Brasil, sinais de colapso?

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“ Pela dimensão que o problema atingiu entre nós, pelo fato de envolver personalidades na vida nacional e ganhar enorme relevo na opinião pública, a corrupção deixou de ser um amontoado de episódios menores da crônica policial, para se tornar uma questão política de suma importância para a Nação.” — in Declaração Programática do Partido da Social Democracia Brasileira.

Cueca do Mensalão

Eleições, banditismo em rede e guerra urbana

O primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, visitou oficialmente o Brasil, entre 8 e 11 de Agosto últimos, a convite do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o qual se encontra (para quem não souber) em plena campanha eleitoral desde 6 de Julho. A visita do primeiro ministro português e secretário-geral do PS (Partido Socialista) é pois um sinal evidente de apoio à continuidade do antigo torneiro mecânico e fundador do PT (Partido do Trabalho) à frente dos destinos do maior país de língua oficial portuguesa.

Décimo primeiro país do mundo em produção de riqueza (PIB real), com uma renda média individual (PIB/capita) de US$8.400 — 92º na tabela de 214 países elaborada pelo World Fact Book da CIA — e uma taxa de crescimento moderada (2,4% em 2005), o Brasil continua a padecer de alguns problemas de modelo de desenvolvimento e de equilíbrio democrático muito sérios. O primeiro deles, é o agravamento contínuo das diferenças económicas, sociais e culturais, que separam os mais pobres dos mais ricos. O segundo, talvez menos visível, mas não menos preocupante, é o desemprego associado ao número de cidades com mais de 100 mil habitantes, e o terceiro, que tem sido usado indevidamente pelo PT no vale tudo eleitoral, é a insegurança urbana e suburbana que ameaça as duas principais megalópolis brasileiras: Rio de Janeiro e São Paulo. A verdadeira guerra urbana que tomou conta de São Paulo, com sucessivos ataques em 6 de Maio, 13 de Julho e 7 de Agosto últimos, dirigidos sobretudo contra as autoridades policiais, mas também contra fachadas de agências bancárias, quarteis de bombeiros e autocarros, deixou a cidade em estado de choque e muita gente preocupada por esse mundo fora.

A causa próxima e declarada destas confrontações é a situação das prisões brasileiras (1) e os sucessivos motins que nelas têm ocorrido nos últimos anos, em grande medida por causa da saturação dos estabelecimentos prisionais, falta de acompanhamento social adequado dos condenados, brutalidade incontrolada dos carcereiros, má gestão, falta de serviços de informações especializados e, em geral, subfinanciamento do sistema. No entanto, já não se trata apenas de um problema prisional, que a oferta de apoio militar por parte do presidente brasileiro — uma jogada eleitoral oportunista que o Governador de São Paulo fez e faz bem em rejeitar (2) —, ou a privatização das prisões, possam resolver (sobretudo se as empresas que vierem a dedicar-se a negócio tão sombrio forem sucursais do crime organizado). Há algo bastante mais preocupante nas sucessivas ondas de violência urbana dirigidas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Trata-se da formação de verdadeiras redes de criminalidade organizada com a capacidade de atrair sectores empobrecidos e marginalizados da sociedade brasileira para formas de confrontação civil cada vez mais radicais e generalizadas. A natureza meramente criminal das actuações até agora conhecidas poderá sofrer mutações no futuro, dando origem a novos modelos de acção social e política violenta bem mais complexos do ponto de vista ideológico. O PCC, depois de ter absorvido o chamado Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, tornou-se uma poderosa força de desestabilização, de momento regional, mas que poderá alastrar aos restantes estados brasileiros, criando uma ameaçadora federação do crime organizado, se entretanto os políticos brasileiros continuarem a brincar com o fogo.

O fim do petróleo barato vem arrastando consigo a subida geral dos preços de todos os outros combustíveis, dos cereais e das principais matérias primas. Este fenómeno irreversível está na origem da invasão do Afeganistão, das duas guerras do Iraque, da actual invasão do Líbano, de uma muito provável guerra dos Estados Unidos, Israel e Turquia contra a Síria e o Irão, e do mais que se verá, e não será bonito, até 2020-2030 — momento em que o actual modelo civilizacional colapsará em cadeia. Os Estados estão, na sua maioria e em todo o mundo, a caminho da falência. O mesmo se passa com todas as grandes cidades. Quando a vida urbana e suburbana se tornar inviável, por causa da hiperinflação, do desemprego estrutural galopante, da falta de alimentos frescos e da violência urbana e suburbana generalizada e exponencial, começará o êxodo em direcção à terra (espécie de reversão caótica do século 20). Em muitos países isso significará, pura e simplesmente, o início de guerras civis prolongadas que, nos casos bem sucedidos, acabarão por conseguir reajustar as sociedades às novas condições energéticas, climáticas e de mobilidade física e social dos povos. É por isto que a violência de São Paulo preocupa o mundo, muito para além dos cálculos eleitorais do Sr Lula da Silva e do seu corrupto PT.


Notas
1 — A criminalidade no Brasil (186 presos por 10 mil residentes) é bem menos preocupante do que, por exemplo, nos Estados Unidos da América, que detem a mais alta taxa de encarceramento do mundo: 690 presos por 10 mil residentes. Mais de 2 milhões de presos! O problema brasileiro tem sobretudo que ver com a sua cultura presidiária e com o fosso crescente entre ricos e pobres, que gera o caldo ideal da criminalidade de baixa intensidade (roubos, raptos económicos e pequenas agressões).
2 — “Estamos todos trabalhando, o Exército e a Polícia Militar, em harmonia, não houve um sentido de ruptura. Palavra de campanha eleitoral é uma coisa. Um governador de São Paulo que tem os pés no chão é outra coisa. Eu tenho os pés no chão.” — Cláudio Lembo.

OAM #136 12 AGO 2006

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