oGE

Almada Nascente
Almada Nascente – Atkins, Richard Rogers Partnership e Santa-Rita Arqtºs.

Rive Gauche?

Almada Nascente
Cidade da Água

Devolver o Tejo aos cidadãos e reabilitar uma zona de antigos estaleiros, desenvolvendo o conceito de cidade de duas margens, são alguns dos objectivos da Câmara Municipal com a elaboração do Plano de Urbanização da Frente Ribeirinha Nascente da Cidade de Almada, adjudicado ao consórcio internacional constituído pela WSAtkins, Santa-Rita Arquitectos e Richard Rogers Partnership, no seguimento de Concurso Público Internacional.

Com o Projecto Estratégico Almada Nascente a autarquia tem como objectivo revitalizar uma vasta área da cidade, privilegiando a sua reaproximação ao rio, com vista à criação de uma frente urbana ribeirinha.

A Câmara Municipal pretende criar uma cidade sustentável, privilegiando a arquitectura bioclimática, a utilização racional da energia e da água, o uso dos transportes públicos, a fruição dos espaços públicos e das zonas verdes.

O plano abrange uma área de 115 hectares, entre Cacilhas e a Cova da Piedade. Inclui os 50 hectares de terreno ribeirinho outrora ocupados pelo Estaleiro Naval da Lisnave, na Margueira, freguesia de Cacilhas.

Principais destaques:

Terminal de Cruzeiros
Marina
Museu do Estuário
Museu Nacional da Indústria Naval
Residências universitárias
Parque Tecnológico
Centro de Ciência e Tecnologia/ Parque das Descobertas

(do sítio web municipal sobre este ambicioso projecto)

Defendo desde 1986 (“Ex-Mater”), e 2005 (o Grande Estuário), a necessidade de um projecto ambicioso na Margem Sul do Tejo, capaz de fazer a velha Lisboa cruzar o rio em direcção a Sul. A razão é simples: para Norte, como para Oriente e Ocidente já quase tudo foi feito, quase sempre mal, bloqueando o crescimento harmonioso da capital e principal cidade-região do país.

Lisboa precisa de expandir o seu centro, mas para onde? Poderá aumentar ligeiramente a densidade da zona ribeirinha, recuperando a zona entre Santa Apolónia e Nova Moscavide (Expo), mas tal não lhe permite enfrentar o desafio de transformar a região dos grandes estuários (Tejo e Sado) num dos principais centros económico-culturais da Europa, para o que existem condições extraordinariamente favoráveis: território e clima invejáveis, paisagens naturais, urbanas e humanas únicas, e a oportunidade histórica de tornar Lisboa na indiscutível capital atlântica da União Europeia e numa das principais plataformas do diálogo intercontinental (sem o que a actual civilização acabará por extinguir-se num holocausto nuclear.)

Defendo por isso que o centro de gravidade de Lisboa passe a situar-se a meio da linha que une o Terreiro do Paço a Cacilhas, e que a partir desse centro, novos círculos concêntricos sejam traçados tendo em vista concluir até meados deste século a obra de transformar esta cidade-região numa das principais megalopolis europeias. Cinco a seis milhões de habitantes, com gentes oriundas dos quatro continentes, numa matriz pós-industrial tecnologicamente evoluída, diversificada, culta e criativa. Uma metrópole pós-carbónica solidária, pacífica e pioneira no desenvolvimento de modelos avançados de sustentabilidade económica e de cooperação democrática.

Precisamos de fortalecer sem demora, o eixo Lisboa-Madrid-Barcelona, bem como o eixo Lisboa-Corunha (que passa pelo Porto, Vigo, Pontevedra e Santiago). Precisamos de ligar convenientemente o Porto, que tem todas as condições para ser a capital económica do Noroeste peninsular, a Aveiro e Salamanca, como precisamos de conectar o porto de Sines à Extremadura espanhola. Precisamos de encurtar a distância entre Lisboa e Sevilha, por Vila Real de Santo António, mas também por Beja. A crescente integração económica da Península Ibérica, parte da integração europeia alargada (que um dia irá de Lisboa a Istambul e a Kiev… ou mesmo Moscovo), exige boas redes de comunicações e igualdade absoluta de oportunidades para todos os cidadãos e para todo o tipo de empresas e actividades económicas. Ora é nesta perspectiva estratégica ampla e arejada de fantasmas, que operações como a que se desenha para Almada fazem ou não sentido.

Olhando para o esquema, diria que o principal e mais difícil foi seguramente tomar a decisão que foi tomada. O passo decisivo já está e agora há que caminhar em frente, limando obviamente algumas arestas, por forma a não deixar a ideia inicial resvalar, como sucedeu e se previu que sucedesse na zona da Expo, para mais uma atabalhoada operação de especulação imobiliária. Os equipamentos culturais previstos parecem-me todos de fachada ou inviáveis. Uma zona ecológica integrada, para habitação, trabalho e lazer, parece-me uma solução óbvia. Destinada a pessoas com rendimentos médios e altos, e empresas de prestígio, com forte imagem criativa e tecnológica, não vejo como possa ser doutro modo. Agora, falta-lhe ainda uma grande referência cultural que leve os cruzeiros a querer atracar por ali, e sobretudo leve as gentes desses cruzeiros, mais a população flutuante que um dia chegará à Rive Gauche de Lisboa, em TGV ou de avião, a demandar obrigatoriamente a Almada Nascente. Eu proponho (de borla) um novo conceito arquitectónico e museológico para aquele lugar. Trata-se de uma Biosfera, quer dizer, uma estrutura ecológica, simultaneamente edifício em terra firme e ilha flutuante, cápsula de experiências vivas sobre a mãe-terra e o futuro da humanidade, laboratório simétrico do Oceanário, em suma, um novo e irresistível símbolo cultural do Grande Estuário.

