os partidos políticos tenderão, pois, a ser mais descaradamente liberais e populistas na banda direita do espectro partidário (a solução Buchista é a preferida pelo estratega Paulo Portas), e mais intervencionistas e sociais (sem prejuízo de um inevitável emagrecimento do Estado) na banda esquerda do mesmo espectro eleitoral. Isto significa que o tempo das maiorias absolutas (aliás episódico) acabou definitivamente. O nosso sistema partidário vai ter que aprender rapidamente a preparar cenários estratégicos de cooperação formal, i.e. coligações eleitorais de incidência governamental. O novo rotativismo será assim muito mais clarificador para todos os que votam e para todos os que exercem o poder.

Mas voltando ao novo sistema partidário em gestação (por força da dramatização social que aí vem), e que, em boa verdade, começou a ganhar claramemte forma na banda direita do espectro partidário, a partir do núcleo inovador formado em torno de Paulo Portas, o Partido Socialista, depois das eleições primárias de ontem, viu abrirem-se as portas de Pandora a uma transformação inevitável — a que José Sócrates deverá prestar a melhor atenção, se não quiser naufragar rapidamente nas tumultuosas águas conspirativas do aparelho que o elegeu. As direcções partidárias de todos os partidos com ambição governamental (mas também os sindicatos e associações patronais, as ONGs, etc.) terão, a partir agora, que adoptar mecanismos eleitorais e de validação das suas estruturas, públicos e transparentes . Sobretudo os partidos políticos, terão que abrir as suas portas, de forma institucionalmente clara, a quem neles vota. É por isto, e não pela espuma eleitoral de ontem, que a derrota de Manuel Alegre foi uma vitória.

– O-A-M #49 26 Setembro 2004

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