China 4

Dujiangyan, Sichuan, escola depois do terramoto
Dujiangyan, Sichuan, China – escola depois do terramoto de 12 de Maio de 2008.

O pesadelo tibetano

Não deixa de ser uma ironia que no momento em que a China se prepara para aparecer aos olhos do mundo como a super-nova das grandes potências económicas e geo-estratégicas do planeta, coroando tal propósito com a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim, lhe caia tragicamente em cima um verdadeiro pesadelo tibetano. Primeiro, foi a gigantesca operação de descredibilização do regime chinês levada a cabo pelos separatistas do Tibete, com os salamaleques hipócritas do reacionário Dalai Lama e o apoio intensivo das operações especiais dos serviços secretos dos Estados Unidos e do seu poodle britânico. Agora, a China defronta-se com uma tragédia de proporções dantescas, cuja origem é a colisão das placas tectónicas indiana e euroasiática (1), vórtice do Planalto Tibete. Seja pelo encurtar dos ciclos sísmicos, seja pelo degelo das neves dos Himalaias que se aproxima a passos largos, o chamado tecto do mundo está a transformar-se num sonho monstruoso.

18-05-2008 12:37. O sismo de segunda-feira na China já fez 32.477 mortos em todas as regiões afectadas, segundo o último balanço oficial e provisório divulgado pela agência de notícias Nova China.

Até ao meio-dia deste domingo, as autoridades já tinham registado 220.109 feridos, segundo a mesma fonte que cita números do governo chinês.

O anterior balanço do tremor de terra, de magnitude 7,9 que atingiu segunda-feira a província chinesa de Sichuan, era de 28.881 mortes confirmadas.

As autoridades chinesas fazem agora balanço mais pesado, que poderá vir a ultrapassar as 50 mil vítimas mortais, tendo em conta que se estima que mais de 10 mil pessoas permaneçam ainda sob os escombros.

As doações para as vítimas do sismo já ascendem a cerca de 900 milhões de euros (1.400 milhões de dólares).

As ajudas do exterior ascendem a 552 milhões de euros, segundo a cadeia de televisão CCTV, enquanto as doações internas rondam os 321 milhões de euros, segundo o governo.

Duas centenas de equipas de socorros do Japão, Rússia, Coreia do Sul e Singapura, os únicos países aceites apesar da disponibilidade de muitos outros, trabalham desde sábado ao lado dos militares chineses nas zonas mais devastadas pelo sismo, numa área de 100 mil quilómetros quadrados.

A televisão nacional tem mostrado imagens das ajudas recebidas, incluindo as de um avião espanhol com sete toneladas de medicamentos que chegou sábado a Chengdu, capital de Sichuan. — Portugal Diário.

É infelizmente bem provável que os números de vidas humanas perdidas, feridas e desalojadas sejam bem maiores. A destruição económica –cidades, estradas, infraestruturas, campos, empresas, animais de criação e máquinas– é gigantesca. Em suma, vai ser sob um pesado luto nacional que a cerimónia dos Jogos Olímpicos terá lugar no próximo dia 8 de Agosto.

As consequências deste trágico evento produzirão ainda efeitos colaterais negativos na actual crise económica mundial, aumentando a pressão sobre os preços da energia, das matérias primas necessárias à edificação de mais de um milhão de casas novas e reconstrução das infraestruturas, e da alimentação (desapareceram mais de 33 mil hectares de terra cultivada e 20 mil ferramentas e máquinas agrícolas.)

O tempo agora é de solidariedade, mesmo que a manifesta prontidão e competência com que as autoridades chinesas desencadearam as operações de socorro induzam a pensar que não precisam da ajuda que cada um em consciência decida prestar. A presença de Hu Jintao, primeiro-ministro chinês, na zona de catástrofe, e a transparência informativa do evento, mostraram uma China bem diferente dos clichés habituais: organizada e digna, apesar do pesadelo. É impossível ficar insensível a tamanha tragédia (2).

