Crise Global 9

Distribuição da Liquidez financeira mundial
Distribuição da Liquidez financeira mundial

Estilhaços da Globalização

“Over the past five years, the US borrowed more money from the rest of the world than it did in its entire history from 1776 to 2000.” — San Francisco Chronicle — 27/11/2005.

“… aconselha-se vivamente muito cuidado na tomada de decisões de investimento de médio e longo prazo. O mais provável é que bens como a terra fértil e as zonas habitacionais próximas dos nós de comunicações se venham a valorizar tremendamente nos próximos anos. Para já, o investimento em metais preciosos (como o ouro e a prata) são bem mais seguros do que quaisquer aplicações financeiras e planos de poupança/reforma e seguros de saúde. O mesmo ocorrerá infelizmente com todos os bens e serviços associados a emergências bélicas, sanitárias e sociais decorrentes do previsível agravamento da presente crise mundial. Num cenário de catástrofe financeira mundial, é de prever a falência de centenas de bancos e sociedades de investimento, já para não falar da falência de algumas dezenas de Estados (congelamentos de salários e pensões de reforma, despedimentos nas administrações públicas, subidas vertiginosas de impostos, derivas nacionalistas, etc.) Se a crise vier a ocorrer, como se teme, não será fácil evitar o pânico.” — in O António Maria, 02-03-2006.

A primeira decisão acertada a tomar, se quisermos acompanhar a evolução turbulenta da economia política mundial, é fugir da imprensa económica portuguesa, como o Diabo foge da cruz! A razão é simples: não acertam uma, e o discurso que debitam não passa, quase sempre, de lições previamente ensaboadas por quem lhes paga ou promete futuros risonhos, em nome de uma “respeitável responsabilidade” — quer dizer, em nome das cortinas de fumo que sistematicamente lançam sobre os seus incautos leitores. O grave é que muitos deles perderam centenas, milhares e mesmo milhões de euros por causa das ilusões assim bebidas.

Ainda hoje ouvi um leviano, cujo nome nem pretendi conhecer, proclamar alegremente que os Estados Unidos da América, dada a sua enorme flexibilidade, por exemplo em matéria de despedimentos, iriam debelar as presentes dificuldades com uma perna às costas! Como é possível deixar imbecis deste quilate disseminarem tamanhas enormidades através da televisão?! Das duas uma: ou os directores andam a dormir (e devem ser despedidos), ou então, e neste caso a coisa agrava-se, o embuste opinativo é propositado (em linha com o alerta anti-terrorista lançado no Domingo passado), não passando assim de uma das muitas manobras de diversão mediática arquitectadas pela fileira mais canina do regime socratintas. Não será seguramente assim que evitarão a cisão em curso no Partido Socialista, a que se seguirá uma partição igualmente importante nas fileiras do PPD-PSD. Mas esta é outra história, que fica para mais tarde.

As acções cairam ontem (21-01-2008) à volta de 7% na média dos mercados mundiais. O Japão continuou a tombar a pique, arrastado pela estratégia correctiva da China. Os Estados Unidos fecharam hoje uma vez mais no vermelho, com 11.971,19 pontos (-128,11), a Europa andou em terreno positivo tipicamente especulativo — DJ STOXX 50 = +62,26 (3.200,74 pontos) –, apostando na expectativa de mais um corte no preço do dinheiro por parte da administração Bush poder vir a mitigar o forte impacto negativo da desvalorização do dólar, e da recessão já instalada na economia americana, nas exportações europeias para aquela que ainda é a maior economia do mundo, embora a mais, e mais perigosamente, endividada de todas!

