BES vai ficar de fora?

I Love banks

Banco Espírito Santo, outra vez na berlinda do branqueamento de capitais

O Expresso (sem cafeína), outrora editado por António José Saraiva, parece estar a resvalar para uma espécie inédita de Expresso (salgado) sob a nova batuta redatorial de Henrique Monteiro. Por sua vez, o novo Sol, do ex-director do Expresso (sem cafeína), naciturno incerto da falida imprensa nacional, parece incapaz de sobreviver fora da sombra publicitária do mesmo banco que a ambos os jornais parece oferecer rodapés coloridos das suas fantasias fiduciárias a troco da exigência de discrição sempre que a mesma for conveniente à boa imagem de quem afinal garante o pão e o Cognac deste obsoleto Quarto Poder. O velho estratagema do pau e da cenoura continua, como se vê, a produzir os seus efeitos.

Vem esta diatribe a propósito do modo infame como os dois principais semanários portugueses não trataram do caso de polícia que dominou as primeiras páginas dos jornais, rádios e televisões da península ao longo dos últimos dias. Em ambos os periódicos, a notícia das buscas policiais na sede madrilena e demais sucursais no país vizinho do Banco Espírito Santo, do bloqueamento de contas bancárias no valor de “apenas 5,5 milhões de euros” (comunicado do BES transcrito pelo Expresso), e da indisfarçável gravidade do caso, atestada pelo simples facto de a investigação estar a ser conduzida pelo Juíz Baltazar Garzón, foi remetida para os editores dos respectivos cadernos de economia. De economia! Mas não está presumivelmente em causa a prática ou a facilitação de práticas criminosas muitíssimo graves? Não está aliás este mesmo banco a ser investigado no nosso país por suspeita de envolvimento em práticas criminosas semelhantes (onde surgem personagens tão sugestivos como Pinochet e José Eduardo dos Santos)? Ou será que já não está? E se não está, que se passou para deixar de estar? Não disse ontem o cacique da Madeira, ilha onde a sede do BES parece merecer especial curiosidade de quem (em ambos os países) tem vindo a investigar toda esta teia de corrupção, que as respostas se encontravam em Lisboa? E se ele falou verdade, que significado pode deduzir-se das suas palavras? E sobre o passado pouco edificante do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa em matéria de branqueamento de capitais relacionados com o “ouro nazi” e as célebres vendas de volfrâmio a Hitler, que disse a nossa imprensa cor-de-rosa? No fim deste artigo transcrevo dois documentos essenciais a este propósito. Por fim, que dizer da venda súbita da Portugália à empresa pública TAP? O que é que efectivamente comprámos ao BES, por intermédio de Fernando Pinto? O que é que efectivamente o BES nos vendeu, por intermédio de Fernando Pinto?

Pois bem, as primeiras páginas do Expresso e do Sol resolveram assobiar para o ar, dedicando-se ambos ao deleite de tricotar vistas e revistas cortinas de fumo sobre putativas interferências do Governo na RTP (Expresso), as supostas faltas de Carrilho às reuniões da indescritível Câmara Municipal de Lisboa e ainda os potenciais conflitos de interesses entre o ministro Mário Lino e uma empresa de consultadoria fundada pelo adjunto de um seu Secretário de Estado, o qual, já se sabia mas fingiu-se não saber, afinal abandonara tal empresa (F9 Consulting) em 2004!

Uma perguntinha simples: que vão fazer estas duas folhas paroquiais se o caso BES continuar a dar muito que falar?


Notas [actualizado em 13 Dez 2006]
— A ponte Pequim-Luanda. Warwick Davies-Webb, director da Executive Research Associates, em declarações ao Público (12 Dez 2006), estabelece um novo dado sobre o papel do Grupo Espírito Santo na facilitação de negócios entre a China (ávida de petróleo e atulhada em US dólares) e a África, nomeadamente lusófona (sobretudo petrolífera), ao revelar que aquela família financeira exerce uma influência preponderante em países como Angola. Numa palestra recente o consultor sul-africano disse haver “‘ligações estratégicas’ entre Pequim e companhias e bancos portugueses com influência em países como Angola”. O analista vai mesmo ao ponto de afirmar que a CPLP e Portugal, como “pilar” da organização, “serviram para acelerar a influência da China nos países de língua portuguesa”. Finalmente, segundo Davies-Webb, “Pessoas influentes no poder confundem-se com as que estão em cargos-chave dos negócios. É uma zona cinzenta e uma situação muito complexa”… Quem não deve gostar nada desta insubordinação lusitana é o Departamento de Estado norte-americano (que divulgou as afirmações da ERA.)
Em Janeiro a ERA publicará um relatório circunstanciado sobre a corrida chinesa ao continente africano, que seguramente ajudará a perceber muitos dos movimentos subterrâneos da actual diplomacia portuguesa e das cautelas postas no relacionamento com alguns poderosos grupos financeiros portugueses particularmente activos na facilitação do estabelecimento do eixo China-África-Brasil.

