Plano B

img from Al Gore's Unconvenient Truth

Verdades inconvenientes. Posturas de avestruz

Quando ouvimos as notícias sobre a performance económica europeia de 2006 (a melhor dos últimos cinco anos) e as imparáveis subidas na bolsa espanhola, ou sobre o frenezim especulativo em torno das OPAs lusitanas que anima a maioria dos canais televisivos, ficamos na dúvida se há ou não uma crise económica de magnitude global a caminho, se as alterações climáticas ameaçam de facto boa parte das regiões do planeta, e se, por conseguinte, o que nos espera, num intervalo de expectativa que não irá além de uma década ou duas, é mesmo uma tragédia de proporções bíblicas, ou outra coisa qualquer, com a qual talvez não valha a pena preocuparmo-nos…

Se tudo vai bem no reino da Dinamarca, isso significa que estamos a passar um atestado de incompetência a centenas ou mesmo milhares de cientistas que nos dizem o contrário. Se o que aí vem é, afinal, mais crescimento ilimitado, mais empolamento especulativo dos mercados financeiros, mais corrupção, cada vez menos redistribuição de riqueza, mais desemprego mundial, a impossibilidade de produzir e criar fora dos campos da concentração capitalista global, mais e mais precoce depressão juvenil, mais fluxos migratórios desesperados, milhões de velhos entregues à solidão e à demência, mais terrorismo e mais terrorismo de estado, maiores paranóias securitárias, e o crescimento subreptício mas imparável do sedutor fascismo mediático, então sim, de nada valeu a racionalidade dos avisos, porque deixámos a inércia atarantada do nosso comportamento colectivo sobrepor-se ao instinto de sobrevivência da espécie.

Fui recentemente ver Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore e Davis Guggenheim. Sobre quem não está familiarizado com estes temas, provocará certamente um impacto muito forte. O que ali se evidencia não é nenhuma ficção científica de fim-de-semana! Em breve sairá a tradução portuguesa do livro com o mesmo título, no qual se plasma uma série de conclusões muito sérias sobre o que nos poderá acontecer a todos, ou à geração dos nossos filhos, se nada fizermos nos próximos dez anos. Dez anos?! Será que ainda iremos a tempo? Não sei. Mas sei que quem não estiver bêbado, nem for uma couve, deve ir ver este filme quanto antes, e já agora ler o Plano B de Lester R. Brown (2006), que acaba de ser traduzido para o nosso idioma e será publicamente apresentado em Trancoso no dia 27 de Outubro, no decurso do Encontro Internacional do Tribunal Europeu do Ambiente 2006, subordinado ao tema As Origens do Futuro. Uma comunicação via Skype trará Lester R. Brown até Trancoso.

Se algo me animou no filme de Al Gore foi ter visto ali definido um novo perfil de político. Ao invés de um ventríloco atrelado às sondagens, de um pagador de promessas e dívidas eleitorais, de um mentiroso compulsivo, de um amoral profissional, em suma de um soldado da vã glória de mandar, propenso à corrupção, deparamo-nos com um lutador incessante: mais de mil comícios pelo país e no mundo explicando os problemas sérios que temos pela frente a uma escala até há pouco inimaginável. Uma razão clara para o combate político, uma alternativa credível no seu próprio partido (o Partido Democrata), uma resposta sublime à imundície e ao descalabro da seita dos Bush, uma voz necessária num mundo à beira do precipício ecológico e nuclear.

No prefácio que escrevi para edição portuguesa de Plan B 2.0, a qual terá em breve uma versão electrónica disponível na Net, fiz alguns alertas que aqui antecipo à laia de convite à leitura integral deste livro absolutamente obrigatório.

Futuro anterior

Foi depois de ler, em 2002, “Beyond the Limits” (1992), de Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows e Jørgen Randers, os mesmos que em 1972 publicaram “Limits to Growth” sob o patrocínio do Clube de Roma, cuja edição actualizada viria a ler em 2004, que o meu espírito entrou em alerta laranja relativamente aos horizontes do nosso futuro colectivo. As leituras sobre este tema sucederam-se e não pararam mais: o célebre e premonitório relatório de M. King Hubbert — “Nuclear Energy and Fossil Fuels” (1956), “The Long Emergency”, de James Howard Kunstler (2005), “Peaking of World Oil Production: Impacts, Mitigation and Risk Management”, de Robert L. Hirsch (2005), “Collapse”, de Jared Diamond (2005) e “Plan B 2.0”, de Lester R. Brown (2006)…

