Fome

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Os motins da fome

Os cereais, quer dizer, o pão e o arroz, entre outros alimentos básicos, entraram numa espiral inflacionista extremamente perigosa. Estas são algumas das causas evidentes:

  • crescimento da população mundial (estima-se que a Terra terá que suportar 9,5 mil milhões de seres humanos em 2050);
  • melhoria das condições de vida e aumento exponencial do consumo de matérias primas, bases alimentares e alimentos derivados ricos em proteínas (aves, suínos e bovinos) nalguns países particularmente populosos (China, India, Indonésia, Brasil, Paquistão, Rússia, Nigéria, Filipinas, Vietnam…);
  • transferência do uso dos solos agrícolas e florestais e respectivas produções alimentares e cinegéticas, para a produção de biocombustíveis (os preços dos óleos de soja e milho estão cada vez mais perto dos preços do azeite!);
  • diminuição dramática dos solos disponíveis para a produção agrícola e florestal provocada pela sua prolongada sobre-utilização (que a produção de biocombustíveis não fará senão acelerar);
  • alterações climáticas e aquecimento global;
  • pico petrolífero e consequente encarecimento dos preços dos combustíveis, bem como dos derivados do petróleo e do gás natural: adubos sintéticos, remédios, plásticos, tintas e vernizes, etc…
  • globalização e consequente destruição das barreiras alfandegárias, assente num modelo de mobilidade intensiva de pessoas e mercadorias, a prazo insustentável;
  • especulação desenfreada dos preços da alimentação a partir dos mercados bolsistas, os quais procuram compensar nesta nova deriva criminosa o colapso catastrófico do grande casino de Wall Street e das dezenas de réplicas existentes pelo mundo.

É preciso confrontar urgentemente José Sócrates e o seu diletante ministro da agricultura sobre estas questões. Nada fizeram relativamente aos OGMs, como nada disseram sobre a legitimidade do cultivo de milho, da beterraba e de outras espécies vegetais para alimentar o nosso irracional e agora insustentável sistema de transportes. Pelo contrário, o irresponsável poder político que tomou as rédeas deste país, anuncia mais mil quilómetros de autoestradas, aeroportos intercontinentais e novas travessias do Tejo, sem se sequer se colocar a dúvida sobre o efectivo interesse e sustentabilidade de tais investimentos. Nem sequer pergunta quem irá pagar no futuro as dívidas que alegremente se predispõe a contrair. As Parcerias Público Privadas são (é o Tribunal de Contas que o diz) um embuste financeiro. Dele lucram apenas a simbiose oportunista e cada vez mais corrupta entre políticos indesejáveis e industriais preguiçosos, sem imaginação, egoístas e no fundamental subsídio-dependentes. E quem os alimenta, ou seja quem lhes pagas os subsídios (seja sob a forma de portagens, seja sob a forma de transferências forçadas do Orçamento de Estado, seja sob a forma de taxas e impostos municipais agravados — que o digam as populações onde plantaram estádios de futebol hoje às moscas, mas com encargos financeiros para toda uma geração!) somos todos nós, quer dizer os pobres dos contribuintes. É preciso dizer basta a esta canalha!

OAM 345 15-04-2008, 19:20

2 responses to “Fome

  1. Chantal M Tremblay

    Antonio, é de sublinhar que os dados duma inflação em alta forte em Portugal, publicado ontem, apontam a totalidade da alta du custo de vida ao “vestuário e calçado” com a chegada das novas colecções de primavera/verão. E quasi hilariante, de tão ligeiro…vão me dizer que a alta do petroleo não entra nessas contas, nem da alimentação? Mas não convem falar muito da alta dos preços da alimentação ja que Portugal é um dos pais da Europa onde a alimentação ocupa a maior fatia do cabaz de consumo das familias, seja ao minimo 20%, enquanto esta a baixo de 15% na média Europea. No teu mapa de disturbios relacionados com o custo da alimentação poderia ter acrescido a Itália, que tive uma manifestação contra a alta do preço das massas, e brevemente poderá acrescentar Portugal, se houver um despertar do “Portugal Oculto” para utilizar o eufemismo de Maria José Nogueira Pinto…

  2. Chantal M Tremblay

    When the United Nations’ World Food Program issued an “extraordinary emergency appeal” to fill the $500 million funding gap last month, executive director Josette Sheeran said it was the first emergency appeal ever issued over a “market-generated crisis”. Isso deveria nos fazer refletir porque é mais um indicador da produndeza da crise na qual estamos a mergulhar.Mas o que a Diretora do WFP não diz, é que apesar dos compromissos da Década contra a pobreza, a quasi totalidade dos paises desenvolvidos baixaram substancialmente nos ultimos anos as suas contribuções para a ajuda aos mais pobres, mas muitos aumentaram as despesas militares.Quem sabe, são eles que estão com a razão!?

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