Por Lisboa 17

Independence of the Seas, Lisbon, 14-05-2008
Lisboa: terceiro destino mundial dos cruzeiros. Há que protegê-lo da voragem especulativa!

Independência dos Mares

Atraca amanhã ao meio-dia no Cais de Alcântara do Porto de Lisboa o maior navio de cruzeiros actualmente sulcando mares europeus. Chama-se Independence Of The Seas. É a sua viagem inaugural e foi antecipada duas semanas, para irritação e protesto de quem reservou bilhetes e teve depois que desistir sem poder reaver o dinheiro da reserva!

Ainda assim, a sua primeira vinda a Lisboa não deixa de ser um espectáculo! Eu, que vivo em Carcavelos, delicio-me há anos com os navios pequenos e grandes que cruzam a Barra de São Julião, entrando e saindo do Porto de Lisboa. Ando, porém, muito irritado com os power-points populistas do governo socratintas em volta de intoleráveis ilusões bancário-betoneiras. Os dromedários e dromedárias que prometem a pés juntos estar a governar este país, ainda não perceberam que o pico petrolífero é uma parede intransponível, e pior do que isso, uma actividade telúrica destrutiva de economias, cujos efeitos nas insustentáveis dívidas públicas e privadas portuguesas irão inevitavelmente colocar-nos diante de dilemas de dificílima resolução. O barril de petróleo chegará aos 150 dólares ainda este ano, se não mesmo aos 200!

O paradigma do progresso assente numa burguesia velha, parasitária, bronca e subsidio-dependente chegou ao fim. Confundir a economia com auto-estradas, aeroportos e apeadeiros de dívida pública, hipotecando por mais de um século as futuras gerações de portugueses, é a prova cabal de que o regime político actual se transformou numa verdadeira cleptocracia (deixemos os angolanos em paz!), ainda que disfarçada pelo manto diáfano da aparência democrática e aturdida pelos sound-byte do populismo mediático dominante (de esquerda em Lisboa, e de direita no Funchal.)

O navio que amanhã chega à capital foi construído nos estaleiros de Aker, na pequena cidade finlandesa de Turku (pouco mais de 175 mil habitantes), não em Setúbal, nem em Vila do Conde! Nós por cá preferimos destruir alegremente a nossa capacidade agrícola e industrial, em nome da modernidade aparvalhada do “turismo de qualidade” e das novas tecnologias – dois fenómenos cada vez mais contingentes face à natureza capitalista avarenta da globalização, face à crise energética e face às alterações climáticas que se aproximam como um gigantesco, contínuo e duradouro ciclone.

Enquanto houve e houver subsídios de Bruxelas, o sistema político democrático que temos comportou-se e comporta-se como uma cigarra palerma. Depois, ou seja, durante o ciclo de ruína iniciado no fim do século passado, o mesmo sistema democrático-clientelar comporta-se como uma barata tonta, disposta a vender pai e mãe por um prato de arroz. As viagens aflitas do nosso primeiro ministro por terras da promissora Venezuela, da blindada Angola, ou da gélida Rússia, mostram até que ponto a nossa aflição é séria e estamos cada vez mais prontinhos para cair nos braços acolhedores de Madrid. Os perigos que espreitam a independência de um país com mais de 800 anos de vida são evidentes e muitíssimo preocupantes.

O transporte colectivo multi-modal e a partilha temporal do transporte automóvel individual serão muito provavelmente as únicas vias de saída para o esgotamento energético e económico das sociedades urbanizadas e suburbanizadas desenvolvidas ao longo do século 20 de acordo com o paradigma do transporte automóvel individual e respectivas redes viárias suburbanas, regionais e internacionais.

Estas saídas pressupõem a re-concentração das cidades e uma muito mais clara, ponderada e estruturada organização em rede das principais aglomerações urbanas. Teremos um número cada vez maior de cidades-região (em Portugal serão apenas três: Lisboa, Porto e Faro), quase sempre em volta de núcleos urbanos consolidados e antigos, cuja sustentabilidade económica, social e cultural dependerá sobretudo do grau de inteligência activa usada na sua modelação e governação futuras.

O principal cuidado a ter nesta fase de passagem, de que experiências de 14 mil milhões de euros, como Masdar City, a nova cidade sustentável de 6Kmq no Abu Dahbi (1), para 50 mil pessoas e 1500 empresas, ou o iminente desastre ecológico da expansão cosmopolita de Barcelona, são exemplos a seguir de perto, é a preservação das principais vantagens estratégicas de que cada grande cidade dispõe à partida e foi quase sempre a razão de ser da sua robustez e longevidade. No caso de Lisboa, a defesa intransigente do seu grande porto, tal como o cuidado a dedicar à rede ferroviária urbana, suburbana, interurbana e internacional, são prioridades absolutas, que nenhum governo imbecil, nem nenhum empreiteiro desmiolado, poderão ameaçar. Sob pena de eu deixar de poder gozar a vista dos navios que sulcam o Grande Estuário, e o país caminhar a pique para a indigência.