Calcula-se que a população mundial crescerá em 200 anos (1850-2050), período que corresponde grosso modo à duração da era industrial, de 1,26 para cerca de 9,1 mil milhões de habitantes. Esta explosão demográfica, que acabará inevitavelmente por regredir, entrou a partir da década de 70 do século 20 num quadro ecológico ameaçado pela escassez de vários factores essenciais à sua própria curva de crescimento: água potável, água para regar os cultivos destinados à alimentação (mas também à produção de bio-combustíveis!), terra arável, combustíveis fósseis baratos (carvão, petróleo, gás natural) e boa parte dos metais que alimentaram até hoje o nosso hiper-desenvolvimento: ferro, cobre, alumínio, níquel, estanho, zinco, prata, platina e ouro. Por outro lado, o crescimento actual gera uma poluição letal, sobretudo nos países emergentes e em vias de desenvolvimento, de que a tonelagem de resíduos tóxicos dificilmente recicláveis e as emissões de carbono para a atmosfera são dois alarmantes indicadores. Do ponto de vista do paradigma actual do desenvolvimento (crescimento contínuo do PIB, concentração financeira e globalização), estamos mergulhados numa crise energética e num dilema sem precedentes.

As energias renováveis de que se tem falado muito ultimamente (eólica e solar) são caras, tendo um EROEI (“Energy Return On Energy Invested”) relativamente baixo, ou mesmo negativo, razão pela qual têm dependido de subsídios estatais em todo o mundo. O mais provável é que estes custos venham a ser suportados pelo consumidor através de adicionais às facturas que lhe são apresentadas. Por outro lado, o aumento da procura e a diminuição/encarecimento das reservas de combustíveis fósseis (sobretudo líquidos), não só elevará os respectivos custos, como continuará a repercutir este encarecimento nos custos de produção das próprias energias e combustíveis alternativos, deitando por terra a possibilidade de encontrarmos uma alternativa efectiva (em termos de quantidade, qualidade, potencial, versatilidade e preço) ao uso do petróleo, do gás natural e das centrais hídricas e nucleares na produção de energia. Não nos esqueçamos que 50-60% do petróleo consumido no mundo vai direitinho para o sector dos transportes. Seja como for, pela via da expansão das energias renováveis, complementando, mas nunca substituindo, pelo menos para já, as não-renováveis, assistiremos a um aumento acentuado e contínuo do preço dos combustíveis, sejam eles quais forem. A consequência deste aumento progressivo do preço da energia será a inflação e o aumento das taxas de juro em todo o mundo. A que se seguirá inevitavelmente a destruição de muitas economias nacionais e privadas, decréscimos dramáticos do consumo e do emprego e, finalmente, uma diminuição acentuada da procura de energia. Só não sabemos quanto é que tudo isto vai custar em vidas humanas.

No outro extremo do dilema temos a criação e desenvolvimento de novas modalidades de energia nuclear: reactores de quarta geração (Gen IV), cujas primeiras versões comerciais poderão funcionar a partir de 2030, e centrais de fusão nuclear, cujo primeiro reactor experimental deverá prestar provas em 2016. Tudo somado, pode dizer-se que uma nova alternativa nuclear, mais segura e de altíssimo rendimento, poderia começar a substituir as actuais centrais nucleares a partir de 2050, perfilando-se assim esta forma de energia hiper-tecnológica como o elo de continuidade entre a civilização carbónica e a civilização nuclear. Sucede, porém, que esta alternativa, em vez de empurrar a humanidade para uma espécie de idade média tecnológica, corre o risco de acelerar ainda mais o processo de exaustão dos recursos disponíveis, a não ser que até lá consigamos resolver o problema demográfico (sobretudo em África e na Ásia), o problema da fome e o problema da poluição, revertendo de vez o paradigma económico actual. Por fim, no que à alternativa nuclear (GEN IV e de fusão) se refere, apenas produzirá electricidade, não resolvendo o problema da infinidade de produtos derivados do petróleo e do gás natural absolutamente essenciais ao actual estilo de vida dos países: combustíveis líquidos, plásticos, pesticidas e fertilizantes, tintas, vernizes, decapantes e remédios, entre outros.

Para além da emergência energética que acabamos de descrever sumariamente, num tom mais dramático que o de Plano B 2.0 (que é antes de mais um desafio à criatividade e uma aposta na sobrevivência da nossa civilização), as alterações climáticas que têm vindo a ser detectadas pela esmagadora maioria dos observadores científicos de todo o mundo ameaçam lançar a Terra num período de aquecimento global/arrefecimento local catastrófico. A possibilidade de um colapso da civilização, precedido de crises energéticas e alimentares agudas, de crises sociais gravíssimas, de crises militares brutais, de uma recessão económica mundial de longa duração, da queda em dominó dos sistemas financeiros e da paralisia de boa parte das cidades e redes urbanas existentes deixou de ser um cenário de ficção cinematográfica. Todos os ingredientes da tragédia estão já no terreno. Haverá um Plano B?

