Gato Fedorento

Morrer de plágio

Há tempos, Clara Pinto Correia, bióloga, escritora e articulista de renome, viu a sua carreira no olimpo mediático interrompida por um descarado e injustificável plágio. Depois, alguém tentou assassinar Miguel Sousa Tavares pelo mesmo motivo indecoroso, mas desta vez sem prova, nem argumentos credíveis. Agora, é a vez dos Gato Fedorento serem apanhados com a boca na botija do copianço, abusando de uma divertida criação do conhecido cançonetista francês Claude François, Petite Méche de cheveux. Aliás, em matéria de humor, como aliás em muito do jornalismo preguiçoso praticado entre nós, o plágio, mais do que uma ocorrência vulgar, é mesmo uma praga, típica dum país irrelevante, periférico e dado à aldrabice sempre que há urgência de dinheiro (a falta dele, ou a oportunidade de o ganhar depressa.)

Quem diria, por exemplo, que a célebre Melga Shop do Herman é uma adaptação de um sketch da famosa Brit Comedy? Ou que A Minha História da Guerra (e em geral a comédia telefónica), que celebrizou Raul Solnado, também foi uma adaptação da obra e estilo de um dos mais famosos humoristas espanhois, de nome Miguel Gila? (ver Monólogo de Gila sobre la guerra, 1951-1989).

Também noutros domínios a mania de copiar tarde e a más horas é um vício nacional. Veja-se, por exemplo, a modo atabalhoado como o actual governo socratintas tenta plagiar as receitas falhadas do New Labor e adaptá-las ao nosso país. Há um notável documentário da BBC, dirigido por Adam Curtis, que recomendo vivamente, para percebermos todos até que ponto falta ao actual governo imaginação e sobram plagiarismo e arrogância bacoca. Chama-se The Trap.

Os políticos, os jornalistas e os humoristas portugueses já deveriam ter percebido que a Net veio para ficar, e que a mesma, pelo menos enquanto souber resistir às tentativas actualmente em curso para a domesticar, é uma espécie de nova realidade, tendencialmente mais fina e transparente, e democrática, que o mundo grosseiro das moléculas em que também vivemos. No caso dos Gatos Fedorentos, um conselho: não façam o mesmo que Sócrates. Reconheçam o erro, façam o respectivo acto de contricção e puxem-me por esses neurónios do riso mordaz e sem compromissos.


Direito de resposta
Ricardo Araújo corrige factos

Gostaria muito de, ao contrário de José Sócrates, assumir o meu erro. Nessa medida, se não se importa, pedia-lhe que me ajudasse a identificá-lo.

No dia em que apresentámos o genérico do nosso programa à imprensa, há seis meses, explicámos de onde tinha surgido a ideia e até a razão pela qual decidíramos manter, no início, a frase “Un, deux, trois, quatre”. Não escondemos nada, porque não pretendemos ser músicos. Era óbvio que não tínhamos sido nós a compor a música e dissemo-lo. O motivo pelo qual não há referências a Claude François no genérico é muito simples: a canção que Claude François canta é, basicamente, a conhecidíssima música tradicional inglesa “Three Blind Mice“. Sendo uma música popular, o autor é, naturalmente, desconhecido. Como foi o maestro Ramón Galarza a fazer os arranjos, é ele que assina esta versão. Nós somos os autores do programa mas não percebemos nada de música. No entanto, quem percebe explicou-nos que era assim, e portanto foi assim que fizemos.

Ou seja, no início do programa, explicámos publicamente o modo como o genérico tinha sido concebido. Seis meses depois, o DN, inspirado por alguns blogues, faz manchete revelando ao país o que nós nunca escondemos, antes omitindo que a música em causa está isenta de direitos de autor.

Resumindo: o Claude François cantou uma música tradicional inglesa. Nós também. Onde está o plágio? Se o genérico fosse uma adaptação de outra canção tradicional, como o Milho Verde, estaríamos a plagiar o Zeca Afonso, que também a cantou? Quem estaremos a plagiar se um dia fizermos uma adaptação do Frère Jacques?
Obrigado,
Ricardo

