Portugal 16

Santana Lopes
Pedro Santana Lopes, exemplar de um populista Lusitano

Que se lixe o PSD!

“O que Menezes disse na conferência de imprensa de ontem é muito mais importante e explica (…) os múltiplos silêncios do PSD dos dias de hoje. Ele anunciou a vontade de “entendimentos alargados” com o PS, numa série de sectores fundamentais da vida pública, indo mais longe do que Marques Mendes alguma vez foi com o seu modesto Pacto de Justiça.

“(…) pode ser um exercício comunicacional proposto pela sua agência para “lavar” a imagem populista e dar ar de responsável? Pode, tudo é possível. Mas há razões para se tomar a sério a sua proposta porque ela acrescenta um “entendimento alargado” sobre as Obras Públicas e isto percebe-se que é a valer. Ora esta é a única proposta que o PSD não pode de todo fazer num país como Portugal, onde esse é o terreno do verdadeiro “bloco central de interesses” que mina o estado, corrompe os partidos e a política, e que exige o maior escrutínio de uma oposição que se toma a sério. Esta é a mais preocupante proposta do PSD, numa área em que nada justifica “consensos”, por muito que estes sejam pedidos pelos empreiteiros por razões que se percebem muito bem. As grandes obras públicas são política pura, nenhum partido que tenha um projecto para Portugal alternativo ao dos socialistas pode achar que esta é uma zona de “consenso”, nem deixar de perceber a perigosidade da proposta.” – 06-07-2007, José Pacheco Pereira, Abrupto.

No dia em que Pedro Santana Lopes votar contra Menezes, rebenta com o PSD, em nome do PPD e do que Paulo Portas sonhou mas foi incapaz de realizar: um partido português castiço, desconfiado de Castela, rejeitando o velho sonho alemão e defensor de uma renovação radical da aliança atlântica. Esta viragem passaria obviamente pelo renascimento da aliança com o Reino Unido, pelo reforço claro da aliança com os Estados Unidos… e por Sarkozi, o homem que neste momento ambiciona fazer da França um actor indispensável aos movimentos tectónicos em curso na geo-estratégia mundial, claramente distanciado da eterna mania alemã em volta do “espaço vital” (Lebensraum). No cantinho lusitano da política, o recauchutado PPD pode muito bem vir a tornar-se num partido essencialmente patriótico e de emergência institucional, obtendo vantagens da mais do que provável crise económica e política que atingirá Portugal antes de 2009. Num jogo destes, Menezes não passaria de mais um líder para queimar, podendo Durão Barroso surgir, a seu tempo, como a inesperada, necessária e fortíssima caução do projecto por ele interrompido (em nome de valores obviamente mais elevados), mas não abandonado. O actor principal deste plano seria naturalmente Santana Lopes. Na noite das próximas eleições nas Regiões Autónomas, em 2008, veremos se este cenário tem ou não pernas para andar.

Panorama diferente deste, mas com resultado semelhante, isto é, a cisão ao meio do PPD/PSD, seria Luís Filipe Menezes conseguir impor um pacto de sangue a Santana Lopes, à semelhança do que Tony Blair celebrou com Gordon Brown, dividindo entre si os acertos e as contradições de um projecto para suceder ao governo de José Sócrates. A implosão acometerá, mais cedo ou mais tarde, a maioria absoluta actual, tal como acometeu as três últimas maiorias governamentais. E nada nem ninguém afastará aquelas duas lapas políticas da possibilidade de governarem. Os sociais-democratas do PSD, intelectuais ou tecnocratas, já nada têm a dar ou fazer no partido dominado pela dupla Menezes-Santana. Melhor seria, para todos eles, e para o país, que se pusessem a conspirar para a criação de um novo partido, inovador e que refundasse o centro-direita eleitoral. Precisamos todos de inovação, e há tanto para inovar!
Além do mais, a cisão do PPD/PSD provocaria efeitos de arrasto inevitáveis no PS, no Bloco de Esquerda e até no PCP, podendo dar-se, na sequência de tal turbulência, uma saudável reestruturação do actual espectro partidário, e sobretudo, a definição em novos moldes da função dos partidos numa democracia tecnológica fazendo parte activa duma vasta união económico-político regional.

Pacheco Pereira anda muito preocupado com o Bloco Central dos Interesses

Mas há ou houve alguma vez outro diferente?! Não se encontra o dito em pleno funcionamento em tudo o que são gabinetes de advogados com o Estado no rol dos seus clientes permanentes? Ou em qualquer empresa pública? Não o vemos escancarado nas grandes empresas privadas (Brisa, GALP, Lusoponte, etc.) envolvidas em parcerias estratégicas com o Estado? Não partilha mesmo, no seu âmago oportunista, todo o espaço político-mediático disponível, em jornais, rádios e televisões? Não vegeta, até, nas empresas de sondagens? De que se admira o social-democrata Pacheco Pereira? Porquê tanta aflição com o discurso pantanoso de Menezes sobre a conveniência de alguns consensos, nomeadamente no sumarento sector da obras públicas?

Não terá já chegado a altura de Pacheco Pereira fazer alguma coisa coerente com as ideias que tem, começando, por exemplo, por abandonar o conforto das inerências caducadas? Pois fique sabendo, caro opinador, que a ideia de um pacto para as obras públicas não me assusta nada e até seria bom que houvesse em certos domínios muito precisos. — Por exemplo, na definição de uma política de transportes e mobilidade, estrategicamente necessária e coerente, tecnicamente bem fundamentada (ressuscitando, por exemplo, um Conselho de Obras Públicas com efectivos poderes técnicos de supervisão), economicamente viável, eficiente no plano energético, sustentável, distinguindo bem o que nela tem que ser forçosamente público e o que pode e deve ser libertado para a dinâmica da economia de mercado. — Por exemplo, na definição de uma política energética assente na ideia de que caminhamos inexoravelmente para uma situação de emergência à escala global, que atingirá o seu pico dramático em 2030, mas que dará até lá enormes dores de cabeça ao mundo e à Europa, podendo mesmo ser a espoleta de uma III Guerra Mundial. Diante de tais perspectivas, que as novas reservas brasileiras de petróleo fino e gás natural ontem anunciadas não chegam sequer para mitigar, não acha que precisamos mesmo de alguns consensos partidários alargados (do Bloco de Esquerda ao CDS-PP), discutidos abertamente nas várias instâncias da democracia portuguesa?

Assim como o PCP e o Bloco de Esquerda, se quiserem servir para algo na democracia portuguesa, terão que abandonar a mera retórica sindicalista, a predominância machista e o caricato envelhecimento dos protagonistas (por indecorosa falta de limitação dos mandatos executivos), elevando-se a um plano superior de praxis política, centrado na análise honesta dos problemas e numa verdadeira dialéctica criativa de soluções, também os intelectuais orgânicos, como creio que Você, Pacheco Pereira, sempre foi, embora há muito não saiba de que árvore, terão que deixar de confundir o jogo nobre da política com tertúlias florais mais ou menos endogâmicas, e passar a pensar nos problemas a partir dos próprios problemas, e as soluções a partir das próprias soluções. O diletantismo é, como já todos deveríamos saber, o pior veneno do pensamento, e os maus pensamentos só podem conduzir a más ideologias e inércias comportamentais indesejáveis.

OAM 274, 10-11-2007, 04:45

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