Carcavelos

A minha praia tropical

Carcavelos, Portugal, 06-01-05, surf e bodyboard
Jan 5, 2007: mais de 200 pranchas rolando nas ondas de Carcavelos

Vivo há 38 anos em Carcavelos e não tenciono abandonar esta vila e esta praia. Gosto muito da região do Douro, de onde vem parte substancial do meu património genético, e onde vou regularmente sonhar com quintas biológicas. Mas dispensar o mar, os horizontes amplos e mutantes do grande estuário, os barcos que passam, as acrobacias do Pitt Special que sobrevoa o terraço da casa em direcção ao mar, os pachorrentos Retrievers que tomam conta das esplanadas e centros de Surf, o disputadíssimo bar dos gémeos e a sua música calma, as caminhadas pelo paredão, as meninas e os meninos que passeiam e, impossível ignorá-lo, o rebanho negro de surfistas e bodibordistas que não pára de aumentar, de todas as idades, raças e sexos, com a tez sempre dourada e olhos de água, está fora de causa.

Ainda jovem, em Setembro, quando as marés davam por finda a estação balnear, costumava fazer carreiras nas ondas de Carcavelos, transformando o meu próprio corpo numa prancha. Era uma tradição dos finais da década de 60 e princípios da de 70, muito antes de a fibra de vidro se ter democratizado. Banhos em Janeiro era coisa de televisão, de uns maduros e barrigudos que sempre vinham de Sassoeiros, de Talaíde ou da Madorna, para celebrar a entrada de cada novo ano. Mergulhavam ao desafio, tremiam nas toalhas e encharcavam-se em bagaço branco. O povo inteiro assistia na RTP.

Hoje, dia 5 de Janeiro de 2007, com o ar a rondar os 18ºC (apesar de o Instituto Meteorológico não ir além dos 16,4ºC nas suas medições, na Avenida Gago Coutinho!), e uma temperatura de mar de 16ºC, contei mais de duzentos entusiastas dentro de água e pelo menos metade deste número entretida em manobras preparatórias ou de retirada. Os rapazes despem-se e vestem-se com um à-vontade próprio da idade. As raparigas, que a borracha dos fatos transforma espontaneamente em sereias, para se mudarem, desenvolvem divertidos e sedutores contorcionismos com as suas grandes toalhas de turco. Os mais velhos, costumam preferir os carros para a mudança de traje. A moda surf e body board exibe-se na praia de Carcavelos em todo o seu esplendor. Às vezes penso, onde irão buscar tanto tempo livre. Depois volto a pensar, afinal são só duas horitas de ar livre e descontracção. Uma dose q.b. de adrenalina e jogos de sedução. Todo este frenesim provoca o incremento da actividade económica local. Que mais pode um carcavelense de adopção desejar para a sua vila?

A época balnear, como as estações, estão a desaparecer. Mesmo quando chovia sem parar, em Outubro e Novembro passados, lá estavam os surfistas mais destemidos, aproveitando cada aberta, mesmo que ténue e passageira, provando que a praia não tem épocas. Costumo não dispensar uma ou duas semanas das areias e do mar mais quentes das falésias algarvias, mas morreria de tédio, ou de estupidez, se por lá vivesse todo o ano. Quem me tira a praia de Carcavelos, mesmo sofrendo obras que nunca mais acabam, mesmo atulhada de automóveis que insistem em descer até ao paredão, mesmo cheia de alfacinhas que continuamos a deixar pisar o areal sem pagarem uma mais do que justa portagem, mesmo tropeçando naqueles cadáveres escanzelados e sarnentos de velho motel de engates e de antigo restaurante de bodas, a que chamam Narciso e Fateixa, tira-me muita coisa. Não dispenso a minha praia, cada vez mais tropical, nem os inesquecíveis pores-do-Sol de Outono, nem a filosófica Avenida Jorge V que me leva e trás de lá, nem, sobretudo, a linha do horizonte. Acarinho em silêncio os artistas clandestinos do graffiti e divirto-me com o sentido de humor daquele aviso inscrito no fim do passeio que dá acesso à praia: “arrastão a 500m”.

Reparei este ano na abundância de melros na avenida, e de moscas teimando entrar no meu apartamento. Em Sevilha e depois em Barcelona, surpreendi-me com bandos de grandes periquitos verdes e dourados, que pelos vistos também voam e berram pelos jardins da Estrela e do Campo Grande. Passando por Tarragona, observei manchas negras de estorninhos, escurecendo o céu e demandando as árvores de uma cidade desesperada, que propagava megafonias anti-estorninhos, para susto de todos nós. Dizem-me que as cegonhas se estabeleceram definitivamente na Extremadura espanhola. As andorinhas partem cada vez mais tarde da península. A desertificação saariana avança a passos largos. Veremos talvez, em uma ou duas décadas, uma nova Carcavelos, tropicalíssima, com cada vez mais pranchas à espera de uma boa onda. A Caparica ir-se-à desmoronando. Depois, não sei. Há quem tema o pior.

