Bloco útil

simbolo IV Internacional

Debate televisivo.
Finalmente, Francisco Louçã, esteve a um passo dos 10% e de obrigar o Partido Socialista a uma inevitável coligação.

Regressei hoje de Madrid depois de uma semana algo agitada. A ETA fez explodir um engenho propagandístico a uns trezentos metros da porta principal do Recinto Ferial de Madrid, ferindo quarenta e duas pessoas com estilhaços provocados pela onda de choque. Ardeu por completo um dos arranha-céus emblemáticos da cidade (o edifício Windsor). PSOE e PP comungam argumentos e arengam picardias em volta das vantagens de votar Sim no referendo sobre o Tratado Constitucional Europeu, que terá lugar este Domingo. Os canais públicos e privados de televisão continuam a dedicar-se entusiasticamemte ao tele-lixo. A Gran Via tem cada vez mais putas e chulos africanos e latino-americanos. Os asiáticos, sobretudo chineses, continuam, como formiguinhas, a construir a China Town Madrid. A feira de arte continua no impasse. O El País dedicou duas páginas à crise portuguesa (adoram as nossas depressões!) Em suma, os restaurantes étnicos começam finalmente a oferecer alternativas decentes aos eternos calamares fritos andaluzes, à paelha valenciana, ao pulpo galego e à tortilha espanhola. Escutando uma conversa de Metro, fiquei a saber que, afinal, o alcoviteiro Santana não passa dum homossexual recalcado. A prova estaria nas tareias que o citado teria dado em todas as mulheres que foram ao castigo, excepto uma, que lhe partira o braço. “Está provado!” assegurava furiosamente o português pequenino à que parecia ser sua esposa, de meia-idade, bem fornecida de carnes, de peles e de muita laca, no regresso acalorado ao hotel, depois de uma peregrinação aparvalhada pelos pavilhões 7 e 9 do ARCO. Quando chego a Lisboa, naquele estado de semi-alucinação que caracteriza a última e terrível hora de uma condução nocturna depois de sete dias de trabalho, leio num cartaz do PS mais uma alusão soez à putativa homossexualidade do candidato a Primeiro-Ministro, pichada, seguramente, pela central de contra-informação e provocação da canalha santanista. Regresso à realidade. Fui dormir descansado.

A tarde anunciava-se magnífica. Depois de uma pescada com grelos e cenoura, sem sal e regada com azeite, fui dar um passeio pela praia de Carcavelos. Cães saudavelmente à solta. Temperatura primaveril. Corpos buscando o bronze fora de época. Gente linda. A companhia agradável dos surfistas esperando pelas suas ondas. O som do mar e do Sol. O horizonte cinematográfico. O decrépito Narciso ainda por demolir. O Ministério do Ambiente regularizando a orla, como que a pedir mais uns votos para Paulo Portas. Ouvir de novo a Cândida. Saudades súbitas da filha que deixara quinze horas antes em Madrid. A minha praia… Trocá-la por outro paraíso qualquer? Os 42 voos que saiem semanalmente para o Brasil bailam frequentemente no painel das opções anti-crise. Seria capaz de deixar a minha praia? Nunca se sabe…

O combate político das oito e trinta chegou finalmente. Atacado por uma afonia radical, o representante comunista viu-se obrigado abandonar o estúdio da RTP depois de balbuciar algumas palavras duras contra a hipocrisia da direita no que toca às pensões de reforma. O actual primeiro-ministro esteve igual a si próprio, e por isso não convenceu ninguém sobre as suas intenções (paz à sua alma política!) O futuro primeiro-ministro esteve francamente melhor do que nas aparições anteriores (mas só por uma unha negra conseguirá a almejada maioria absoluta). Paulo Portas, na pretensão idiota de conciliar a sua homossexualidade escondida, como um direito de privacidade indiscutível, com a devassa e o castigo que continua a pretender infligir às mulheres que se vêm forçadas à interrupção voluntária da gravidez, bem pode pregar às classes médias, que estas, cada vez mais empobrecidas e ameaçadas pela liberalização dos serviços de saúde, só se fossem completamente tontas, lhe dariam um voto sequer. Finalmente, Francisco Louçã, esteve a um passo dos 10% e de obrigar o Partido Socialista a uma inevitável coligação. Digo a um passo, porque para chegar a convencer-me a mudar a minha intenção de votar no PS teria que ter dito uma frase mágica: sim, se for preciso, o Bloco de Esquerda estará disposto a viabilizar os orçamentos propostos pelo futuro governo do PS, afastando por um razoável período de tempo a direita do poder, e garantindo um efeito moderador em todos os sacrifícios que vierem a ser pedidos aos portugueses na corrida económica que se avizinha.

