Aeroportos 33

Airport System Handling
O estilo terceiro-mundo da Portela é da exclusiva responsabilidade da ANA e do lóbi da Ota.

Bagagem perdida

ANA, TAP, Bloco Central e Governo devem ser responsabilizados pelo caos actual nos aeroportos portugueses

O aeroporto Sá Carneiro continua perigosamente sem ILS (Instrument Landind System), nem taxiway decente, o que diminui drasticamente a sua operacionalidade em épocas de nevoeiro cerrado e aumenta o intervalo entre cada aterragem ou descolagem para uns inacreditáveis 10 minutos (restringindo estupidamente o número de “slots” disponíveis…) Tudo isto, porque até agora cuidaram apenas da premiada aerogare, mas não da eficiência, produtividade e segurança da pista! Quem é responsável quem é? Pois uma velha amiga da onça chamada ANA.

Mas a ineficiência “estratégica” desta empresa pública dirigida há décadas por boys do Bloco Central (e não por gestores independentes e competentes seleccionados por concurso público adequado), não fica por aqui. A degradação económica, funcional e estética do aeroporto da Portela, cuidadosamente planeada para atingir os objectivos irresponsáveis do lóbi da Ota, sem qualquer brio na imagem do país e da sua capital, e prejudicando sem o mínimo pudor milhões de utentes, chegou ao completo descalabro e vergonhoso ridículo daquilo a que poderíamos chamar “Operação Verão 2007. Objectivo: arrumar de vez com a Portela!”

Primeiro, foi a inauguração, em Agosto (!) e sem quaisquer testes prévios, do já tristemente famoso Terminal 2. Não podia ter corrido pior, e logo em plena presidência portuguesa da União Europeia. O que vale é que os eurocratas não passam por aquele terminal doméstico.
Segundo, perdem-se qualquer coisa como 8600 malas por mês nos aeroportos administrados pela ANA, 4000 das quais na Portela! E se alguém pretender fazer uma reclamação contra tamanha falta de profissionalismo e de urbanidade, o mais provável é dizerem-lhe que não têm o Livro de Reclamações à mão.

Vale a pena ler estes extractos de três artigos recentes sobre a extraordinária incompetência da entidade pública que administra, sem prestar contas cidadãs, os principais aeroportos nacionais (Portela, Sá Carneiro, Faro, Funchal, Ponta Delgada, Horta, Santa Maria e Flores), e promove, enquanto Grupo ANA e através da NAER, o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL).


90 mil malas perdidas desde o início do ano

“Desde o início do ano, perderam-se mais de 90 mil malas nos aeroportos portugueses. Mais de 400 por dia. O drama repete-se todos os verões milhares de bagagens perdidas nos aeroportos, passageiros enfurecidos a reclamar, companhias aéreas sem mãos a medir.

Ontem à tarde, no Aeroporto do Porto havia mais de 500 malas sem dono, espalhadas pelos corredores junto ao serviço de Perdidos e Achados. Em Lisboa, o cenário não era melhor. O novo terminal 2 (para voos domésticos) “ainda não está afinado” e os efeitos reflectem-se no Porto.

Embora haja picos de afluência, o problema é geral. As 90 mil malas perdidas desde Janeiro correpondem a 8600 pessoas insatisfeitas, todos os meses, a reclamar junto dos serviços de perdidos e achados dos aeroportos. Os números são da empresa de “handling” Groundforce, que opera em todos os aeroportos (incluindo Porto Santo e Funchal) e que detém uma quota de mercado de 85%. No Porto, ao grande fluxo de malas habitual em Agosto, somou-se um episódio que veio gerar a confusão.” — Inês Schreck (Jornal de Notícias, 09-08-2007)


Raio X do aeroporto faz “atrasar e perder malas”

“A empresa de handling Groundforce, que faz o processamento de cerca de 70% das bagagens no aeroporto da Portela, em Lisboa, queixa-se que as instalações e as infra-estruturas daquela aerogare, do tempo da II Guerra Mundial, “não têm capacidade para permitir tratar de toda a bagagem em tempo útil, acabando por não seguir viagem junto com os passageiros. O serviço atrasa-se, as malas têm de ser expedidas nos voos seguintes e algumas perdem-se”.

Quem denuncia estas situações ao DN é o porta-voz da Groundforce, António Matos, que diz ter-se registado “um agravamento desde o ano passado, devido à saturação do aeroporto e também porque a TAP – Transportadora Aérea Portuguesa passou a fazer mais voos de ligação com transferências”. — Daniel Lam (DN online, 12-08-2007)


Triagem manual na Portela. De quem é a culpa?