Nota do bloguista

As nossas desculpas por ignorarmos o facto de os autores de Diz Que É Uma Espécie de Magazine terem referido a origem do genérico quando o programa foi para o éter. Neste caso, não há, de facto, plágio, mas cópia derivativa, ou adaptação de obra alheia, a qual deveria figurar no genérico do programa, o que não sucede, e deveria ter sido objecto de negociação e contrato com os produtores do video clip original, o que sinceramente ignoramos (e não pretendemos apurar.) O reconhecimento da nossa omissão involuntária não significa, porém, que o assunto morra por aqui, em matéria de ética e sobretudo em matéria de ética criativa. Teria sido muito mais bonito e correcto ter-se previamente acordado a inclusão de um fragmento do clip original de Claude François –pois há uma óbvia apropriação da respectiva coreografia (a dança de grupo, o party style, o twist, o picado da câmara…)– no genérico do programa do Gato Fedorento, do que tê-lo feito da forma subreptícia, agora patente.
De uma coisa os gatos fedorentos podem estar certos: no reino da Brit Com, um deslize destes ter-lhes-ia sido fatal. Viva Portugal! –OAM

PS: sobre Three Blind Mice (ler excelente artigo na Wikipedia), três notáveis exemplos de apropriação criativa do tema:

Three Blind Mice – C. Atkinson, J. Hollis and V. Hastings (animation)/ Fantomas (music)
Three Blind Mice Remix
Three Blind Mice – Peter Gunn

OAM #205 23 MAI 2007

8 responses to “Gato Fedorento

  1. Morrer de patetice!Morrer de ignorância!A música em causa é uma adaptação de “Three blind mice”, de autor desconhecido, e o poema está ligado à história inglesa do século XVI (http://www.rhymes.org.uk/three_blind_mice.htm). Hoje faz parte do reportório das músicas tradicionais infantis que as criancinhas inglesas cantam! (http://www.bussongs.com/songs/3_blind_mice_short.php).

  2. Como Dali o disse:“Those who do not want to imitate anything, produce nothing.”

  3. The only thing that English art schools appreciate is honesty and originality. You have to learn to be creative and not lazy if you wanna make it. If you want to copy, go to your next door drugstore!

  4. A nota do bloguista é tola! Então, os GF deviam incluir no seu genérico um bocadinho do clip do Cloclo, escrever “cópia derivativa/adaptação de obra de” e anotar os nomes de todos os intervenientes (coreófrafos, cameramen, músicos que adaptaram “the 3 blind mice”)?Deixa-me rir! Ups, copiei “derivativamente” Jorge Palma! alvarovilaverde@gmail.com

  5. A nota do bloguista é tola! Então, os GF deviam incluir no seu genérico um bocadinho do clip do Cloclo, escrever “cópia derivativa/adaptação de obra de” e anotar os nomes de todos os intervenientes (coreófrafos, cameramen, músicos que adaptaram “the 3 blind mice”)?Deixa-me rir! Ups, copiei “derivativamente” Jorge Palma! alvarovilaverde@gmail.com

  6. Li algures que o RAP fez um curso de escrita criativa na Aula do Risco com o Rui Zink que o indicou às P. Fictícias. Não sei se é a mesma Aula do Risco de que o António se diz fundador. Se é, não se previa nele o ensino sobre o que se considera plágio? Se calhar não porque vocês também não sabem. JL

  7. Sou um apreciador dos GF, embora o formato do Diz Que É Uma Espécie de Magazine seja muito mau. Os GF estão pouco à vontade em palco, não demonstram nenhuma capacidade de improvisação e tendem a resvalar para os mesmos vícios de todo o tele-lixo que goza do “prime-time” televisivo. Por outro lado, a associação ostensiva entre os “skectches” humorísticos e as prestações publicitárias são deprimentes.Quanto ao plágio, creio que é evidente. Apenas chamei a atenção para o facto de este tipo de facilitismo ser infelizmente muito comum entre nós e um sintoma óbvio de comportamento cultural periférico.A minha sugestão “criativa” relativamente ao modo como a dita citação poderia ter sido construída não passa, claro está, de uma mera demonstração das muitas alternativas possíveis… ao plágio.PS: o Tiago Dores, o Miguel Góis, o Ricardo Araújo, tal como Rui Zinc, o Nuno Artur Silva, entre outros, passaram pelo curso de Escrita Criativa da Aula do Risco, uns como alunos e outros como professores. Como um dos fundadores do projecto e director do mesmo, dá-me uma enorme satisfação que todos eles tenham êxito nas suas carreiras profissionais. Mas dito isto, e torcendo para que continuem a somar sucessos, não abdico da minha liberdade crítica, sempre que achar oportuno dever emitir uma opinião menos favorável.

  8. Livra, que este C. Pinto é tolo e persiste na asneira do plágio de uma música que já todos viram ser de autor anónimo da era da rainha Maria, a Sangrenta!Ó homem, veja em http://www.rhymes.org.uk/three_blind_mice.htmAgora não gosta do programa porque é tele-lixo e os GF não estão à vontade no palco!

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