Apenas alguns países asiáticos com efectiva capacidade de aportar mais valias às operações de socorro (Japão, Rússia, Coreia do Sul e Singapura) foram até agora autorizados a colaborar com o dispositivo chinês no terreno. Faz sentido, e sobretudo mostra que a nova potência mundial perdeu a ingenuidade de outras eras face a uma parte do Ocidente. Não tenho nenhuma dúvida de que se deixassem entrar no seu território ONGs norte-americanas, inglesas ou israelitas, sob o pretexto louvável da ajuda humanitária, que entre os respectivos operacionais estariam infiltrados agentes secretos dos três países.

Ainda não percebi que género de solidariedade foi manifestada pelo governo português (3) à China na sequência do terramoto de segunda-feira. Ou muito me engano ou o país continua entretido com os vícios privados de José Sócrates. À cautela, escrevi-lhe um e-mail:

Mensagem electrónica dirigida ao Governo Português:

Solicito informação sobre quais as iniciativas do governo português relativamente ao terramoto que vem afectando milhões de cidadãos da República Popular da China.

Faço nomeadamente estas três perguntas, que gostaria de ver respondidas:

1 – foi ou não enviada alguma mensagem do governo de Portugal ao governo e povo chineses sobre a presente tragédia? Se foi, qual? Se foi e é publica, por que canais foi difundida?
2 – foi ou não até agora decidida alguma iniciativa concreta de envio de apoio humanitário às vítimas do terramoto (medicamentos e material médico de emergência, etc.)?
3 – foi ou não aberta até ao momento alguma conta bancária de solidariedade pública, nomeadamente através do Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos e/ou Montepio Geral?


NOTAS
  1. O Monte Evereste e os Himalaias formam parte do Planalto Tibetano e continuam a subir por efeito da colisão, há 45 milhões de anos atrás, entre as placas tectónicas da India e da Eurásia.

    O epicentro do terramoto de segunda-feira situa-se numa falha situada ao longo do bordo do Planalto Tibetano e uma área de rochas sedimentares. Os materiais do planalto forçam a sua progressão por baixo das rochas da bacia sedimentar de Sichuan situada na China muito abaixo da sua superfície. A fricção entre as rochas impede o movimento, mas quando repentinamente a força massiva que pressiona consegue avançar um bocadinho, vencendo a fricção, ocorre um terramoto.

    John Whalley, um geólogo da Universidade de Portsmouth, no sul da Inglaterra, comparou este processo à tentativa de arrastar um móvel muito pesado numa sala.

    ‘É como tentar empurrar um armário sobre uma carpeta – temos que acumular pressão sobre o armário até que, de repente, ele avança um bocadinho’

    As montanha dos Himalaias e o Planalto do Tibete continuam a ser empurrados ara norte e para cima pela Placa Indiana, movendo-se a uma taxa de 5cm por ano.

    (traduzido de “Massive tectonic fault line linked to Himalayas”, Lewis Smith, London, 14-05-2008, The Australian.

  2. Uma tragédia humana semelhante está a decorrer na antiga Birmânia, actual Myanmar. No entanto, o criminoso isolamento imposto ao país pela ditadura militar que o domina, acaba por nos distanciar psicologicamente dos efeitos terríveis do ciclone. A impotência da ONU perante a situação é um péssimo sinal da sua prestabilidade futura.
  3. «Temos estado a falar com as autoridades chinesas – o embaixador em Lisboa, a nossa embaixada em Pequim – para manifestar solidariedade e disponibilidade», disse João Gomes Cravinho à chegada a uma reunião dos ministros responsáveis pela Cooperação dos 27.

    Segundo o responsável português, as autoridades chinesas ainda não pediram o apoio internacional, mas «é natural que esse apoio venha num segundo momento (…), de reabilitação».
    «Nesse caso, concerteza que estamos inteiramente disponíveis para trabalhar com as autoridades chinesas», sublinhou. — Portugal Diário.


OAM 362 18-05-2008, 18:51

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