“This report tracks the reasons behind China’s successful rise in Africa’s energy sector, once almost the exclusive preserve of Western oil companies. In the short space of six years the Chinese oil presence in Africa has gone from one isolated outpost to a spread that covers nearly half the continent.

The People’s Republic of China (PRC) has embarked on an aggressive campaign to capture large parts of the African oil and gas sector. Facing accelerated oil imports by the turn of the 21st century, Chinese policymakers made a strategic decision to diversify and secure energy supplies across the globe, accentuated by the 9-11 crisis which starkly highlighted China’s mismatched reliance on unstable Middle East oil supplies.

A ‘go out and buy’ strategy has seen Chinese oil companies move into Africa, Central Asia and South America to secure new energy oil supplies.

The report takes an in-depth look at their modus operandi, the role of the Chinese government in guiding the actions of Chinese oil companies, the institutional support provided to Chinese oil investments in Africa, the role of other governments in facilitating China’s entry into African oil sectors, political and strategic reasons underpinning China’s entry into specific African countries, and why Chinese oil companies are able to compete so successfully against their Western counterparts.

The report makes the case that Western observers of the Chinese phenomenon fail to take into account the logic underpinning the thinking of Chinese investment decisions which do not reflect market-related criteria.

Those players in the African and international oil and gas sector cannot afford to ignore the Chinese expansion in Africa, and even less to assume that pure market forces will determine who takes control of Africa’s energy fields.

Report Available in January”

PS: o jornal Público de 12/12/2006 errou, afirmando que a Eskom pertence ao GES. Não, não pertence. A Eskom é tão só o maior fornecedor de energia eléctrica da Africa do Sul e é uma empresa pública!

— O jornal Expresso noticia na primeira página da sua edição de 11/11/2006 os novos desenvolvimentos da Operação Furacão, antecipando a próxima iniciativa do Ministério Público: “chamar a depor os presidentes do BES, BCP, Finibanco e BPN. (…) Ricardo Salgado, Paulo Teixeira Pinto, Costa Leite e Oliveira e Costa vão ser convocados como testemunhas, mas não está excluída a hipótese de serem constituídos arguidos — até para terem maiores direitos de defesa.”. Curioso… O facto de haver 200 sociedades no rol de suspeitos dá uma boa indicação sobre o actual informalismo do sistema bancário. Numa época em que a globalização liberal e a possibilidade de um colapso do sistema bancário internacional parecem caminhar de mãos dadas, a bagunça reinante nos redes ibéricas de fuga ao fisco, falsificação de moeda e lavagem do dinheiro (muito dinheiro!) negro resultante da droga, da prostituição e da expoliação de riquezas nacionais, sobretudo oriundas de África, faz-nos pensar sobre a verdadeira natureza de muitos dos êxitos económicos incansavelmente matraqueados pelos mcs. O Expresso não se coibiu, desta vez, de divulgar a matéria informativa chegada às suas mãos. Fica-lhe bem e fica-nos bem. Pois nenhum português gostaria de se conformar à ideia de que o principal semanário do país se havia vendido por um prato de publicidade falaciosa.
— Clientes do BES em Espanha investigados por branqueamento. Diário Económico
— Bloqueados más 1.500 millones de euros de cuentas de los bancos Espírito Santo y BNP. El País (2/11/2006)
— Ricardo Salgado considera o seu banco prejudicado pela actuação tendenciosa das autoridades e das agências de comunicação espanholas, em contraste, disse, com o bom acolhimento dado à banca espanhola em Portugal. Afirmou que se reservava o direito de processar os responsáveis deste incidente caso o mesmo viesse a afectar o bom nome e a boa performance do banco a que preside. Não sei se isto foi apenas mais uma ameaça aos média lusitanos (para que mantenham a calma informativa sobre este assunto), ou se pretende mesmo assustar nuestros hermanos. O caso promete! [09/11/2006]