REFERÊNCIAS
  • Para termos uma ideia da importância do espaço livre no Porto de Lisboa, há que ter em conta duas coisas: a tendência para o regresso ao transporte marítimo de carga em navios de grandes dimensões e a dimensão igualmente imparável dos super-paquetes. O Independence Of The Seas, que transporta 5 730 pessoas, será superado já em 2009 por uma nova classe de navios de cruzeiro, a Classe Génesis, cujos navios transportarão 8400 pessoas. Por outro lado, perante a evidente deriva tectónica dos continentes geo-políticos, pontuada pela China, India, Brasil e Rússia, é de prever um verdadeiro renascimento da importância do Atlântico Sul e Norte no Grande Tabuleiro de Xadrez da política global do século 21. A orla costeira de Portugal e a respectiva Zona Económica Exclusiva (expandida), assim como as indústrias, eco-culturas e serviços que povoam a linha de costa e dão corpo às suas três maiores cidades, são pois domínios estratégicos de primeira importância. A sua sorte não pode ficar à mercê de uma burguesia retardatária e preguiçosa, nem de simples idiotas do poder.
  • Ver publicidade da Presstur sobre as 12 passagens anuais do Independence of The Seas por Lisboa.
  • Independence Of The Seas

    Classe Freedom
    Tonelagem: 154 407 toneladas
    Comprimento: 338,92 metros
    Largura: 38,6 metros
    Altura: aprox. 64 metros
    Capacidade: 5 730 passageiros, incluindo funcionários e tripulantes
    Custo: 590 milhões de USD
    Operador: Royal Caribbean International/
    Viagem inaugural: Maio, 2008
    Estaleiro: Turku, Finlândia (UE)
    Chegada inaugural a Lisboa: 14 de maio de 2008, às 12h00
    Programa 14 Tesouros Nocturnos do Mediterrâneo. Itinerário: Southampton (Londres), passando por Gibraltar (U.K.); Barcelona, spanha; Villefranche-Sur-Mer, França; Livorno (Florença e Pisa), Itália; Cagliari, Sardenha (França); Málaga, Espanha; Lisboa, Portugal; Vigo, Espanha.

    Classe Génesis
    Tonelagem: 220 000 toneladas
    Comprimento: aprox. 360 metros
    Largura: 47 metros
    Altura: 65 metros acima da linha de água
    Capacidade: 8400 passageiros, incluindo funcionários e tripulantes
    Estaleiro: Turku, Finlândia (UE)
    Viagem inaugural: 2009

OAM 359 13-05-2008, 19:17

2 responses to “Por Lisboa 17

  1. António,1. Eu trabalho numa empresa industrial que tem turnos, marcação de ponto e horas extra pagas. O Norte ainda é industrializado…2. Sub-regioões a Norte com a mesma dimensão populacional que Faro/Algarve: Viana, Aveiro, FFoz-Coimbra. Porquê a sua aposta Porto, Lisboa, Faro ? Não tem qualquer aderencia com a realidade da distribuição populacional !3. Conhece a S2Rent.net ? 4. Para conhecer um pouco melhor o POrto, recomendo a leitura de «A alienação desportiva não norteia» no Norteamos.5. Já agora. Já pensou que a reorganização do panorama político nacional poderia passar por si ? Explico-me melhor. Você dedica-se À causa do desenvolvimento regional sustentável de Lisboa. Porque não cria um partido regional ?Abraços.

  2. Caro José,Você faz-me pensar! Obrigado🙂Ora bem, há ou não mais de 3 cidades-regiões com pernas para andar no “rectângulo”?Eu acho que não, em primeiro lugar porque as vejo nascer claramente no estuário do Douro (com projecções até à Corunha, Salamanca, Lisboa, Barcelona e resto do mundo!), nos estuários do Tejo-Sado (com projecções evidentes em direcção a Madrid, Barcelona, Sevilha e resto do mundo) e na faixa algarvia (com projecções para Sevilha, Londres e Marrocos). As demais regiões e zonas geográficas do “rectângulo” só podem mesmo ser atraídas (o que não significa submissão) pelos três vórtices mencionados. Em particular, no que toca ao Porto, e eu viajo muito pelo Norte (ou não tivesse famílias e terras de ouro por aí!), temos que desenvolver uma visão ambiciosa do seu enorme potencial. Sabia que o aeroporto Sá Carneiro já ultrapassou a Portela na taxa de crescimento e se está a transformar muito rapidamente no grande aeroporto do Noroeste Peninsular? Bastou um cheirinho chamado Low Cost para que a cidade se enchesse de catalães, ingleses e napolitanos! Quando houver ligações ferroviárias rápidas, de passageiros e de mercadorias, entre o Porto e Vigo, e entre o Porto e Salamanca (via Aveiro), nada poderá parar o Norte e a hermandade galaico-portuguesa. Acredite.

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