Livros escolares

Deputados, professores, editores e sindicalistas (apenas parte deles, claro) instalaram no País uma rede de cumplicidades altamente duvidosa, cujo resultado é o inacreditável negócio dos livros escolares. Cada escola decide como quer os livros que impõe aos seus alunos. Os livros, por sua vez, são “actualizados” praticamente todos os anos. Como se não bastassem estes manuais, os empresários do sector (os editores) inventaram e convenceram os profs que seria muito interessante juntar aos ditos, uns cadernozitos de exercícios, e fazer uns lindos pacotes (“bundles”, como dizem os anglo-saxões), de que os pais não conseguem safar-se, mesmo que achem tais apêndices um substituto indecente da própria actividade esperada dos docentes. Como o peso dos custos assumidos pelas famílias com este negócio indecente não pára de crescer, os generosos bancos deste País matraqueiam os média com publicidade enganosa sobre a solução milagrosa dos seus créditos à compra de livros escolares — compre agora, e pague depois! Concluindo: o negócio do livro escolar, tal como está, precisa urgentemente de ser objecto de um inquérito implacável, pois tudo leva a crer que o mesmo se transformou nos últimos anos (com o beneplácito do PS e do PSD) numa ilegítima, irracional, inadmissível, escandalosa e pouco menos que mafiosa actividade. O País é pobre, os políticos são os primeiros a sabê-lo, e alguém anda a roubar as famílias portuguesas à pala do direito à educação!

Se há um ensino obrigatório, universal e gratuito para os primeiros doze anos de vida de cada cidadão, é óbvio que tal gratuitidade deve abranger os manuais escolares, e assim sendo, a produção destes e a sua utilização devem obedecer a uma gestão de recursos inteligente e rigorosa. Isto significa, por exemplo, que para cada disciplina devrá haver apenas um ou dois modelos disponíveis, sendo que ambos terão que obedecer aos conteúdos pedagógicos e respectiva metodologia expositiva decididos em sede governamental (seja esta o Ministério da Educação, ou outra instância reguladora, por exemplo, um Conselho Nacional de Educação, onde tenham assento as várias partes envolvidas no préstimo e recepção do bem educativo). A actualização objectiva das matérias pedagógicas a transmitir aos alunos deve ser produzida com conta, peso e medida, e sobretudo com um enorme sentido de responsabilidade científica, pedagógica e orçamental. Como pode aliás ser doutra maneira, quando todos os exames de fim de curso, ou ainda de acesso a graus subsequentes de ensino, são, como devem ser, exames nacionais? Como pode co-existir a actual bandalheira dos manuais escolares com a norma dos exames nacionais?! Cheira demais a negócio sórdido e a cumplicidade de interesses, para que não se exija de imediato a mudança radical do actual regime.

Para os que argumentam contra a gratuitidade dos livros escolares necessários ao cumprimento da escolaridade obrigatória, com base no peso desta medida no OGE, a resposta é simples: se o ensino é obrigatório, por fazer parte de uma assunção constitucional, e sobretudo estratégica, da nossa identidade cultural, então as ferramentas básicas do mesmo devem ser facultadas gratuitamente. Refiro-me, naturalmente, aos livros escolares, ao transporte escolar, ao desporto e outras actividades extra-curriculares realizadas no interior do recinto escolar e ainda aos apoios pedagógicos especiais. Tudo isto é óbvio, mas não necessariamente insuportável em termos orçamentais. Um exemplo: já alguém pensou na poupança que poderíamos ganhar imediatamente com a distribuição gratuita dos manuais escolares se os mesmos fossem distribuidos via Internet, em formato PDF, deixando-se aos alunos a opção de imprimir ou não, em cada momento, as páginas necessárias ao seu trabalho?

Pois aqui está uma “nova fronteira” a ultrapassar pelas novas energias convocadas por José Sócrates.