OAM #160 5 JAN 2007

6 responses to “Carcavelos

  1. Quando o Sr. António Maria refere o empreendimento Narciso na Praia de Carcavelos, é devido a alguma experiência própria?Deveria ter mais respeito pelo empreendimento e pelos proprietários que tantos e tantos anos dedicaram à vila e à Praia de Carcavelos.As primeiras pranchas de surf que chegaram a Carcavelos foram trazidas precisamente pelo Sr. Narciso.A primeira Associação de Surf foi constituída pelo Sr. Narciso.Foi no empreendimento Narciso que o Governo recebeu diversos chefes de Estado.Tanta coisa que o Sr. se poderia lembrar de dizer. Mas continua a falar do que não sabe.

  2. Só num país terceiro-mundista muito mau e muito desmazelado é que se permite que ruínas, como as do Narciso ou da Fateixa, na praia de Carcavelos, se mantenham naquele estado decrépito ao longo de uma década, como é o caso. Se repararem bem, aquilo é domínio público marítimo, pelo que a culpa não é obviamente apenas dos proprietários das instalações (que não conheço e contra os quais nada tenho, obviamente), mas sobretudo da do Ministério da Marinha e da Câmara Municipal de Cascais, que há muito deveriam ter resolvido a situação… que ainda perdura, apesar das atribuladas obras que correm há anos na dita praia.Já agora, Senhor Presidente da CMC, quando pensa impor regras de estacionamento nas zonas entretanto requalificadas da praia de Carcavelos? Não espera certamente, para gáudio dos “apoios de praia”, que os automóveis destruam previamente todos os jardins criados e imponham a ocupação selvagem do local, como está já a suceder. Ou será que espera? É por estas e outras que o zé pagante vota no Isaltino…PS: nunca dormi no Narciso.

  3. Carcavelos, 08-06-2007Senhor Presidente da CMC, Quando pensa impor regras de estacionamento nas zonas requalificadas da praia de Carcavelos? Não espera certamente, para gáudio dos “apoios de praia”, que os automóveis destruam previamente todos os jardins criados e imponham a ocupação selvagem do local, como está já a suceder…Hoje vi quatro carros de quatro imbecis estacionados em plenos canteiros recém plantados. Felizmente a Polícia Municipal tinha-os entretanto bloqueados. Mas não chega, nem é método!Primeiro é preciso saber quais são as regras do jogo: — que regras de estacionamento?— que zonas de estacionamento?— que horários de estacionamento livre (das 21h00 às 08h00?)— que preços de estacionamento?— que multas, coimas e acções dissuasoras?Não creio que o estacionamento deva ser de borla, para ninguém…, e muito menos, só para alguns “apoios de praia”, como a A Pastorinha (por exemplo, onde o “couvert” custa mais do que duas horas normais de estacionamento.)O época balnear já começou. Parte das obras (Narciso e Fateixa) estão inexplicavelmente por realizar.A Pastorinha ocupou uma parte de um dos trajectos de sempre de quem passeia naquela praia com uma esplanada coberta a que só falta uma bilheteira para cobrar entradas! Em suma, se não forem definidas urgentemente regras de uso do espaço público entretanto requalificado, ou em vias de requalificação (para os passeantes, automóveis e energúmenos), prevejo o pior. Começarão por fazer uso capião de todas as nesgas onde caiba um carro ou uma moto, depois destruirão os canteiros, e finalmente serão precisas novas obras! Será que alguém aposta nesta pescadinha de rabo na boca do nosso subdesenvolvimento?Cordialmente,

  4. Caro Sr.António Cerveira Pinto, perdeu o melhor da praia de Carcavelos, que foi poder usufruir das acomodações do extraordinário estabelecimento Narciso e da simpatia e acolhimento familiar dos seus propietários, que certamente estão muito mais tristes que o Sr. ou que qualquer outra pessoa ao assistirem ao vandalismo que diáriamente tem lugar naquela estrutura, inclusivé a barbaridade de graffitis que por si são tão acarinhados.O mais triste nesta história toda é que as “gentes de Carcavelos” que tanto defendem a sua terra e a sua praia não defendam também as suas gentes, que não defendam aqueles que muito fizeram pela sua terra, sim porque pode ter a certeza que o Sr. Narciso foi “Gente de Carcavelos” como poucos o foram e poucos o serão. Em vez disso, desdizem e são maliciosas falando de assuntos que não conhecem. A praia de Carcavelos nunca mais vai ser a mesma! Não por existirem edificios vandalizados, não por não existirem estacionamentos, etc …, etc…, nunca mais vai ser a mesma porque as pessoas que a frequentam não tem o mesmo espirito daquelas que a frequentaram em tempos e que a respeitavam no seu esplêndor.Atenciosamente.V.C