O livro de Lester R. Brown é uma excelente e urgente resposta a esta pergunta. Por isso recomendei a sua tradução para português ao Emanuel Dimas de Melo Pimenta, assim que aceitei colaborar com ele na organização do Tribunal Europeu do Ambiente, que terá lugar em Trancoso no mês de Outubro de 2006.


Download gratuito do livro PLANO B 2.0, de Lester Brown (em Português):
— no sítio web d’o Grande Estuário (PDF/ficheiro ZIP: 1,5Mb)
— secção de downloads do Portal de Trancoso, em www.portaldetrancoso.net

OAM #144 06 OUT 2006

7 responses to “Plano B

  1. Aquecimento global,hmmmmHá para todos os gostos, no que diz respeito a esse tema, veja-se segundo diferentes escalas de tempo nos gráficos:1 ?Grafico de 16 000 anos verifica-se uma tendência para aquecimento;2 ?Grafico de 10 000 anos a tendência é de arrefecimento;3 ?Grafico de 2000 anos (era Cristã) a tendência é de arrefecimento;4 ?Grafico de 700 anos (ciclo da Pequena Era do Gelo) a tendência é para a estabilização;5 ?Grafico 100 anos a tendência é para o aquecimento.È só escolher e depois desenvolver a gosto.Melhor dizendo temos ali a nossa sardinha… vamos lá puxar a brasa que melhor a vai assar.Napoleão pretendia dominar o mundo baseado no conceito de Nação, Hitler pretendia a mesma coisa mas baseado no conceito de Raça.Em minha opinião a Nova Ordem Mundial utiliza o conceito de ecologia como forma de manipulação e controle das mentes, existe alguma coisa mais concenssual do que o proteção do nosso habitat?Partindo desse concensso podem fazer imensas coisas…Vender muitos bronzeadores e oculos de sol por exemplo são das mais simples, mas podem fazer coisas mais complexas como fizeram na Servia onde roubaram todo um povo quando a pretesto de motivos ecologicos entregaram ao magnata George Soros e a mais uns consorcios toda a riqueza mineral daquele pais, ou então ainda melhor com a recente proposta sobre a sobrania da Amazónia.Ou será que sou eu que já vejo Governo Mundial por todo o lado?De qualquer maneira para quem quiser ver um artigo sobre os mitos climaticos aqui vai um link.http://resistir.info/climatologia/impostura_cientifica.htmlUm abraço a todos

  2. Uma pergunta: como explica este céptico das Alterações Climáticas com origem no comportamento humano, a imigração de piriquitos para a Península Ibérica? Já terá reparado neles em Lisboa, suponho. Eu vi-os recentemente em Sevilha. As cegonhas vivem agora permanentemente na península, porque será? Muitos patos-bravos q costumavam nidificar por cá e depois partiam no Inverno, agora não abalam… Porque será? E porque haverá tantos incêndios no nosso país, em Espanha, e no resto da Europa,… Será apenas devido ao abandono das terras?

  3. Sr Antonio PintoO senhor acredita, que o facto de se verem agora alguns piriquitos em Lisboa, e em Sevilha, bem como constactarmos que as cegonhas, ficam por cá todo o ano, se deve ao facto, de eles se sentirem mal nos sitios onde habitualmente passavam uma parte do ano.Pois eu penso que isso se deve ao facto de eles se sentirem cá bem.Parecendo este argumento o mesmo da garrafa meio cheia ou meio vazia, não é.É claro que segundo os gráficos de tempraturas mais recentes, existem zonas do nosso planeta que estão a aquecer, tambem existem outras que estão mais frias, como o senhor sabe não existe um clima global, mas zonas climaticas, podemos caractrisar essas zonas medindo:Tempratura.HumidadePressão atmosférica e Precipitação.Assim podemos dizer que o clima nesta zona se caractrisa desta ou daquela maneira.Como sabe existem até micro-climas.Sendo o nosso planeta um organismo vivo é natural que aconteçam mudanças a todos os niveis, as climaticas são algumas delas.O que me diz da pequena era glaciar que aconteceu por volta de 1800, em que os gelos do Artico chegaram até a Escocia, è claro que o senhor me poderá dizer que se perderam culturas inteiras, e que por isso os Escoceses tiveram que descer um pouco,alguns fixaram-se no norte da Irlanda e criaram um problema que se mantinha até a pouco tempo, é verdade, mas o mundo não acabou.AH, e vamos atribuir as culpas dessa mini era glaciar a quem?O processo de industrialização estava no principio…Segundo dizem o berço da humanidade foi africa, tal como os piriquitos tambem nós procuramos melhores sitios onde viver e o mundo não acabou devido a isso.Pra mim é claro que alguem se serve deste tema para manipular a opinião publica.Os cientistas que não necessitam de subsidios para subreviver, aqueles que são sérios contam-nos a verdade, os outros ou manipulam ou são manipulados, e dos media corporativos nem se fala.Eu próprio tambem já fui um defensor da teoria do aquecimento global e tudo o que lhe está associado, até ao momento em que comecei a pesquizar e a confrontar as duas visões sobre o tema.O primeiro livro que li sobre o assunto foi escrito pelo Sr.Al Gore, fiquei deveras impresionado, preocupado mesmo, até ao momento em que comecei a pesquisar, escrevendo no Google ” Anti aquecimento global”. Quanto aos fogos é outra história, isso já me preocupa, mas penso que se devem concerteza a ao abandono da terra, interesses economicos, falta de ordenamento do território e a outros interesses obscuros, para alem dos tais fogos postos e da falta de civismo de muita gente.Um abraço

