Piercing

E se for nos mamilos? Ou no clítoris?

“O PS entregou hoje no Parlamento um projecto de lei que regula o funcionamento dos estabelecimentos que fazem tatuagens e aplicam ‘piercings’, passando a ser proibida a sua aplicação na língua.” – 15-03-2008, Lusa/Sol.

A fúria legislativa de um país que nem cheques sem cobertura consegue penalizar, que nem os carros consegue tirar das esquinas e de cima dos passeios, que pavimenta e atulha de prédios leitos de rios e ribeiras, que tem um pato-bravo a fazer de primeiro ministro, resolveu agora atacar o direito privado dos cidadãos muito para lá do que seria uma normal preocupação com a saúde pública. Esta última protege-se apenas com a aplicação de leis responsabilizadoras dos actos praticados que a prejudiquem. Danos causados a terceiros devem ser castigados. Ou seja, se um automobilista atropela um peão numa passadeira deveria sofrer uma pesada pena de prisão, para além das indemnizações cíveis; se um cão (nomeadamente da polícia) morde alguém, salvo em situações especiais claramente tipificados na lei (defesa da propriedade privada, ou de um deficiente, por exemplo), o respectivo dono deve pagar e sofrer pena de prisão proporcional ao dano causado. Agora, interferir na liberdade individual de uma pessoa a propósito do seu próprio corpo, proibindo actos feitos em consciência e sem qualquer laivo de coação familiar, social, cultural ou religiosa, apenas demonstra o desnorte cultural da actual burocracia parlamentar. Esta iniciativa do néscio deputado do PS (que poderia ter nascido da mente encolhida de um qualquer outro aparatchik da nossa desnaturada democracia) deve ser combatida firmemente como aquilo que é e revela do desvio em curso no actual regime político: uma medida prepotente, visando regulamentar o território íntimo da liberdade individual, e como tal, sintoma revelador de uma lógica tipicamente fascista.

Que eu saiba sempre se furaram as orelhas das meninas em Portugal. É uma tradição que remonta, pelo menos, à época céltica, muito antes de Portugal existir, e muitíssimo antes de termos um parlamento atulhado de funcionários e manhosos suburbanos. O pascácio proponente deveria ser informado de que no nosso país não há “piercing”, porque “piercing” é uma palavra inglesa. A minha filha, como as filhas de milhões de portugueses furaram as orelhas para lá colocarem os brincos de ouro oferecidos pelas madrinhas. Se agora a filha de um deputado pretender colocar um brinco na língua, no mamilo, ou no clítoris, que lhe havemos de fazer? É caso para recomendar ao deputado em causa, paciência e juízo. Que se preocupe com o regime de roubalheira instalado e com o futuro do país, e terá certamente muito que fazer.

OAM 335 15-03-2008, 12:53

2 responses to “Piercing

  1. Brilhante António, muito divertido !Quem foi o rídiculo que pensou nesta lei ? Tem nome o coitado ?O que para instantaneamente a minha gargalhada é pensar que o povo que temos branqueia estas coisas ridículas.Enfim.JSilva

  2. O triste é que quando falo neste assunto, os meus interlocutores começam a discursar sobre se acham bem ou mal os piercings. Ninguém discute o direito a fazer piercings, se alguém quiser.Progressistas ou conservadores, somos um país de fascistas.

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