Portugal


Porquê Salazar?

Apenas consegui ver uma meia hora da sessão final do concurso televisivo que abalou a classe política portuguesa. Pareceu-me desde o início uma iniciativa desmiolada, levada a cabo por uma gaja desprezível, dirigida a um público de indígenas de meia idade e de idade avançada, ignorante até dizer chega, e sobretudo inconsequente.
Num país analfabeto e empobrecido, corroído simultaneamente pela perda de um vasto território colonial, pela corrupção galopante que se apoderou das suas elites e agências de intermediação, e pelo declínio da sua própria autonomia nacional e visão estratégica, que outra coisa seria de esperar que não uma expressiva votação simbólica contra a actual democracia plutocrática e nepotista, e contra os irresponsáveis que exercem alegremente o poder? Uns parecem porcos em fase de engorda apressada. Outros, ratos abandonando um navio à beira do naufrágio. Olham para nós e dizem: sou corrupto e depois?! Olham para nós e dizem: minto e depois?! Olham para nós e dizem: se não tens amigos, arranja-os!!
O desemprego, a pobreza envergonhada e explícita, o analfabetismo funcional, a incultura e a emigração regressaram em força, mas o regime prefere falar de grandes obras sanguessugas e de optimismos cabotinos. Os partidos não se distinguem entre si pelas suas diferentes estratégias (que não têm), mas pela verborreia ininteligível de circunstância. Admiram-se agora, escandalizam-se, porque 50 mil espectadores(1) mandaram Mário Soares e Afonso Henriques às urtigas. Admiram-se porque os finalistas foram, afinal, dois homens(2) recentes conhecidos pela autoridade com que desenharam e deram a conhecer as suas ideias e pensaram no país. Eram ambos autoritários? Pois eram. E agora? Agora Cavaco e tintas Robbialac! Vai ser uma tragédia? Talvez não…


Notas
1 – As sondagens trabalham com universos bem mais pequenos, embora construídos de acordo com estratégias estatísticas comprovadas. Seja como for, dada a importância da televisão na formação da opinião moral de curto prazo, menosprezar os resultados do concurso sobre o “melhor português” seria um erro. O Pedro Magalhães escreveu, como sempre, coisas interessantes sobre o fenómeno.
2 – Dada a natureza passiva de boa parte dos espectadores televisivos, seria de esperar que o imbecil concurso se transformasse numa pesquisa colectiva do macho alfa. Ora assim sendo, teria que recair num personagem recente (ainda com feromonas no ar) e claramente afirmativo e claramente vencedor no território que pisou. Salazar e Cunhal correspondem perfeitamente ao perfil. No entanto, se os localizadores do programa holandês da Endemol tivessem alguns neurónios próprios a funcionar teriam feito tudo para incluir duas ou três mulheres com verdadeiro potencial no naipe de eleição. E de entre estas, para poderem confrontar (no feminino) os citados machos alfa, teriam que ter escolhido, forçosamente, a Inês de Castro, a Rainha Santa Isabel e Nossa Senhora de Fátima! Teria sido muito mais divertido e equilibrado.

OAM #182 28 MAR 07

3 responses to “Portugal

  1. Tenho 24 anos, não sei o que foi a ditadura. Não percebo o que, em pleno século 21, leva as pessoas a votar em Salazar. Como português, tenho vergonha dessas pessoas. Não vi o programa, mas gostava de conhecer os argumentos que levaram a tal decisão.

  2. Uma ditadura é sempre uma ditadura: injustificável, cruel, indecente e imprópria de uma humanidade saudável… mas que ocorre porque algo correu mal até aí. A “eleição” de Salazar foi um sinal de protesto, ainda que pelo lado desse primitivismo tão comum nas portas rebentadas das retretes públicas lusitanas. Não devemos subestimar os sinais de aviso.

  3. A resposta do Gato Fedorento ao concurso sobre O Melhor Português de Sempre veio salvar parcialmente a RTP1 do fiasco em que se meteu ao dar mais uma oportunidade à Maria Elisa. Provou-se que temos uma televisão pública plural e com sentido de humor. Mas também ficou claro o aviso para que de futuro, a RTP, quando se meter em cavalgadas altas saiba bem o que faz e escolha as pessoas certas.Por outro lado, as observações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a falta de representatividade do concurso, embora verdadeiras quando se refere à escassa representatividade dos 50 mil votantes, que poderiam não ter chegado sequer aos 30 mil, não salva o problema mediático criado pelo principal canal da televisão pública. Eu não seria tão optimista quanto às ondas propagadas pela votação militante que tomou conta de um programa de televisão polarizado entre Salazar e Álvaro Cunhal.

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