Como não disse mas poderia ter dito o jovem José Manuel Durão Barroso, a ousadia alimenta os heróis.

Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa — dizem carinhosamente os galegos –, porque ela é a menina dos olhos da península. Que os políticos não se esqueçam disto!

OAM 266, 23-10-2007, 18:06

6 responses to “oGE

  1. António,A região de Lisboa tem crescido populacionalmente e urbanamente, à custa da drenagem do resto de Portugal, de obras públicas políticas centralistas financiadas por fundos da UE, devido à conjuntura globalizadora sem (tele)comunicações de baixo custo que exigiu delegações nacionais e devido ao excessivo endividamento bancário devido à passagem para o Euro. Pelo que habitualmente escreve, já devia ter percebido que foi uma conjuntura irrepetível: Não há mais EDP,BCP/BPIs/PT para drenar do Porto para Lisboa, muitas delegações de multinacionais estão a fechar em Lisboa e centralizar em Madrid, fundos da UE para Lisboa já eram e juros baratos também. A sua visão de «dos principais centros económico-culturais da Europa» arrisca-se a ser como os sonhos socráticos nutridos noutra conjuntura, como várias vezes por aqui escreve.

  2. José,Até agora não tem havido nenhuma estratégia para o país, a não ser a que deriva directamente do aproveitamento do “pilim” comunitário, da especulação imobiliária, do turismo e da economia informal. Os resultados são conhecidos. Talvez o mais gravoso de todos seja o endividamento geral do país: dívida pública, dívida externa e dívida doméstica. Como consequência, o país está maduro para uma OPA generalizada dos seus recursos estratégicos: água, energia, sistema de transportes, telecomunicações, banca e parque imobiliário. Temos que fazer soar as campainhas de alarme!A crise demográfica e o regresso da emigração em larga escala são mais dois graves problemas pela frente.No entanto, há uma crise sistémica global no horizonte que, paradoxalmente, nos poderá abrir algumas perspectivas… Teremos muito em breve uma reversão, pelo menos parcial, da globalização, com a implementação de regras mais restritivas no sector da especulação financeira, o regresso ao proteccionismo selectivo em alguns mercados e a recuperação do conceito de sectores estratégicos nacionais. Quando isto ocorrer, teremos que reforçar as nossas relações com a União Europeia e em particular com a Espanha, mas delimitando de forma clara os sectores inalienáveis da nossa economia e do nosso território (com particular destaque para o Atlântico).É aqui que considero ser crucial a definição de uma estratégia de longo prazo para Portugal. A minha visão é uma utopia? Que venham outras, e distopias também, para desencadearmos a necessária tempestade mental de que este país precisa para sair da letargia pequeno-burguesa em que encontra.

  3. Pois. Tem toda a razão. Mas não percebo como é que essa reorientação estratégica passa pela repetição do comportamento dos últimos 30 anos. Se dissesse que por falta de petroleo barato teriamos que concentar toda a população num único local (os 2 estuários, usando a sua terminologia) para poupar nos investimentos em infra-estruturas, ainda compreenderia. Mas essa hipotese facilmente cairia por terra com o argumento dos custos imobiliários ou com os custos da gestão de sistemas urbanos complexos e densos. O caminho é mesmo fazer o mais dicícil: Racionalizar o Estado, este deixar de emitir propaganda, acabar com as PPP e outras negociatas para empresários/gestores/grupos com problemas endócrinos, estimular valores mais espartanos.

  4. Creio q devemos trabalhar simultaneamente na hipótese de três grandes regiões continentais bem integradas (Lisboa-RLVT, Porto-Norte e Algarve), duas regiões autónomas com mais poderes e o reforço activo do poder local ao nível das câmaras e freguesias. A articulação destas instâncias deve apoiar-se fortemente em redes telemáticas de banda larga, em redes de transporte ferroviário e automóvel pouco dependentes do petróleo, e sobretudo da alteração radical dos paradigmas culturais dominantes (superação do consumismo e do hedonismo militantes.)

  5. Sim… concordo em parte. O Algarve é uma regiãozinha do tamanho do distrito de Viana do Castelo ou de Vilareal+Bragança, sabia ? No sul valoriza-se em demasia o Algarve e desvaloriza-se o peso do Norte…António, penso que a solução é mesmo tratar como judeus do séc XVI os nossos empresários do betão/PPPs. Deveriamos emurra-los para a exportação dos seus serviços/modelo de negócio pela Europa de Leste: Brisas, TD, Somagues e Motas, que construam as suas PPPs fora de Portugal, para deixar de sugar os contribuintes e manipular os nossos políticos. Depois disso podemos dedicarmonos a ser um pais escandinavo baseado na exportação de produtos e serviços de maior VA, suportados por uma alteração de mentalidade, mais espartana e sem megalomanas concretizações urbanísticas. Deixemos os portugueses seguirem naturalmente o seu caminho sem intervenção estatl. Este que cuide da sua modernização e deixe os privados e respectivos impostos em paz.

  6. Esqueci-me de mencionar uma quarta região, na realidade, uma pseudo-região, incluindo toda a raia, de Bragança, Vimioso e Miranda do Douro, até Mourão, Alcoutim e Vila Real de Santo António. Seria mais um cordão transfronteiriço com uma lógica económica e cultural muito particular, que funciona estrategicamente bem do lado espanhol, mas que não encontra interlocutor à altura do lado português. Esta situação humilhante e politicamente cretina precisa de ser rapidamente alterada. Não creio, porém, que o mapa da regionalização existente sirva para tal…

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