Petroleo 2

Bingo Project

Enche na GALP!

Recebi um mail propondo mais um boicote em cadeia, desta vez por parte dos consumidores de gasolina e de gasóleo, ao cartel que monopoliza, entre nós, a refinação e distribuição destes preciosos líquidos, sem os quais não sabemos como fazer mover os automóveis privados, os autocarros escolares, as ambulâncias, os tractores agrícolas e algumas centrais eléctricas. A ideia seria deixar de nos abastecermos nas estações da GALP, Repsol e BP durante um certo período de tempo, optando em alternativa pelos operadores minoritários que operam no nosso país: Agip, Cepsa, Elf e Esso, entre outras. Segundo a proposta, a tríade seria levada a baixar ou pelo menos a diminuir os aumentos hoje impostos ao mercado.
Tenho dúvidas sobre a eficácia desta proposta, quer no imediato, quer sobretudo no médio e longo prazo. O problema principal e intransponível de trocar a tríade GALP-BP-Repsol pelas bombas minoritárias é o de saber onde é que estas últimas estão! Não consigo imaginar largas centenas de milhar de carros à procura, nos próximos dias, das marcas que ficaram pelo caminho na corrida concentracionária que determinou a formação da tríade petrolífera que coube ao nosso cabaz de compras. A ideia revela a indignação dos proponentes, certamente comungada pela generalidade dos Portugueses. Mas é, lamento dizê-lo, impraticável. A mantermo-nos no registo da guerra global de classes, então seria preferível boicotar simultaneamente duas das grandes irmãs do cartel que manipula as nossas actuais preocupações energéticas e será seguramente responsável por maiores sofrimentos antes mesmo de esta década terminar. Se conseguíssemos por de pé uma cadeia de cidadania activa, como conseguimos (embora com ajudas…) durante a causa por Timor, em torno desta questão, que será cada vez mais sensível para todos, ela poderia assumir, não a forma de um boicote (coisa feia), mas antes a forma (bem mais simpática!) de uma preferência. Por exemplo, pela gasolineira &#147nacional” — a GALP! E-mails, blogues e SMS convocando a cidadania ao uso exclusivo de produtos GALP durante o próximo mês de Maio provocaria seguramente uma enorme dor de cabeça à tríade, aos bancos e ao próprio Governo. Isto sim, seria uma bofetada de luva branca numa das piores corjas da globalização. Para reforçar a intensidade política da acção, a mesma deveria ainda conter um ingrediente futurista: reduzir em 20% o consumo de combustível previsto para o mesmo mês (basta dividir as despesas de um ano por 12 e depois multiplicar o resultado por 20, voltando a dividir o último resultado por 100), adiando certas decisões para os meses seguintes e cancelando mesmo pequenos projectos dispensáveis… Experimente, é um exercício de racionalidade económica divertido e muito rentável!
Enquanto esta acção decorresse, deveria elaborar-se um verdadeiro livro branco energético, no qual fosse esclarecido de uma vez por todas:
1 – que o petróleo barato acabou para todos, embora mais depressa para uns do que para outros…;
2 – que a disputa em volta do que resta deste recurso energético precioso, de que as duas guerras contra o Iraque foram testemunhas, será terrível;
3 – que a pandilha Bush-Cheney-Rumsfeld, em grande parte alavancada pelos grandes protagonistas anglo-saxónicos do dinheiro e do petróleo, já começou a tagarelar sobre guerras nucleares preventivas (para já contra o Irão), o que implica o dever de civilização de reclassificar política e eticamente a natureza actual dos poderes que operam a partir de Londres e de Washington;
4 – que precisamos urgentemente de energias alternativas; elas existem, mas não podem, em caso algum, vir a ser apropriadas pelos mesmos ladrões que ao longo de todo o século 20 manipularam criminosamente o seu mais decisivo recurso energético; podemos opor à globalização da ladroagem uma interminável rede de criatividade global e de solidariedade efectiva;
5 – que teremos que consumir menos e melhor, sobretudo muito menos lixo sólido, líquido e cultural;
6- que perante a iminente implosão dos subúrbios, é inadiável redesenhar o território e as cidades, abandonando radicalmente a centralidade que, desde o Senhor Ford, foi conferida ao automóvel privado — numa fase transitória, criando em todas as cidades zonas de circulação automóvel interdita, condicionada e comunitária (1);
7 – que perante as catástrofes económicas que se avizinham, é impreterível devolver o poder aos cidadãos, aumentando a transparência do Estado, conferindo maiores poderes e autonomia às autarquias locais, limitando de forma muito clara os poderes invisíveis mas virtualmente incontroláveis das grandes corporações globais, sobretudo energéticas e financeiras.

Este livro pensaria seriamente nestas questões e responderia com factos e modelos estratégicos que todos poderíamos discutir. A imagem que ilustra este comentário faz parte e um projecto em rede para desenvolvimento de motores de combustão alimentados por uma mistura de combustíveis carbónicos e … água. Nalguns casos, a poupança de combustíveis fósseis chega aos 75%!

O mais provável é que este apelo, em resposta a uma inciativa ingénua, mas justa, também fique pelo caminho. Mas de uma coisa estou certo: vamos ter muitas oportunidades para retomar os grandes problemas que nos afligem e afligem grande parte da humanidade nesta perigosa hora de incerteza. A tese de que é preciso sacrificar um ou mesmo dois terços da humanidade, submetendo-a à privação de energia, à fome, à doença, ao crime e finalmente à eliminação pela guerra, convencional, assimétrica, nuclear, química e biológica, é um cenário dantesco contra o qual a dignidade humana tem que se erguer sem hesitações.


Notas
1 — Uma boa solução para reduzir o número de automóveis, sobretudo nas cidades, seria adoptar em certas zonas urbanas um sistema de transporte individual, ou particular, baseado no uso partilhado de automóveis comunitários não poluentes, de grande duração e altamente recicláveis. Estes veículos seriam adquiridos pela cidade, em número suficiente para cada zona onde fosse aplicado o sistema, e o seu uso seria regulado por cartões de utilizador electronicamente validados, aplicando-se aos seus utentes todos os dispositivos legais que actualmente regulam os detentores de cartas de condução.

OAM #117 12 ABR 2006

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