Israel-Libano 5

Azores
Açores, Canárias e Cabo Verde serão peças essenciais da futura estratégia europeia no Atlântico

A derrota americana no Líbano e a posição europeia

“So what happens now? There are two places to look: inside the United States, and in the rest of the world. In the rest of the world, governments of all stripes are paying less and less attention to anything the United States says and wants. Madeleine Albright, when she was Secretary of State, said that the United States was “the indispensable nation.” This may have been true once, but it is certainly not true now. Now, it’s a tiger at bay
The Tiger at Bay: Scary Times Ahead by Immanuel Wallerstein, Sept 1, 2006

Não ouvi Durão Barroso, presidente invisível da União Europeia, nem o novo ministro português dos negócios estrangeiros, Luis Amado, assumirem posições claras sobre a ilegitimidade e desproporcionalidade bélica da intervenção israelita no Líbano. Ouvi, no entanto, o mesmo Amado admitir a possibilidade de Portugal participar no esforço de estabilização da região após o conflito. Ouvi também, mas só agora, o Sr. Durão Barroso reclamar por uma Europa mais pronta e apetrechada para reagir a futuras emergências deste género (lembram-se de Mário Soares pugnar por um braço militar e por uma política europeia de defesa?). Em ambos os casos, tratou-se, por um lado, de recuperar tempo perdido na reacção aos acontecimentos, e por outro, de ganhar algum espaço de manobra na prossecução incompreensível de uma postura de vassalagem ao amigo americano. O caso do vanguardismo pró-sanções contra o Irão (o maior fornecedor de petróleo à Europa) do ministério Amado é um bom exemplo da falta de visão e coragem no actual transe da geo-estratégia global.

Do Sr. Barroso não podemos esperar nada para o futuro da Europa, nem sequer para o futuro de Portugal. O homem revelou ser apenas um pequeno atlantista sem história nem futuro. Já no que se refere ao MNE lusitano, interessa perceber o que lhe vai eventualmente na alma. Até porque o essencial do Novo Grande Jogo estratégico deste pretendido Novo Século Americano passa por saber como desmamar os EUA do seu conforto imperial, economicamente falido.

“In the space of 12 months Russia and China have managed to move the pieces on the geopolitical ‘chess board’ of Eurasia away from what had been an overwhelming US strategic advantage, to the opposite, where the US is increasingly isolated. It’s potentially the greatest strategic defeat for the US power projection of the post World War II period. This is also the strategic background to the re-emergence of the so-called realist faction in US policy
America’s Geopolitical Nightmare and Eurasian Strategic Energy Arrangements by F. William Engdahl, May 7, 2006

A Espanha disponibilizou 800 a 1000 militares para a força de interposição entre o Sul do Líbano e Israel, e mais de 26 milhões de euros para o bolo da reconstrução das infra-estruturas daquele país. Esta decisão, na sequência do determinismo e sentido de oportunidade de Romano Prodi, que arrastou uma França titubeante para a cabeça da força internacional da UNIFIL, colocou a União Europeia num novo e fundamental patamar de acção estratégica, alternativo aos interesses dos Estados Unidos e da anacrónica NATO (que já só existe como vigário da super-potência americana). Apesar dos riscos evidentes, parece óbvio que todos — Europa, Líbano, Hezbollah, Síria, Irão e sobretudo Israel (depois do isolamento em que actualmente se encontra a Administração Bush e o próprio governo Israelita) — têm razões para desejar que a operação corra bem. Trata-se, no essencial, de travar a natureza particularmente agressiva e perigosa da actual deriva estratégica dos Estados Unidos, e de multipolarizar de novo os equilíbrios estratégicos globais. Ora para isto, ao que parece, todos os santos e demónios estão dispostos a ajudar! (1) Neste sentido, devemos apoiar a colaboração portuguesa no esforço militar, logístico e financeiro de reconstrução e segurança do Líbano.

Mas este apoio deverá ser crítico e exigente. O governo tem, assim, que ser mais europeu em matéria de política externa, e mais consequente quando toma decisões. Enviar um destacamento de engenharia militar para a Força é uma decisão provavelmente acertada. Mas não dar um tostão para a reconstrução do Líbano, ou ficar calado sobre o assunto, é um intolerável sinal de miserabilismo político! No mínimo, Portugal deveria disponibilizar 25% da contribuição espanhola, o que viria a dar em 4,5 milhões de euros. Só depois faria sentido tanta preocupação com a possibilidade de os militares portugueses virem a estar subordinados a um sub-comando espanhol (2).

Portugal pode e deve jogar, com o Reino Unido, e com a Espanha, um papel decisivo na reformulação do posicionamento da Europa no Atlântico e nas relações de fundo com os países americanos. Desde logo, pondo em marcha uma renegociação séria dos acordos militares com os Estados Unidos (nomeadamente no que se refere aos usos e contrapartidas da base militar da Lages). E depois, promovendo activamente a associação, ou mesmo a integração, de Cabo Verde na União Europeia. Mas para aqui chegar terá que começar por se tornar mais previsivelmente europeu na sua política externa, e mais determinado e credível nas acções.

