Portugal 6

Luis Filipe Menezes
Luis Filipe Menezes, líder do PSD


O Partido do Norte?

Não sei, mas seria bom estudar qual o impacto da democracia electrónica —web, blogs, SMS (1)– na vitória de Luís Filipe Menezes nas Directas que o levaram à direcção do PSD. Não tenho dados neste momento, mas suponho que o éter electrónico, a par do trabalho de sapa persistente do agora novo líder da Oposição, e da eficácia democrática das eleições directas, foram porventura decisivos para que o médico e presidente da Câmara de Gaia adquirisse de forma limpa e transparente as suas novas responsabilidades.

Os barões da Quinta da Marinha e algumas melgas que esvoaçam ao lado de Cavaco não gostaram. É caso para dizer: pois vão ter que adaptar-se, ou criar um novo partido. Até porque, ou muito me engano, ou vamos ter um PSD enérgico, assertivo e proponente na oposição ao governo Sócrates, colocando-se sucessivamente à esquerda deste em matérias sociais de primeiro plano (desemprego, saúde, equilíbrio regional, modelo energético, sustentabilidade e justiça), especialmente consciente da importância cada vez maior do poder local e regional para o equilíbrio e consistência da democracia portuguesa.

Colocando-se ao lado do povo (um populismo q.b.), das regiões e de uma defesa incisiva da integridade social do país, Menezes poderá fazer mossas imprevisíveis no Bloco Central. Se for por aqui, tem um futuro certo pela frente, sem precisar de entrar nas intrigas do Terreiro do Paço. Como um tipo do Norte que é, estará porventura melhor preparado para entender algumas questões estratégicas profundas que não entram, nem à força, nos neurónios de José Sócrates. Num certo sentido, é o grão de areia que faltava para fazer mover a roda encalhada do actual regime. Vamos esperar pelos efeitos. — OAM 250, 29.09-2007, 01:25, 11:59

Ouvi o discurso de vitória. Pareceu-me arrancado a ferros. Mas é natural, se atendermos a que foi uma vitória suada contra um aparelho de notáveis bem instalados na vida, preguiçosos e oportunistas, boa parte dos quais passada ou à espera de passar-se para o vagão “socialista”, atraída pelo canto cabotino de José Miguel Júdice. Bem vistas as coisas, a penetração social-oportunista profunda no PS começou há muito, e deu já como resultado palpável a subordinação deste partido ao ex-PSD José Sócrates. Num certo sentido, a alternativa de Menezes é uma e uma só: fazer reviver o PPD de Sá Carneiro (não a caricatura populista que dele faz Santana Lopes), i.e., um partido republicano enraizado, democrata radical e social-liberal, ou seja, uma forte organização partidária talhada para defender uma sociedade onde a muito pequena, pequena e média propriedade continuam a ser dominantes e resistem diariamente ao avanço demolidor e sem futuro da social-democracia plutocrata que tem hegemonizado o poder político europeu nas últimas décadas. Nunca como hoje, e no futuro que se aproxima, vertiginosamente, small is beautiful!

Defendo, como pão para a boca da democracia portuguesa, uma profunda alteração do actual panorama partidário. Precisamos de uma separação de águas no PS e no PSD, isto é, precisamos que estes partidos dêem lugar a quatro formações mais coerentes e programaticamente transparentes, todas elas com efectiva vocação governativa e aptas a formar coligações inteligentes. A existência de um joker, quer dizer, de um quinto partido, geneticamente europeu, no sentido de a sua geração ocorrer no quadro da formação em curso de um Partido Democrata à escala europeia, com directas europeias internas, um presidente europeu e 27 vice-presidentes nacionais, seria igualmente muito bem-vindo. Os partidos do táxi continuariam a andar de táxi e o PCP passaria também a andar de táxi.

Neste cenário, não creio que Luís Filipe Menezes deva perder um minuto sequer a estudar as contradições dos seus discursos passados. Estamos num tempo novo, e o que vale são as suas ideias para o futuro, agora que iniciou uma carambola monumental no sistema partidário português. Há questões de método e de estilo em que pode modernizar desde já o comportamento quotidiano dos actores políticos.

Por exemplo: estabelecer uma rotina inteiramente nova de comunicação com os média. Uma reunião semanal com os jornalistas, à americana, com jornalistas convidados e sem atropelo de vozes, faria toda a diferença.

Por exemplo: integrar de forma clara e clarividente a democracia electrónica no campo da sua acção política quotidiana.