  4. As espécies aparecem e desaparecem, se não literalmente todos os dias, pelo menos com alguma frequência ao longo eras geológicas, das eras glaciares e da história zoológica da Terra. Por conseguinte, não podemos afastar liminarmente a hipótese de o homem, como espécie, desaparecer do mapa terrestre mais cedo do que supunhamos (muitos supõem que nunca desaparecerá, por causa da protecção divina). Do que se trata então é de saber se há ou não neste momento uma conjuntura climática desfavorável à nossa existência. As ondas de calor, o frio extremo, o aumento da intensidade e frequência das tempestades atmosféricas e marítimas, etc., responsáveis por centenas de milhar de mortos em todo o mundo, são pelo menos indícios claros que deverão estimular-nos para estudar o assunto e discuti-lo abertamente. O que parece evidente é que uma espécie, seja ela qual for, se crescer demasiadamente pressa relativamente aos recursos de que precisa, e ainda por cima estragar o ar que respira e água que bebe, mais cedo ou mais tarde, vai sofrer uma crise demográfica grave. Para já, os equilíbrios q tem conseguido são de uma enorme violência intra-espécie: os mais gordos, mais fortes, mais ricos, mais egoístas, mais poderosos, mais militarizados, mais ansiosos, mais loucos e mais imprevisíveis entretêm-se a esborrachar com a sua pesada pegada ecológica milhões de seres fracos, esfomeados e indefesos. Penso que chegou o momento de analisar friamente a situação!

  5. Sr. Antonio Pinto. “Do que se trata então é de saber se há ou não neste momento uma conjuntura climática desfavorável à nossa existência.”Em minha opinião não.Agora preocupa-me muito a poluição das nossas sociedades, poluidas de dividas, de de fome, de violencia, preocupa-me o que Michel Chossudovski chama a “Globalização da Pobreza”.Um abraço a todos

  6. Já reparou que houve uma era em que havia animais hoje desconhecidos, como dizem os paleontólogos, a era dos dinossauros, de que restam apenas os seus fósseis ? Essa era terminou há muitos milhões de anos. Terá sido pelo desenvolvimento industrial ? Terá sido pela actividade humana ? Certamente não. Porquê, então,implicar os homens de hoje na destruição do planeta ? O aquecimento global é um produto da actividade humana? e a época glaciar também foi? Tenha pena de nós. Não nos massacre comas suas teorias balofas.

  7. Estou a ficar um pouco farto de comentadores anónimos. Comentar uma opinião é assumir responsabilidade pelo que se opina. É certo que a publicação dos comentários depende da minha tesoura. E que apenas a uso quando o nível dos comentários desce à zona das latrinas. Mas ainda assim gostaria de ver mais comentários assinados responsavelmente. Por exemplo, os cépticos da influência antropogénica sobre o estado do planeta parecem não ir além de silogismas infantis, como se os sucessivos alertas da comunidade científica mundial sobre as alterações climáticas, o crescimento demográfico e os efeitos nefastos da subida dos níveis de dióxido de carbono e metano na atmosfera, ou ainda a exaustão dos solos agrícolas e das matérias primas que sustentaram a era industrial, fossem meras leviandades! Por outro lado, estes climato-cépticos, ao nada dizerem sobre o sistema económico actual (hiper concentração do capital + crescimento contínuo + consumismo acrítico), dão inevitavelmente o ar de estarem a soldo dessas empresas de comunicação para quem a verdade é simplesmente uma questão de números… nas respectivas contas bancárias!

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