A impotência militar revelada pelos Estados Unidos e seus fieis aliados na prossecução das agressões dirigidas contra o Afeganistão, o Iraque e agora o Líbano pode ter aberto uma verdadeira Caixa de Pandora na política mundial. Começou inexoravelmente um movimento de ajustamento tectónico dos equilíbrios de forças à escala planetária. Trata-se, por isto mesmo, de uma crise perigosa e que pode a qualquer momento tornar-se explosiva e incontrolável. A Europa, neste contexto, poderá ser a carta decisiva no necessário reajustamento da justiça entre as nações.

“The United States is today the greatest military power in the world. Israel is today the greatest military power located in the Middle East. One of the most obvious temptations of military superiority is to use military force when one wants to accomplish something which is resisted politically. The United States decided to use force against Iraq in 2003. Israel decided to use force against Lebanon in 2006. In both cases, the governments made these decisions, calculating that they could surely win the military conflict, and win it quickly.

Normally, the greatest military power in the world or in a given region can indeed win such military engagements, and win them quickly. That is what we mean when we say they are the greatest military power. But winning depends on a situation in which the military gap between the two states is truly overwhelming. If it is less than overwhelming, the decision to resort to military force can backfire, and backfire badly.”
Five Reasons Why Great Military Powers Lose Wars by Immanuel Wallerstein, Aug 15, 2006

Actualização [12 Set 2006] — O uso de bases aéreas militares e civis portuguesas para o trânsito de aeronaves ao serviço da CIA, da NSA e do Pentágono, transportando prisioneiros clandestinos de e para o campo de concentração de Guantanamo, de e para prisões clandestinas em solo europeu (onde alegadamente se praticaram actos de tortura), é um abuso grosseiro da aliança transatlantica entre a Europa e os Estados Unidos, de que Portugal é parte constitutiva. O governo português tem a obrigação estrita de informar diligentemente a comissão de inquérito constituída na União Europeia para apurar a verdade, dimensão e gravidade dos factos imputados à descarada Administração Bush. Perante a gravidade destes factos, a União Europeia deve, sem hesitação, redefinir os graus de liberdade dos vários serviços e forças estado-unidenses acantonados e em trânsito na Europa. Imagine-se o que teria sucedido se a história se tivesse passado na direcção contrária, i.e. se aviões europeus transportassem prisioneiros clandestinos para serem interrogados nos EUA. A América vai ter que perceber que o direito de pernada imperial acabou! Em Portugal, onde este escândalo acaba de rebentar depois de ouvirmos um agente da CIA afirmar num video-documentário canadiano que havia aterrado nos Açores em missão relacionada com prisioneiros de Guantanamo, e de se saber que tais missões passaram pelos aeroportos açorianos de Santa Maria e das Lages, e ainda pelos aeroportos do Porto e de Tires (situado na área metropolitana de Lisboa) assiste-se a um silêncio comprometedor por parte das principais araras do comentário político institucional. Estou em crer que o pacto sobre a Justiça subitamente assinado pelos dois principais partidos lusitanos (PS e PSD) foi antes de mais uma cortina de fumo lançada sobre as evidentes provas de subserviência do estado português à arrogância imperial dos Estados Unidos. Espero que os patriotas de ambos os partidos com vocação governamental e das oposições de esquerda e de direita se unam contra este capitulacionismo vergonhoso. Já chegou a Conferência de Berlim de 1884-85!



NOTAS
1 — A visita do Sr. Annan a Teerão, além de legitimar a emergência de uma nova potência regional, revelou um Ahmadinejad menos anti-semita e disposto a rever calmamente a questão nuclear à mesa de negociações, enquanto dava a entender que a segurança das fronteiras libanesas deixou de ser uma tarefa do Hezbollah, porque a Europa, vários países árabes e sobretudo o Irão estão determinados a desempenhar esta tarefa crucial daqui para a frente. Ver noticia na BBC (03 Set 2006)
2 — Nesta matéria, eu preocupo-me mais com o facto de a Pesca Nova desembarcar em Mira para produzir 10 mil toneladas de peixe em regime de aquicultura, superando a produção atomizada das restantes 1472 empresas do sector [Expresso, 2 Set 2006], do que com a subordinação dos nossos engenheiros militares a um comando castelhano. Não por temer a ‘invasão espanhola’. Mas simplesmente por verificar que segmentos decisivos da economia portuguesa (bens primários, energia, serviços, circuitos de distribuição e telecomunicações) têm vindo a sucumbir à lógica da concentração financeira especulativa e à globalização, enquanto os nossos financeiros e empresáros se entretêm com o lucro rápido da especulação bolsista, a venda apressada das suas empresas e a pressão constante sobre o Estado para que aliene as suas empresas de ouro, a fim de que a pandilha do Compromisso Portugal e quejandos possam posteriormente colocar tais empresas no mercado internacional. Estes senhores não devem porém esquecer que o regresso à nacionalização parcial das economias nacionais pode ocorrer mais cedo do que esperam, assim como a responsabilização de quem levianamente pôs os paises em saldo. Olhem para o que sucedeu aos novos oligarcas russos…

A não perder: George Galloway sobre o Líbano, Israel e as lavagens ao cérebro da Skynews

OAM #140 01 SET 2006

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