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Temos ainda muito que aprender com o desenho da complexidade.
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Clube PS convida Daniel Innerarity

2007 Qua 28 Fev 18h00
Auditorio Edifício Novo da Assembleia da República

A promoção de debates públicos abertos na Assembleia da República, temáticos ou com base na apresentação de personalidades e livros, é uma boa iniciativa de Jaime Gama, o actual presidente do parlamento português. Desta vez, por iniciativa do Clube PS e a convite de Manuel Maria Carrilho, teremos Daniel Innerarity, seguramente um dos pensadores inovadores da actualidade. O pretexto é o lançamento da tradução portuguesa de La Transformación de la Política pela Editorial Teorema. O título da versão francesa parece-me, todavia, mais sugestivo: La démocratie sans l’État: essai sur le gouvernement des sociétés complexes.

Soube desta inicitiava pelo boletim electrónico de Manuel Maria Carrilho, a quem escrevi um bilhetinho, que não resisto a partilhar com os leitores do António Maria:

Caro MMC,

Parabéns pela nomeação!
Apenas me entristece o facto de a sua promoção e a do Cravinho parecerem um modo expedito de afastar vozes eventualmente incómodas de um hemiciclo socialisticamente anestesiado.

Tenho pensado muito no futuro deste país e chego sempre à mesma conclusão: a única saída que temos pela frente passa por uma visão ambiciosa de Portugal nas perigosas circunstâncias actuais. E essa visão implica, para mim, imaginar uma outra noção de desenvolvimento, de progresso e de crescimento. Algo como uma agenda para um futuro imaterial, que implicaria desmaterializar a própria natureza da produção, do consumo e do desenho das comunidades.

Daí que a sua partida para a UNESCO possa ser um bom prenúncio!
Antes de tudo, precisamos de uma VISÃO (como diria a desaparecida Donnela Meadows). Uma visão cultural da condição humana e do armistício que a humanidade terá necessariamente que acordar com o resto da Natureza.

Para Portugal, a estratégia reside, no essencial, em saber tirar todo o partido das suas actuais desvantagens materiais (fraca industrialização, baixa densidade populacional, distância dos centros mais densamente povoados e industrializados), mas também das suas vantagens, por exemplo, os fracos níveis de poluição no cômputo nacional. Até o baixo nível educativo (refiro-me sobretudo ao número de licenciados) pode ser transformado numa vantagem!

Como vê, tudo ao contrário do actual discurso de José Sócrates e da generalidade dos partidos políticos que temos.

Regressando a Innerarity, vale a pena ler um extracto do prefácio de Jorge Semprún à edição francesa do livro em apreço:

«Professeur de philosophie à l’Université de Saragosse, Daniel Innerarity consacre sa réflexion théorique aux pro­blèmes de l’évolution de la politique, de sa transformation, dans nos sociétés occidentales, nos démocraties d’opinion, c’est-à-dire, plus précisément : démocraties de masse et de marché, exposées par leur essence même aux exigences et aux avatars contradictoires de la mondialisation.
Cette recherche, sans doute la plus nécessaire à notre époque, s’articule à une analyse rigoureuse de la fonction du politique dans le monde changeant qu’est le nôtre, où se détruisent et se déplacent sans cesse les valeurs établies de la modernité des démocraties représentatives.
Ainsi, Daniel Innerarity parvient, avec brio dialectique et vaste savoir, à réhabiliter le concept et le rôle du politique.
Les chapitres de son essai qui abordent les questions du concept du politique et de la nouvelle logique sociale, par l’acuité des analyses et l’érudition sous-jacente, permettent de dégager la perspective d’une synthèse conceptuelle qui prenne en compte les principaux problèmes, les exigences historiques fondamentales pour le déploiement de la Raison démocratique de notre temps.
Synthèse opérationnelle, mais qui se conçoit et se veut provisoire. L’un des mérites principaux de ce travail, en effet, réside à mon avis dans sa vision lucide de la complexité de nos sociétés, du caractère instable et conflictuel de leurs structures consensuelles.»

Finalmente, algumas passagens da versão portuguesa do livro:

«A aversão à política é bastante velha, mas as suas causas mudam com o correr dos tempos (…) Se fizéssemos um inventário das queixas actualmente correntes, teríamos talvez a surpresa de verificar que o seu teor se modificou radicalmente em poucos anos, ao passo que ainda não há muito tempo se criticava o abuso de poder, critica-se agora a impotência dos supostamente poderosos.»

«No quadro da transformação da política que as novas circunstâncias reclamam, o fundamental é determinar as exigências a apresentar à profissão política. É inevitável que a política se caracterize por uma estranha mescla de incompetência e habilidade quando não estão clarificadas as funções dela esperadas. O problema está no que poderemos pedir à política que não nos possa ser dado por outras funções sociais. O facto de isto não ser muito claro pode ser a causa que explica a irrupção na política de empresários, juízes ou jornalistas, açulados por uma demagogia simplista que diz desprezar a incompetência da classe política quando, na realidade, despreza as exigências da vida democrática»

«O lamento pelo mau funcionamento da política é muito lógico: a política é a arte mais difícil, na qual mais incerteza é tramitada e em que assuntos somente verosímeis, contingentes, são tratados com informação escassa e urgências de tempo (…) A principal função da política é a produção e distribuição dos bens colectivos necessários ao desenvolvimento de uma sociedade, para o que é preciso tomar uma série de decisões em tempo limitado, com escassez de dados e de recursos, num meio extremamente complexo que as novas condições sociais parecem emaranhar ainda mais.»

«O perfil que define a competência profissional do político é uma excepcional capacidade para tomar decisões colectivas em situações de elevada complexidade. A política é um âmbito de inovação, e não só de gestão. E a capacidade criadora tem estreitas relações com a invenção de uma linguagem apropriada para tratar o novo. Poderíamos encontrar aqui um novo eixo para delimitar a esquerda da direita, um indicativo para distinguir o progresso da tradição (…) As novas situações lembram à política que, perante cada reforma, terá de formular uma interrogação: está na presença de problemas que pode, simplesmente, resolver, ou de transformações históricas que exigem uma nova maneira de pensar? A inovação procede sempre de alguém ter querido saber se o que até então era dado por válido se ajustava às novas realidades.»

«A meu ver, a política, especialmente quando a queremos distinguir de outras actividades, exige fundamentalmente duas coisas: 1. ter-se dado conta de que o seu terreno próprio é o da contingência, e 2. uma especial habilidade para conviver com a decepção. Haverá, sem dúvida, outras definições mais exactas, mas nenhuma delas deixa, com certeza, de incluir em alguma medida estas duas propriedades.»

«Os tempos mudaram tanto que até mudou o tipo de mudança. A ideia do progresso já não tem préstimo, se com ela se quiser indicar que o futuro será menos complexo, menos ambivalente que o passado. Já só a direita pode acreditar na historieta do progresso que necessariamente nos trará um futuro menos regulado, com menos limitações e maior liberdade de escolha que no passado. O que, pelo contrário, nos espera, é um desenvolvimento futuro radicalmente mais complexo. O curso do tempo continua a existir, claro está, mas já não indica o caminho da servidão para a liberdade: indica o da complexidade para uma maior complexidade.»


OAM #175 27 FEV 07

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