Seja como for, Francisco Louçã foi o mais convincente líder político desta campanha eleitoral. Sempre teve uma formação marxista mais sólida do que a de Durão Barroso ou de António Gueterres. É um economista de formação. Já percebeu que o futuro que aí vem — no plano geo-estratégico mundial — é mesmo preocupante. Sabe que a sua voz vai ser marcante nos próximos anos da vida política portuguesa. Falta-lhe, tão só, arriscar-se a governar. Trotsky fá-lo-ia certamente nas actuais circunstâncias civilizacionais.

No boletim da IV Internacional (Trotskysta) pode ler-se, a propósito da transformação táctica do PSR em associação política: Le congrès a donc pris la décision de se transformer de parti en association, en ajustant l’ intervention de la section de l’ Internationale au changement de conditions qui avait eu lieu, et dans l’ intention de donner à cette intervention une base plus solide et plus réaliste. Les textes votés répondent aussi à diverses questions politiques et d’ organisation d’une actualité brûlante, en rejetant par exemple les tentations ministérialistes et en réaffirmant la validité du centralisme démocratique comme principe d’ orientation du fonctionnement interne de l’ association.

O-A-M #69 16 Fev 2005

3 responses to “Bloco útil

  1. Um dos problemas deste país é ter muita gente, que fala do que não sabe.Quando o bloguista fala do “decrépito” Narciso, na Praia de Carcavelos, e diz “ainda por demolir”, mostra que se integra perfeitamente no tipo de pessoas que tem o problema atrás mencionado.Para sua informação, o tipo de construção em que foi feito o edifício Narciso, é, de longe, muito superior a qualquer outra construção de praia feita hoje. Obviamente que precisa de renovar a fachada e remover os vestígios de vandalismo.Por outro lado, quando fala em demolir, porventura saberá algo que mais ninguém sabe? A única infra-estrutura que se prevê demolição, nos termos do POOC são os balneários ao lado do Narciso, e nada mais.Aliás, o Presidente da Câmara de Cascais, pretende adquirir aos proprietários do Narciso a parte do imóvel referente à estalagem, onde tenciona fazer uma Pousada da Juventude.

  2. Estimavel Pedro Santos,1 — O Narciso encontra-se há muitos anos num estado inacreditavelmente decrépito. Só mesmo num país do terceiro mundo é que se tolera semelhante situação em lugar tão espectacular. 2 — Se o Presidente da Câmara de Cascais vai comprar o edifício para uma estalagem da juventude? Pois fará muito bem. Ou muito mal… Antes de tomar a decisão, talvez devesse atender primeiro ao historial da praia e à natureza da sua ocupação tradicional e expectável. Uma estalagem da juventude insustentável economicamente, a menos de 800 metros de outra unidade semelhante (no Catalazete, creio) pode ser uma daquelas ideia peregrinas, pouco claras, que não lembra ao diabo…3 — A praia de Carcavelos precisa de uma requalificação séria, articulada com o futuro da Quinta dos Ingleses, e não de remendos e atavios, cujo resultado tem sido até aqui pouco mais do que a perpetuação dum lugar degradado, onde toda a gente faz o que quer: estacionamento selvagem, tascas inenarráveis, arrastões e por aí adiante!4 — Não estou no segredo das negociatas, pela simples razão de que sou contra a sua lógica provinciana, paternalista e tendencialmente mafiosa.Ora aí tem.ac-p

  3. Vejo que continua a falar do que não sabe, e, partiu para as acusações, também não fundamentadas, como não podia deixar de ser.Assim sendo, nem sequer vale a pena tentar dirimir qualquer tipo de conversação consigo.E não se preocupe em responder.

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