Por exemplo, propor uma agenda política para o século 21, da qual conste um número limitado de grandes questões a enfrentar, e da qual decorreriam em cascata as políticas e os programas políticos conjunturais.

Por exemplo, contrapor ao actual governo uma agenda claramente alternativa, nomeadamente nas seguintes áreas:

  • política energética sustentável, baseada sobretudo num enorme esforço de eficiência energética, que será também uma excelente oportunidade de desenvolvimento, de muito emprego e de negócio;
  • política de transportes (que José Sócrates não tem), com o lançamento de um vasto programa de actualização/modernização/expansão da rede ferroviária urbana, interurbana, regional, nacional e internacional (pondo a ênfase na passagem completa da bitola ibérica para a bitola europeia, e na sincronização com Espanha da rede de Alta Velocidade e Velocidade Elevada), a qual traria desenvolvimento, muito emprego e grandes oportunidades de negócio à escala nacional, ibérica e europeia;
  • segurança alimentar, com especial ênfase numa política radical de precaução e controlo em matéria de biotecnologia;
  • saúde pública, recuperando a universalidade, nomeadamente territorial, do Serviço Nacional de Saúde, sem que para tal tenha que ir atrás de qualquer interesse corporativo instalado;
  • defesa criativa das vantagens da pequena escala num futuro de energias caras, promovendo o aumento do poder e das responsabilidades das autarquias, e a modernização social e tecnológica da pequena propriedade e da pequena empresa;
  • defesa intransigente do projecto europeu, nomeadamente no que se refere à consolidação da ideia de que uma Europa com peso pacificador no mundo precisa de ir, pelo menos, de Lisboa até Kiev e Istambul, e se possível, integrar no seu espaço privilegiado de democracia, Marrocos e Cabo Verde.

O PSD de Menezes é e continuará a ser um partido nacional. Mas isso não significa que deixe de ser um partido para quem uma visão estratégica completa do país é cada vez mais decisiva nas decisões do dia a dia. Portugal não pode continuar no “nim” sempre que fala com Espanha. Tem que saber o que quer e defender as suas posições. Portugal é o flanco extremo ocidental de um potência em ascensão chamada Europa, e tem que assumir essa responsabilidade. Em termos de geometria, há claramente uma letra grega que define a nossa estrutura óssea estratégica: é a letra π (Pi), quer dizer, um eixo litoral atlântico, de Valência a Sagres (que se prolonga a Norte, pela Galiza) e dois eixos transversais que seguem para Espanha e o resto da Europa: o eixo Lisboa-Madrid-Barcelona-França-resto da Europa e o eixo Porto-Aveiro-Salamanca-San Sebastián (Donostia)-França-resto da Europa. Por outro lado, o desenvolvimento da regiões transfronteiriças entre Portugal e as regiões da Galiza, León, Extremadura e Andaluzia é igualmente fundamental para o futuro estratégico do país, não se podendo permitir (como está fazendo o actual governo) que a fuga do Estado português às suas responsabilidades para com a longa faixa de contacto entre Portugal e Espanha acabe por fazer objectivamente regredir a fronteira das nossas responsabilidade colectivas como nação antiga e mais velho estado ibérico consolidado. Ser europeu não significa desistir da história. Creio que Menezes perceberá melhor o significado desta questão que o parvenu que hoje ocupa o cargo de primeiro ministro de Portugal.

OAM 250, 29.09-2007, 01:25, 13:15


Notas
1 – A falta de actualização (e o desenho pobre), tanto do sítio web como do blog de Luís Filipe Menezes, após a sua vitória nas eleições que o levaram à direcção do PSD é sinal de amadorismo que conviria ultrapassar quanto antes.

6 responses to “Portugal 6

  1. Replicado no Norteamos.Cump.

  2. Obg. pela citação e link. Não vos conhecia😦 Mas passei a conhecer🙂 Um bom exemplo de democracia electrónica. Aqui fica o link para < HREF="http://norteamos.blogspot.com/" REL="nofollow">Norteamos<>

  3. “um tipo do Norte que é, estará porventura melhor preparado para entender algumas questões estratégicas profundas que não entram, nem à força, nos neurónios de José Sócrates.”Aqui refere-se aos pontos programáticos que falou mais a seguir no post, ou a outra coisa? Não percebi bem a que se referia nem que vantagens vê em ser nortenho.