“Para o subdirector do aeroporto de Lisboa a ANA, as empresas de assistência em terra aos aviões (Groundforce e Portway) e as companhias aéreas têm de «partilhar» as responsabilidades pelas situações de atrasos e extravio de bagagens.

Isto porque, conforme explicou, «o aeroporto de Lisboa está a funcionar no limite das suas capacidades», pelo que «qualquer desequilíbrio provoca uma situação de ruptura que pode fazer parar todo o sistema».”

“Durante uma visita de três horas que pretendeu «mostrar a complexidade do sistema de transporte de bagagens», o subdirector do aeroporto de Lisboa afirmou que é no sistema que encaminha a bagagem dos passageiros que fazem escala em Lisboa (Sistema de Transferência de Bagagens – TBT) que se registam mais complicações.

«O TBT tem capacidade para processar 900 bagagens por hora, mas no pico do tráfego (entre as 6h e as 9h30), quando chegam os voos intercontinentais, que exigem níveis de segurança mais apertados, a situação complica-se», explicou o subdirector do aeroporto de Lisboa.

Neste sentido, João Nunes anunciou que no final do primeiro semestre de 2008 já estarão concluídas as obras de ampliação do TBT, cuja alteração mais significativa consiste na substituição do sistema de triagem de bagagem manual por um sistema automático.” (Sol, 13-08-2007)

A ANA responde laconicamente que está tudo bem.
Para quando a famosa gestão por objectivos e a imprescindível responsabilização (e castigo se for o caso) dos bem pagos administradores das empresas públicas?!

Ponham o Montijo (1) a funcionar quanto antes!

Post scriptum

14-08-2007 23:38 – A trapalhada das malas perdidas nos aeroportos portugueses já chegou aos telejornais. Como o visado da notícia da RTP2 foi exclusivamente a TAP, presumo que as agências de comunicação andem a montar uma estrangeirinha ao Fernando Pinto (quem lhe mandou alinhar com a privatização da PGA?)

O problema das malas que não chegam, não afecta só Portugal. No aeroporto europeu melhor classificado em matéria de handling, Barcelona, 18 em cada 1000 malas não chegam ao seu dono no momento esperado. Já em Heathrow, o pior aeroporto europeu neste tipo de trapalhadas (desde que é administrado por espanhóis?), 54 de cada mil malas costumam passear-se por outros tabuleiros e aeroportos antes de chegarem às mãos de quem delas desespera.

Uma das causas deste género de incompetência e destruição de valor (do tempo e da paciência dos passageiros e de quem com eles deveria interagir, da prestação de serviços que acaba por não ocorrer ou atrasar, etc.) respeita obviamente ao crescimento do tráfego aéreo, sobretudo no Verão. Mas há outra explicação e essa tem que ver com a produtividade especulativa que colonizou um serviço público chamado transporte aéreo. A lógica desta colonização é simples de perceber: investir o menos possível em infraestruturas, em manutenção, em planeamento e sobretudo em recursos humanos, de modo a mostrar os famosos números verdinhos dos paineis bolsistas. Crescer por aquisições, não perceber nada dos assuntos e vender o negócio na primeira oportunidade, eis a ameaça crescente da selvajaria liberal que assaltou a economia mundial. O passageiro, no fundo, que se f… !

No entanto, não tem que ser assim. Os governos e os estados têm obrigações para com os respectivos povos. A China, por exemplo, fuzilou há umas semanas atrás um ministro que andava a brincar com a segurança alimentar do país. No Sábado passado, o senhor Zhang Shuhong, um dos donos da chinesa Lee Der Toy Company, depois de lhe terem devolvido 1,5 milhões de brinquedos por ele fabricados para a gigante norte-americana Mattel, pintados com uma tinta que continha um pigmento tóxico –ver últimas notícias! (CNN-Mattel, 14-08-2007)–, apareceu pendurado de uma corda no interior da sua fábrica. A produtividade não tem só direitos, também tem deveres…


Notas
1 – Se o ministro da defesa não fosse um choninhas já tinha alugado por dez anos o Montijo à Ryanair, ou a easyJet. Assim arranjava uns euricos para a sua tropa fandanga e falida, e de caminho ajudava o turismo nacional, além de forçar um repensamento radical da actual (inexistente) política de transportes lusitana. Esperem que o AVE chege a Barcelona e se inaugure o novo aeroporto privado “Madrid Sur-Ciudad Real”, e vão ver como isto começa tudo a andar num virote… e o beduíno vai para a rua.

OAM #228 12 AGO 2007 (actualizado em 14-08-2007)

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