Futuro 21

7 New Denmarks, Hydrogen Society, partial view

Depois de O Grande Estuário:
Too Perfect Seven New Denmarks

A representação da Dinamarca à próxima Bienal de Veneza de Arquitectura é um projecto chamado Too Perfect Seven New Denmarks, encarregado pelo Danish Architecture Centre e comissariado e desenhado (em colaboração com PLOT) por Bruce Mau, um dos mais notórios designers gráficos da actualidade. O projecto é obviamente o resultado de uma cooperação intensa entre vários gabinetes de arquitectura dinamarqueses e consegue, através de uma excelente estratégia criativa, de informação e representação informacional, projectar uma imagem optimista e criativa de um país europeu aparentemente pequeno, mas cheio de ambição.
O projecto resume-se basicamente a 7 perguntas provocatórias:

  1. What if Denmark was the port to the New Europe? (E se a Dinamarca fosse o porto da Nova Europa?)
  2. What if Denmark had an energy bill of zero? (E se a Dinamarca tivesse uma factura energética igual a zero?)
  3. What if Denmark farmed pharmaceuticals? (E se a Dinamarca cultivasse remédios?)
  4. What if Denmark was the world’s housing factory? (E se a Dinamarca fosse a grande fábrica mundial da habitação?)
  5. What if Denmark made parenting effortless? (E se a Dinamarca transformasse o cuidado dos filhos numa tarefa fácil)
  6. What if Denmark doubled its coastline? (E se a Dinamarca duplicasse a sua linha de costa?)
  7. What if Greenland was Africa’s water fountain? (E se a Dinamarca fosse a fonte aquática da África?)

O ponto de partida deste exercício de imaginação e de cidadania pró-activa é o próprio panorama dramático que temos diante de nós, em todo o planeta: fim dos combustíveis fósseis baratos, aquecimento global, degelo dos glaciares, erosão e exaustão dos solos agrícolas, falta de água, etc. Perante este panorama preocupante, das duas uma: ou não lhe prestamos atenção e nos auto-condenamos à extinção; ou, pelo contrário, reagimos, e as estratégias de minimização e de eventual ultrapassagem das dificuldades extremas que temos pela frente serão tantas quantas a nossa imaginação e inteligência colectivas conseguirem produzir. Outro ponto de partida interessante desta proposta especulativa, fortemente apoiada por instituições culturais e empresas privadas, é o da necessidade de enfrentar a perda de competitividade europeia face à emergência da nova Eurásia, cujo crescimento económico e regime de exploração do trabalho (segundo os tão propalados modelos liberais do Capitalismo) são e serão imbatíveis no decorrer das próximas décadas. A ideia básica é a seguinte: porquê procurar competir num terreno completamente desvantajoso, se pudermos mudar o paradigma do desenvolvimento?
Ora é precisamente esta mudança de paradigma que, de uma forma ou de outra, acaba por vertebrar boa parte das soluções propostas por Too Perfect Seven New Denmarks.

Transformar a Dinamarca no maior porto europeu do Báltico, quando se sabe que o transporte marítimo (ao contrário do transporte aéreo ou terrestre) vai ser decisivo ao longo de todo o século 21, pois é o único que está virtualmente preparado para receber sistemas de propulsão nuclear, é obviamente uma ideia interessante, tanto mais que o estudo se propõe desta forma libertar um espaço urbano precioso para novos estilos de vida.

Já a ideia de substituir todas as fontes de energia fóssil por hidrogénio pode ser mais discutível. Mas ainda assim, o princípio de pensamento usado é mais do que defensável: cada país terá que inventariar rapidamente quais são as suas escapatórias — primeiro face à subida vertiginosa dos preços do petróleo e do gás natural (que os países ricos e produtores poderão pagar, mas os pobres e sem reservas de hidrocarbonetos, não); depois, face à necessidade inevitável de os substituir por outras fontes energéticas e por outras matérias primas e sistemas de reciclagem.

Libertar os terrenos agrícolas saturados de adubos e pesticidas, a favor de uma paisagem que recupere a biodiversidade e a beleza ambiental e favor de uma nova espécie de agricultura — a farmacocultura — ganhando neste capítulo vantagens competitivas sobre uma Eurásia demasiado ocupada com a produção quantitativa de baixo custo — é seguramente uma boa opção, sabendo-se como se sabe do enorme potencial científico da farmacologia europeia.

