Petroleo 6

Alta Velocidade?

Como le encanta la gasolina (dame ma gasolina)*

Se algo me entristece em Portugal é a cobardia da generalidade dos políticos que compõem o respectivo arco partidário. Nos grandes temas, atrapalham-se com retóricas gastas e ridículas, vagueando pelos corredores cinzentos das decisões, como se fossem zombies, comandados uns pela lógica pequenina dos cálculos eleitorais, sem visão, e outros, os do bloco central (PS e PSD), pela ditadura dos interesses para quem agradecidamente trabalham, como se uma fatalidade económica pendesse sobre as suas cabeças, quando afinal apenas se trata de irremediável cobiça, hipertrofia intelectual e abstinência ética. No dia a dia, falta-lhes a imaginação, são levianos, mentem, professam o absentismo e o atraso, são desorganizados, irresponsáveis e sobretudo muito interesseiros (1). Por isso temos um primeiro-ministro de telenovela, fabricado por um Pigmaleão de pacotilha, que bebe a correr a espuma de Blair, como se pensasse no país. Por isso temos um governo que atraiçoa em cada dia que passa, não apenas o programa por que foi eleito, mas também, de forma escandalosa e inadmissível, a ideologia que seduziu a maioria dos seus eleitores. Por isso alguns actores do consórcio clientelar socialista são mais zelosos que a própria sombra do poder, discriminando, censurando, denunciando, perseguindo, como que a provar a frase asquerosa: “quem se mete com o PS, leva!”

Não foi o autor Do Portugal Profundo — António Balbino Caldeira — quem duvidou dos atributos académicos e profissionais do Senhor Sócrates, foi o país inteiro! Noutro sítio qualquer, da África aos Estados Unidos, um tal escândalo teria levado, se o protagonista fosse primeiro-ministro, à sua inevitável demissão. No Portugal suave que somos, piscamos os olhos uns aos outros e contamos anedotas a propósito da desviante genética de algumas universidades privadas e dos seus extraordinários frutos.

Demonstrado o embuste da Ota, o governo acabou por recuar de forma atabalhoada e pouco convincente. Mas já se meteu noutra: a Alta Velocidade. Tal como no caso do dossiê do NAL, também agora não estudaram, não sabem nada, querem fundos europeus e não se coibirão de continuar a gastar milhões de euros em estudos e power points. Para isso servem os lóbistas encapotados que vagueiam pelo parlamento e se sentam nos conselhos de administração das empresas públicas e participadas. Para isso servem as golden shares!

O mundo está à beira de uma cascata de guerras sem fim, de uma crise climática catastrófica e da metamorfose dolorosíssima do paradigma energético que há dois séculos alimenta os humanismos e as utopias de muitos, ilusórias teorias sobre a produtividade económica e a suposta selecção da espécie humana. Nos países ricos, as populações envelhecem e os estados rarefazem-se, ao mesmo tempo que caminham para a falência. Nos países pobres, o “darwinismo” triunfou da pior maneira: sem estado, sem lei, sem sociedade, sem humanidade, impera o inferno. Acham que perante tais perspectivas vamos mesmo precisar de novos aeroportos e de comboios de alta velocidade? Para quê? Para quem? Quem pagará a conta? Não está falida a maioria dos nossos municípios? Não caminham a passos largos para a falência os nossos sistemas de segurança social? Não é verdade que o Estado não tem dinheiro para ultrapassar a gigantesca dívida da CP? Não é verdade que o Estado não tem dinheiro para manter as estradas e as pontes do país, pretendendo por isso entregá-las à iniciativa privada? E não é verdade que a falência do tecido industrial português se vê claramente no horizonte? Não sabemos todos que a globalização, antes de desaparecer, levará à falência boa parte da economia real do planeta?

Pensem apenas nestes números, que retirei (e recalculei, com base noutras fontes afins) do International Energy Outlook 2007 (IEO2007), publicado no passado mês de Maio pelo Energy Information Administration / Official Energy Statistics from the U.S. Government:

  • Reservas mundiais de crude, Janeiro de 2007 = 1.317.400.000.000 barris
  • Reservas de crude sintético recuperado das areias betuminosos (Athabasca, Canada) e dos óleos extra-pesados (Orinoco, Venezuela) = 443.000.000.000 barris
  • Reservas totais de crude natural e sintético = 1.760.400.000.000 barris
  • Consumo mundial de petróleo e outros combustíveis líquidos, em milhões de barris por dia (mbd), segundo o modelo “business as usual” (2)
    • 2004 = 83 mbd
    • 2030 = 118 mbd
    • média = 100,5 mbd
  • Consumo médio anual mundial entre 2004 e 2030 = 36 682 500 000 barris
    • Duração das reservas mundiais comprovadas (48 anos)
    • Esgotamento absoluto do recurso: 2055

Conclusão:

  • Se todas as reservas viessem a ser consumidas ao ritmo previsto no IEO2007, o último barril de petróleo seria extraído em 2055!

Na avaliação do consumo mundial por sector, entre 2004 e 2030, o relatório oficial do governo americano prevê a seguinte distribuição:

  • transportes = 66%
  • indústria química e petroquímica = 27%
  • produção de electricidade, usos comerciais e domésticos = 7%

Como parece óbvio, muito antes das datas previstas para a exaustão do petróleo (3), algo de muito grave ocorrerá: ou uma travagem abrupta do consumo, causada por factores excepcionais (conflito bélico global), ou a inevitável implosão da actual civilização, no meio de uma sucessão de crises sistémicas nacionais, regionais e finalmente globais, sobre as quais nenhum país, ou aliança de países será capaz de exercer uma influência decisiva. De uma coisa devemos, desde já, ter a certeza: se as contas estão bem feitas, nem o NAL, nem a Alta Velocidade ferroviária farão qualquer sentido. Se alguma decisão parece adequada ao cenário que se avizinha, a mesma deverá passar por estender a vida útil do Aeroporto da Portela até ao limite efectivo das suas possibilidades; por renovar a actual rede ferroviária nas suas principais ligações internas; e por investir fortemente na rede portuária nacional e em geral nos transportes marítimos e fluviais — pois daí virão, muito provavelmente, as únicas alternativas viáveis à impossibilidade crescente de prosseguir com os tradicionais paradigmas do transporte: rodoviário, aéreo e ferroviário de alta velocidade.