  4. Pedro,Para lá do tom provocativo característico dos meus textos, a verdade é que há uma divisão no pensamento estratégico português relativamente à Espanha. Há os que não imaginam sequer que a Espanha existe (infelizmente a maioria de nós); os que acham que o melhor é meter a cabeça na areia e não falar do assunto (a maioria dos políticos portugueses); os que defendem uma aproximação privilegiada à Galiza, por forma a criar um forte eixo atlântico que compense o centralismo radial de Madrid (defensores da solução aeroportuária da Ota e da primazia da Alta Velocidade/Velocidade Elevada entre Lisboa e Porto- Vigo); os que, pelo contrário, pretendem prejudicar a estratégia anterior e optam por privilegiar o eixo “turístico” e diplomático Lisboa-Madrid, e, por fim, os que (como eu) crêem dever discutir-se abertamente este tipo de questões, e propõem uma estratégia em forma de π (Pi) na reorganização das nossas relações com as Espanhas: um forte eixo atlântico e transatlântico, que compense o centralismo radial de Madrid; um eixo Lisboa-Barcelona, passando por Madrid, que aliviará a pressão madrilena para chegar a Lisboa, deixando ao mesmo tempo campo livre para um vai-e-vem estratégico mais amplo, que aproveita as estratégicas plataformas radiais de Madrid; e finalmente uma curva comercial que ligue o Porto-Aveiro a Salamanca, San Sebastián (Donoztia), resto da Europa.Neste momento mais de 70 mil trabalhadores do Norte de Portugal vão-e-vêm de Espanha para trabalhar, nomeadamente nas estratégicas obras públicas que o país tem vindo a levar a cabo e prosseguirá até 2020. O desemprego e a pobreza são visíveis hoje no Norte do país. Basta ir ao Porto para constatar o escandaloso fosso entre pobres e ricos, que se tem vindo a acentuar dramaticamente na última década. O mesmo se passa ao longo da fronteira com Espanha, de Miranda do Douro até Vila Real de Santo António. Se isto não é um problema sério, não sei o que será! Os passeios de Sócrates a distribuir computadores pelas escolas que não fechou é a mais triste imagem dum poder acomodado ao mistério das mordomias, sem perceber que o país corre o risco de ser corrido da União Europeia. Se tal acontecer, o problema espanhol tonar-se-à então um assunto popular. Em suma, o que digo, é que a sensibilidade para este tipo de problemas é mais recorrente no Norte do que no Sul do país. É uma estatistica pessoal, que gostaria muito de ver desmentida!

  5. Lisboa optou por uma estratégia concentracionista para fazer face ao poder de Madrid. O resultado é o que deveria ser previsível: o enfraquecimento da periferia portuguesa, i.e., de tudo fora de Lisboa. Território abandonado é fácil de conquistar…Da mesma forma, Lisboa, em vez de usar a tática da guerrilha, adequada para guerras desiguais, opta por usar a técnica de batalhão. Com o TGV Lisboa-Madrid o resultado será o mesmo que com a A1 Porto-Lisboa: a fuga de recursos qualificados em massa. Todos estes anos a nossa estratégia tem-se limitado a facilitar a vida aos espanhóis. Este é o resultado da 4a “visão”Já no norte muita gente (particularmente responsáveis políticos) defende a estratégia de “atacar” Madrid pelo flanco. Madrid também abandonou algumas periferias, nomeadamente a Galiza. Esta é a terceira visão que indicou. Não me parece é que os defensores desta visão defendam a OTA e o Lisboa-Vigo. Pelo contrário, a OTA é o simbolo de uma derrota do eixo atlantico, ao roubar o hinterland dos aeroportos do noroeste ibérico.Mas a sua 5a visão (Pi) parece-me claramente a mais completa que vi até hoje. Daí que farei também um link no Norteamos para o seu comentário. Um muito obrigado.http://norteamos.blogspot.com/2007/10/estratgia-de-portugal-no-contexto.html

  6. Pedro,Tem toda razão num ponto: o lóbi da Ota não corresponde ao pensamento estratégico dominante do Norte, mas corresponde certamente à visão de João Cravinho, a qual me pareceu até agora muito influenciada por alguns estrategas do Oeste (Henrique Neto), e pelo atlantismo galego do Xosé Manuel Beiras (BNG), que gostaria de ver criada rapidamente uma ligação em banda larga entre Santiago e Lisboa, passando naturalmente pelo Porto.Há por conseguinte alguma diferenciação em curso a respeito da redefinição do diálogo entre Lisboa e Madrid, agora que a Espanha quer ser uma potência atlântica!

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