Antecedentes históricos

—Nazi Gold Report
Holocaust Assets New supplement released
(1998)
Allied Relations and Negotiations with Portugal
Beginnings of Postwar Allied Policy Toward German Looted Gold in Portugal
Both Germany and Portugal used Switzerland as an intermediary to facilitate their wartime gold transactions. When Germany needed escudos to purchase wolfram or other Portuguese goods, the Swiss National Bank would transfer gold from Reichsbank accounts to the account of the Bank of Portugal. This gold apparently went to the Reichsbank’s “Escudo account” with the Bank of Portugal, which in turn credited a like amount of the escudos to two private banks, the Banco Espirito Santo and Banco Lisboa e Acores. These banks then deposited the escudo amounts to Germany’s accounts with them. In 1943, almost 729 million escudos ($29 million) were reportedly transferred to Germany in this way. Sometimes the Swiss National Bank transferred the gold directly; sometimes the Bank used the German gold as credit and deposited equivalent amounts of Swiss francs, which the Portuguese used to buy Swiss goods.
Ultimately, much of this gold and currency was transported to Portugal. From 1939 to 1944 Portuguese domestic gold holdings increased by $67.5 million.
The Allies also had evidence of a significant trade outside the Bank of Portugal. One of the largest institutions involved in this unofficial trade was the Banco Espirito Santo. According to an October 1945 FEA report, the bank served as the “German financial agent for wolfram operations,” regularly advancing escudos to the Germans to purchase wolfram in return for “gold and Swiss francs from the Reichsbank.” In August 1944 the Allies compelled the bank to cut its ties with the Reich, but the Germans transferred their accounts to the Banco Lisboa e Acores.

—Holocaust-Era Assets
A Finding Aid to Records at the National Archives at College Park, Maryland
Foreword
This finding aid had its origins in a researche’s effort to determine the extent of Holocaust-Era Jewish dormant assets in Swiss banks. Recognition of the importance of the issue and the potential for additional research interest led to preparation in April 1996 of a brief (ten page) list of relevant records in the custody of the National Archives and Records Administration (NARA) at its facility in College Park, Maryland. This concise list contained information about records that seemed most pertinent to researcher interests in Swiss banks and the then soon-to-be related subject of Nazi looted gold. By the fall of 1996 an Interagency Group on Nazi Assets had been established under the leadership of Ambassador Stuart E. Eizenstat, then the Under Secretary of Commerce for International Trade and Special Envoy of the Department of State on Property Restitution in Central and Eastern Europe. This group requested compilation of a more detailed listing of NARA holdings at College Park to assist with preparation of a report on Nazi looted gold and other assets.
The subsequent 277-page finding aid was completed in March 1997 and served as an appendix to the May 7, 1997, report of the Interagency Group on Nazi Assets, prepared under the direction of William Z. Slany, The Historian, Department of State. The 212-page report was entitled U.S. and Allied Efforts to Recover and Restore Gold and Other Assets Stolen or Hidden by Germany During World War II: Preliminary Study. Both the report and the appendix were placed on the Department of State’s website (http://www.state.gov) on May 7, 1997, and were made available in paper form from the United States Government Printing Office.
In conjunction with the preparation of a supplemental report to the above-mentioned report, a revised and expanded 700-page finding aid was prepared and made available in March 1998, in paper form, on site at the National Archives at College Park, Maryland, and on the United States Holocaust Memorial Museum’s website (http://www.ushmm.org/assets). In June 1998 the second report, coordinated by Stuart E. Eizenstat, now Under Secretary of State for Economic, Business, and Agricultural Affairs, and prepared by William Slany, was released and made available through the United States Government Printing Office and at both the State Department and the Holocaust Museum websites. The 180-page report is entitled U.S. and Allied Wartime and Postwar Relations and Negotiations with Argentina, Portugal, Spain, Sweden, and Turkey on Looted Gold and German External Assets and U.S. Concerns About the Fate of the Wartime Ustasha Treasury.
This version of the finding aid expands on the March 1998 version to include more extensive descriptions of records relating to topics hitherto described as well records relating to art looting, European insurance companies, and slave labor. Incorporated in this edition as an appendix is a bibliography of published government and non-governmental literature of Holocaust-Era assets compiled by Lida H. Churchville, NARA’s Chief Librarian.
— in Holocaust-Era Assets. A Finding Aid to Records at the National Archives at College Park, Maryland. The U.S. National Archives & Records Administration. Para encontrar as 9 referências ao antigo BESCL neste documento crucial (11484, 38814, 39842, 43513, 44398, 47032, 58561, 64599, 68607) basta procurar (find) a palavra “espirito”.

OAM #149 04 NOV 2006

2 responses to “BES vai ficar de fora?

  1. Para ser totalmente rigoroso, o Expresso tinha, além da Economia, um artigo na última página do 1º Caderno

  2. É verdade. Mas se lerem a referida chamada na última página do Expresso (salgado), notarão que a matéria jornalística pouco mais é do que a transcrição sem comentários duma nota à imprensa do próprio BES! Onde está o contraditório (neste caso, o que as autoridades espanholas invocaram para o raid às instalações do BES)? E não corre semelhante investigação em Portugal sobre o mesmo banco (que mereceria uma investigação jornalística, nem que fosse telefónica)? Razão tem o Carrilho quando fala do sequestro da informação pelas agências noticiosas. Neste caso, porém, é pior: parece que são os anúncios que ditam a edição!

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