The Earth is about to catch a morbid fever that may last as long as 100,000 years. Each nation must find the best use of its resources to sustain civilisation for as long as they can.” – James Lovelock (Published: 16 January 2006) in The Independent.


* Daddy Yankee, Barrio Fino (“Gasolina”) [video YouTube]

Notas

1 – Manuel Pina, Jornal de Notícias, 10 Maio 2007.

“Ao mesmo tempo que, segundo números da Comissão Europeia, o poder de compra dos trabalhadores portugueses registou, em 2006, a maior descida dos últimos 22 anos, a CMVM anunciou que, entre 2000 e 2005, os vencimentos dos administradores das empresas cotadas em bolsa duplicaram (e nas empresas do PSI 20 mais que triplicaram!). Isto é, enquanto pagam aos seus trabalhadores dos mais baixos salários da Europa a 25 (e todos os dias reclamam, sob a batuta do governador do Banco de Portugal, por “contenção salarial” e “flexibilidade”), esses administradores duplicam, ou mais que triplicam, os próprios vencimentos, vampirizando os accionistas e metendo ao bolso qualquer coisa como 23,9% (!) dos lucros das empresas. Recorde-se que o Estado é accionista maioritário ou de referência em muitas dessas empresas, como a GALP, a EDP, a AdP, a REN ou a PT, cujas administrações albergam “boys” e “girls” vindos directamente da política partidária (cada um atribuindo-se a si mesmo, em média, 3,5 milhões de euros por ano!). Se isto não é um ultraje, talvez os governos que elegemos (e o actual é, presumivelmente, socialista) nos possam explicar o que é um ultraje. O mais certo, porém, é que se calem e continuem a pedir “sacrifícios” aos portugueses. A que portugueses?”

2 – In each of three oil price cases, a business-as-usual oil market environment is assumed. The IEO2007 cases do not consider disruptions in oil production for any reason (war, terrorist activity, weather, geopolitics).

3 – Há, como se calcula, uma enorme controvérsia sobre a acuidade dos cálculos relativos ao Pico Petrolífero. As companhias que controlam este negócio não gostam de falar do assunto. Os países também não. No entanto, desde que o geofísico norte-americano Marion King Hubbert apresentou a sua teoria sobre a produção de combustíveis fósseis, em 1956, num célebre estudo encomendado pelo governo dos EUA (ler documento original – PDF), que as previsões têm vindo a bater certo. O pico nos EUA chegou em 1971, um ano depois do intervalo previsto por King (1965-70), dando origem à primeira grande crise petrolífera. A crise actual, de que a ocupação militar do Iraque é o testemunho mais gritante (“Big Oil and Big Media V. Hugo Chavez” by Stephen Lendman, June 30, 2007, in ZMag), coincide com a chegada do pico mundial da produção petrolífera, situado nos 85 milhões de barris por dia (mbd). As previsões do consumo apontam, porém, para consumos globais em 2030 na ordem dos 113-115 mbd. As campainhas de alarme começaram a soar em toda a parte (“The Peak Oil Crisis: Approaching The Cliff”, by Tom Whipple
Thursday, 21 June 2007. Link).

O petróleo barato, sobre o qual assentou o bem-estar social, a produtividade e o consumismo das sociedades ocidentais nos últimos 50 anos,chegou definitivamente ao fim. Os bio-combustíveis não são mais do que uma panaceia temporária, com a agravante de competirem de forma desigual e profundamente injusta com a produção de alimentos, cujo preço tenderá a ser indexado ao preço dos combustíveis, não apenas de forma indirecta (incorporação dos custos de transportes) mas directamente, pois se o milho hoje vale mais 40% do que há um ano, tal ficou a dever-se exclusivamente à sua procura pelas indústrias energéticas!

Se não formos capazes de alterar os nossos padrões de consumo, de incrementar a eficiência energética das nossas vidas e de contrapor aos oligopólios energéticos, que actualmente corrompem e manipulam a maioria dos governos do planeta, sistemas descentralizados, comunitários e associativos de produção energética, então o pior, e será muito pior do que provavelmente conseguimos imaginar neste momento, ainda está por vir — mas virá mais cedo que gostaríamos.

O panorama energético e ambiental à escala planetária é dramático e agrava-se cada dia que passa por causa da incapacidade dos Estados de lidarem com os problemas. O modo ostensivo como o actual regime partidário português e os correspondentes sistemas de poder alegremente falam de políticas e soluções, por exemplo, a propósito das recentes polémicas em torno do aeroporto de Lisboa e do TGV seria apenas patético se não fosse, como será, se nada fizermos, trágico!

PS: uma pergunta ao governo: aplicar-se-à o Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) ao biodiesel e ao bio-etanol produzidos em Portugal?

OAM #220 28 JUN 2007

One response to “Petroleo 6

  1. Excelente artigo meu caro.«apenas se trata de irremediável cobiça, hipertrofia intelectual e abstinência ética»Sem estas excelsas qualidades os nossos governantes nunca teriam chegado a lugares de topo. Porque que subsidia a política e maneja os media são os grandes interesses económicos. Os que se alimentam dos elefantes brancos pagos por todos nós.

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