Entretanto a Reserva Federal americana resolveu hoje, num movimento imprevisto, proceder a um corte de emergência de 0,75% na sua taxa de referência (ler notícia em Market Watch), passando-a de 4,25% para 3,50%. A Reserva Federal baixou ainda a taxa de desconto em 75 pontos-base, para 4%. Foi a maior baixa instantânea no preço do dinheiro desde 1982! A resposta a esta decisão drástica, que poderá ainda dar origem a um novo saldo (de 0,50%, antes do fim deste mês), foi imediata por parte do Japão, cujas bolsas inverteram a tendência de queda abrupta que estavam a sofrer, e também na Europa, que conseguiu fechar em terreno positivo.

A crise actualmente em curso não é uma crise conjuntural, mas sistémica. Os Estados Unidos estão numa situação há muito insustentável, cujo agravamento previsível deriva directamente da circunstância de os principais países detentores de energia, de matérias primas, de ouro e/ou de vastos fundos soberanos (SWF), não estarem mais na disposição de (ou não poderem) continuar a alimentar um país viciado no consumo irresponsável e na acumulação infinita de dívidas. Ao contrário de outras épocas, por exemplo quando alguns países europeus (Reino Unido, França, Bélgica, Portugal, etc.) mitigavam as suas falhas de liquidez intensificando os respectivos processos coloniais, os Estados Unidos não têm já poder suficiente para impor ao resto mundo o agressivo desenvolvimento desigual com que ainda sonham. O fracasso das guerras de ocupação e espoliação do Afeganistão e do Iraque, a par da emergência militar da China, e sobretudo da re-emergência nuclear estratégica da Rússia, vieram colocar uma barreira virtualmente intransponível aos piratas que há quase oito anos ocupam a Casa Branca.

Nesta conjuntura, a Europa encontra-se perante uma encruzilhada perigosa. Se for capaz de fortalecer a União em direcção à Turquia e à Rússia, poderá transformar-se no verdadeiro Joker da paz mundial. Se, pelo contrário, se deixar levar pela perfídia estratégica inglesa, ou não souber controlar o garnisé de Paris, corre o risco de ver o Tratado de Lisboa rasgado por um qualquer quarteto de conveniências, aventureiro e destinado a conduzir-nos para mais uma tragédia mundial.

A globalização sob a batuta ocidental acabou! A substitui-la, teremos ou uma nova espécie de globalização multipolar (sem FMI, nem Banco Mundial, nem OMC), ou o regresso dramático, porventura violento, ao isolacionismo e ao proteccionismo. Que tudo isto pesará na evolução económica e política de Portugal, não tenho a menor dúvida. Chegou o tempo de nos prepararmos para o futuro incerto que nos espera.

Actualização (23-01-2008 12:10): As bolsas europeias caiem fortemente depois de o BCE ter anunciado que não iria atrás do FED, mantendo assim o actual preço do dinheiro europeu, e dando prioridade ao controlo da inflação (Bloomberg e BBC News). Os Estados Unidos parecem estar sem alternativa ao aumento imparável do dinheiro fácil, da inflação e das suas dívidas. Os prognósticos continuam a ser pessimistas!

OAM 308 22-01-2008, 23:09 (actualizado em 23-01-2008 12:10)

One response to “Crise Global 9

  1. Hoje a nivel global os media e os “fazedores de opinião”, talvez agora mais do que nunca,venderam-se e estão nas mãos do senhores do dinheiro. Direi mesmo que até os supostos orgãos de regulação assim como os que a quem cabe fazer cumprir a lei estão manietados. Por esse motivo as vozes discordantes são silenciadas quando possível, se tal nao for viável desqualificadas. Mas o saco está a encher e vai rebentar é inevitável. Todos sabemos que quanto mais cheio estiver maior serão as consequências, mas minguém com responsabilidades parece estar preocupado, nem mesmo os mais afectados, vivendo na ilusão de que por uma qualquer arte mágica se irão safar.Caminhamos a passos largos para graves tensões sociais, não estao criadas válvulas de segurança que possam em situações limite desanuvia-las por isso se não surgirem mais individualidades a despertar a opinião pública para o que ai vem …. A bomba vai rebentar nas mãos da chamada “geração rasca”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s