O-A-M #53 03 Outubro 2004

6 responses to “Livros escolares

  1. O post é muito bom! Na minha opinião toca naquilo que é essencial e dá
    pistas excelentes para melhorias no assunto. Pelo que me foi informado
    directamente por um amigo meu que paginava numa editora famosa, o negócio é de muitos, mas muitos milhões mesmo. Ao ponto da própria editora dizer que
    suportaria vários anos de prejuízo caso as coisas não corressem bem. Há uma
    generalizada falta de consciência que regularmente me tenho debatido com
    muita gente; por exemplo, não sei se já pegaste numa mochila de um puto de
    escola, é um pêso impressionante. E se abrires, verás práticamente livros e
    mais livros. Os miúdos andam aos pulos com aquilo às costas, e de certeza
    terão problemas de coluna mais tarde.Contudo, os meus colegas continuam a
    fazer pressão para que tragam os livros diáriamente para poderem dar as suas
    aulas. De facto a ideia dos PDF era excelente, só que obrigaria um
    elevadissimo investimento informático, coisa que o Ministério está anos luz
    de o fazer. A política actual dos governos é cada vez mais desactualizar e desprestigiar o ensino público para passar a bola aos privados. Por isso: ensino barato, sim! E de preferência com muitos escândalos e confusões!
    L.

  2. O peso das mochilas, tema tb referido no programa da TSF dedicado ao tema dos livros escolares (e que motivou o meu blog), não deixa de ser curial, e uma boa razão para as Associações de Pais e de Alunos se manifestarem contra todo este sistema perverso.
    Por outro lado, os PDFs ficariam muito mais baratos, para todos os que pagam impostos e financiam o Ensino Público, do que o corrupto sistema actual, de que os Senhores Deputados e respectivos Partidos são inegáveis responsáveis. Sobretudo se for complementado por pequenas bibliotecas de apoio em cada escola, onde os alunos poderiam livremenmte imprimir paulatinamente os capítulos dos vários manuais, à medida que fossem sendo necessários, e consultar material didáctico interactivo relacionado com as matérias aprovadas para cada curso. Parte deste material deveria, por outro lado, ser acessível através de Sítios e Blogues devidamente assinalados no mapa virtual de cada escola. Há uma infinidade de alternativas à exploração actualmente alimentada em volta dos materiais pedagógicos inerentes ao ciclo da Escolaridade Obrigatória. — AC-P

  3. De facto é uma excelente ideia, a tua. Contudo, e como conhecedor do campo em discusão, digo-te que a título de mero exemplo; o ano passado as funcionárias lavavam o chão da escola só com água porque nem sempre havia verba para comprar detergente.
    E eu com esta minha igenuidade ainda acreditei que esta trapalhada toda dos concursos, corresponderia a um -11 de Setembro- do ensino público. Pelos vistos, “está tudo na maior” e continuam a passar a batata quente uns aos outros na comunicação social. Creio que definitivamente não há remédio….
    LB

  4. …ingenuidade, desculpa.

  5. de Bernardo Almeida e Silva

    …poid é, mas o que por vezes alguns papás não sabem, é que outros papás fazem pressão para não existirem trabalhos extra-escolares, pois os cérebrelos dos putos podem queimar e lá se vai o resto…. até me apareceu uma mamã a pedir explicações, com ares de gina, porque o teste seria muito difícil…. “o que é que o sr. quer, ò doutor? chumbar os meninos?”, entre outros chorrilhos de tangas manhosas…. e depois, se trabalharmos pelos livrinhos auxiliares (onde já la estão as respostas) é muito mais fácil….. até breve!

  6. A ideia dos ficheiros em PDF é genial. Todas as escolas têm Internet, pelo que todos os alunos sem computador ou sem ligação à Net, poderiam gravar as páginas que entendessem ou imprimi-las na escola por um preço adequado. Seria seguramenta mais barato que comprar o manual. Mas… e os lobbies????????? Houvesse coragem e o nosso País seria outro!

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