Uma grande fracção dos combustíveis gastos nos transportes terrestres destina-se à fileira da construção civil: camiões com andaimes, areia, brita, cimento, pedra, tijolo, ferro, armações, coberturas, pavimentos, isolantes, tintas, material eléctrico, equipamentos telefónicos, telemáticos e de segurança, electrodomésticos, etc…, circulam e saturam as auto-estradas e as estradas da Europa e do mundo. A energia gasta na produção destes camiões, na construção e manutenção das vias terrestres, na alimentação dos veículos, na manipulação de todos estes materiais avulsos, faz da construção civil a mais artesanal e atrasada indústria do século 21. E além disso, faz dela uma actividade económica cada menos competitiva e insustentável do ponto de vista financeiro. O crash imobiliário actualmente em gestação, e que provavelmente irá estourar ao longo de 2007, lançará este sector numa dramática encruzilhada de paradigmas. Pois bem, Bruce Mau e os arquitectos que com ele trabalharam propõem a recuperação do espírito da Bauhaus como melhor estratégia para resolver o grande problema que aí vem. Trata-se, no fundo, de renovar o programa da concepçãp/produção da unidade habitacional à luz dos princípios inovadores de Walter Gropius: a casa como máquina de habitação pode ser produzida de forma concentrada, modular e em série! Desta vez, porém, haverá que aplicar as melhores tecnologias e o melhor pensamento computacional para conseguir gerar um novo conceito de habitáculo modelar, sustentável, complexo, variável, orgânico, leve, acoplável, inteligente… e sensível. Que a Dinamarca possa ser a primeira grande fábrica do novo falanstério do século 21, eis um desafio entusiasta em que não me importaria nada de participar.

A população europeia tem vindo a decrescer, em grande medida porque o sistema capitalista tornou a vida familiar e reprodutiva num inferno. Que podemos fazer? Pois fazer deste problema a ocasião para o desenvolvimento de uma estratégia de económica de diferenciação e especialização cognitiva, científica e tecnológica, onde, uma vez mais, a Eurásia não poderá susbtituir-se a esta nova simbiose entre economia e cidadania.

Duplicar a linha de costa, seguindo a teoria dos fractais, sabendo que com tal mega-projecto se libertam espaços inesperados para o novo hedonismo, sustentável, do século 21, é um achado ditirâmbico de génio!

Como genial é a ideia de aproveitar as quantidades inimagináveis de água doce que começaram a desprender-se da Gronelândia (por efeito do aquecimento global) para acudir às zonas áridas do planeta (em especial a África) onde morrem por anos milhões de pessoas, ora por falta do precioso líquido, ora em consequência das doenças causadas pela contaminação do mesmo, ora em resultado das guerras, chachinas e genocídios provocados pelas disputas territoriais em volta dos escasos recursos hídricos disponíveis.

A Dinamarca é um pequeno grande país europeu. Deu ao mundo grandes desenhadores de utopias. Too Perfect Seven New Denmarks é o exemplo perfeito de que poderemos voltar a contar com eles. O facto de em Portugal termos lançado, em 1 de Maio de 2005, um projecto em muitos aspectos semelhante — O Grande Estuário — mostra tão sómente que os tempos da utopia regressaram. No princípio do século 20, chamou-se Construtivismo. Eu agora, a esta nova utopia, chamo Reconstrutivismo!


Too Perfect Seven New Denmarks
What if Denmark was the port to the New Europe? Superharbour proposes to
consolidate all industrial harbour activity into one Baltic gate in order to liberate
the harbor cities for new forms of urban life.
What if Denmark had an energy bill of zero? HySociety proposes a design plan to
reduce Denmark’s consumption of fossil fuels to zero, by feeding waste energy back
into the consumption loop.
What if Denmark farmed pharmaceuticals? Pharmland proposes that Denmark transform
its farmland into pharmaceutical production sites, creating a much higher yield per
hectare and liberating much of the country’s landscape.
What if Denmark was the world’s housing factory? House Express argues that most
manufacturing industries have evolved from craftsmanship to mass production. But not
the construction industry. This project shows how that evolution could create housing
for the global market.
What if Denmark made parenting effortless? Child Inc. argues that, as with many
industrialized societies, Danish society is turning into a childless one. This project
proposes solutions to a series of lifestyle conflicts, solutions which will radically
transform the notion of caring for children.
What if Denmark doubled its coastline? Endless Coastline is a tool kit that
structures tourism and prevents it from destroying the authenticity of a place, in
part by increasing Denmark’s most sought-after feature: its coastline.
What if Greenland was Africa’s water fountain? New Greenland argues that lack of
water is one of the world’s most pressing dilemmas. Greenland, a semi-autonomous
region of Denmark, has the natural resources to relieve a major part of the world’s
water stress.
To launch its utopias into the world and test their pragmatism, this open letter
is formulated as an exhibition of propositions addressed to the people who hold the
purse strings and have the power to make each pragmatic utopia come true. Should
Denmark take the shape of the future ? or should the future take the shape of Denmark?
Sincerely,
Bruce Mau Design
and the Too Perfect Project Team

OAM #124 06 JUN 2006

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