  5. Já recebi três respostas sentidas aos meus comentários sobre o velho Narciso. Presumo que venha do seu próprio proprietário ou de pessoas que lhe são próximas e lhe querem bem. Vivo em Carcavelos há mais de 30 anos e por conseguinte lembro-me do Narciso quando era um lugar apreciado –o primeiro motel do país. Nada tenho contra esse tempo, nem contra o passado do Narciso. Respeito-os a ambos e tomara que a empresa ainda estivesse operativa e bem de saúde. O que eu verbero é a manutenção da actual ruína arquitectónica, como actualmente se encontra: com os ferros do betão à vista, portas e vidros vandalizados, pichagens por tudo quanto é sítio, e sobretudo sem percebermos o que ali irá nascer em substituição daquele imóvel. Não é assim nada de pessoal contra o Sr. Narciso, que não conheço.PS: sou a favor dos “graffitis”, devidamente enquadrados pelas autoridades municipais, e contra os “tags”, inscrições selvagens, como aquelas que têm vindo a cobrir as superfícies vandalizadas do Narciso. A abundância de “tags” é sinal de sítios mal urbanizados, sem regras de uso, e pouco frequentados: tudo problemas da responsabilidade das autoridades municipais e do grau de exigência dos cidadãos que os frequentam.

  6. Já recebi três respostas sentidas aos meus comentários sobre o velho Narciso. Presumo que venha do seu próprio proprietário ou de pessoas que lhe são próximas e lhe querem bem. Vivo em Carcavelos há mais de 30 anos e por conseguinte lembro-me do Narciso quando era um lugar apreciado –o primeiro motel do país. Nada tenho contra esse tempo, nem contra o passado do Narciso. Respeito-os a ambos e tomara que a empresa ainda estivesse operativa e bem de saúde. O que eu verbero é a manutenção da actual ruína arquitectónica, como actualmente se encontra: com os ferros do betão à vista, portas e vidros vandalizados, pichagens por tudo quanto é sítio, e sobretudo sem percebermos o que ali irá nascer em substituição daquele imóvel. Não é assim nada de pessoal contra o Sr. Narciso, que não conheço.PS: sou a favor dos “graffitis”, devidamente enquadrados pelas autoridades municipais, e contra os “tags”, inscrições selvagens, como aquelas que têm vindo a cobrir as superfícies vandalizadas do Narciso. A abundância de “tags” é sinal de sítios mal urbanizados, sem regras de uso, e pouco frequentados: tudo problemas da responsabilidade das autoridades municipais e do grau de exigência dos cidadãos que os frequentam.Não sei quem foram os outros que responderam, mas, da minha parte, que já lhe respondi acima, não conheço os proprietários, melhor do que qualquer pessoa que tenha frequentado o Narciso nos últimos anos.Mas essa frequência chega-me para saber que é triste que alguém que se diz de Carcavelos analise a questão do Narciso de forma tão pouco rigorosa. Segundo li nos jornais da região, o Sr. Presidente da Câmara fez uma proposta aos proprietários do estabelecimento Narciso, de forma a fazer daquele empreendimento uma pousada da juventude. Os proprietários terão aceite a proposta. E depois, segundo o que percebi, o Sr. António Capucho, voltou atrás na proposta, e querendo ficar com o Narciso “de borla” pois afinal o Narciso seria já pertencente ao Estado.Só mesmo neste país é que uma coisa destas pode acontecer. Era bom mesmo que os proprietários do empreendimento viessem para a opinião pública com o assunto pois, concordo consigo que a situação do imóvel em degradação não é boa para ninguém, mas convenhamos que resolver a situação sem ter em conta os legítimos interesses de quem sempre estimulou o desenvolvimento da nossa Praia de Carcavelos, como foi o caso da família Narciso, é algo porque não pugno.Pugno sim pelo devido apuramento das responsabilidades das instituições e entidades que, fazem propostas que não podem ou não querem cumprir, colocando em causa pessoas que não o merecem e autênticos projectos de vida, porventura (quase de certeza) por causa de interesses que nada têm a ver com a prossecução de interesses públicos.Resolva-se de vez as situações na Praia de Carcavelos, mas tendo em vista a prossecução de interesses públicos legítimos, e com salvaguarda de eventuais direitos adquiridos.

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