Escolarizar

A Matemática segundo Bolonha

“A Sociedade Portuguesa de Matemática advertiu este domingo que o facilitismo nos exames nacionais pode constituir um «desincentivo» para professores e alunos, lamentando nunca ter sido ouvida pelo Ministério da Educação quanto ao grau de dificuldade das provas, refere a agência Lusa.”

As pessoas e sobretudo as corporações têm uma grande dificuldade em entender as causas das coisas. As pessoas normais, por ingenuidade. As corporações, por instinto de sobrevivência. Há muito tempo que o vento começou a soprar contra o estado pantanoso e insuportável dos sistemas de ensino que vigoram na maioria das democracias ocidentais. São caros, não ensinam nada que não se possa aprender em frente a uma televisão, com um laptop nas unhas, ou em grupos de interesses, mantêm sequestrados durante 12, 17 ou mesmo 20 anos, numa alarmante improdutividade social, milhões de jovens por esse mundo fora, inflacionam para além do razoável o preço do trabalho e no fim, quando o Capitalismo esperava, ao menos, ter domesticado os novos proletariados que paulatinamente substituiriam as anteriores gerações de conformados trabalhadores e hipnotizados consumidores, depara-se com verdadeiros exércitos tecnologicamente sofisticados de furiosos desempregados!

Daí que a primeira decisão há muito tomada nos conclaves reservados onde estas coisas se discutem a sério tenha sido, encurtar tanto quanto possível os períodos escolares obrigatórios e gratuitos, massificar a administração de conhecimentos e regras comportamentais, reduzindo os respectivos custos formativos individuais, substituir o princípio do funil (numerus clausus) pelo princípio da conformidade estatística (daí a necessária facilidade crescente das provas de aferição e a falta de utilidade das antigas disciplinas discriminatórias, como a Matemática, a Física ou a Geometria Descritiva), e finalmente, projectar os jovens, depois do período de domesticação obrigatória, para uma bifurcação dramática entre a especialização paga e por mérito (reservada a uma escassa minoria competitiva), e o fatal labirinto da formação para o emprego, onde cai a esmagadora maioria dos futuros empregados de baixo rendimento e onde permanecem sem quaisquer horizontes de dignidade as vítimas do chamado desemprego estrutural.

A realidade é esta, e onde não é, como por exemplo no Japão, ou na China, subsiste a norma da velha disciplina prussiana: a escolarização como estratégia de domesticação e formação das massas. Segundo esta regra os professores têm autoridade máxima e os alunos não passam de bonsais mais ou menos viçosos. Os dois países referidos têm os respectivos cofres a abarrotar, e por isso podem continuar com a tradição prussiana. Já a Europa e os Estados Unidos, onde faliram estrondosamente os sistemas de ensino público gratuito, as dívidas acumuladas ameaçam cada vez mais a sustentabilidade da própria educação obrigatória. Resta saber se é mau, ou se poderá revelar-se proximamente um novo ponto de partida para um novo paradigma pedagógico. Oxalá!

A domesticação académica imposta de cima para baixo pela via da escolarização obrigatória é um fenómeno relativamente recente e basicamente militar. Só em 1763 viria a ser consagrada pela vontade do rei Frederico II da Prússia. Custa até entender como foi possível a humanidade ter sobrevivido sem ter adoptado antes este sistema impositivo! De que raios divinos terão surgido as primeiras leis escritas Sumérias, há mais de 5 mil anos, a arquitectura Egípcia, a Astronomia Mesopotâmica, a Escultura e a Filosofia Gregas, a Matemática da Índia, a História Romana, a Poesia Medieval, o Renascimento, ou a invenção da Ciência no século 17? Será que a educação poderá recuperar um dia a sua tão longa e fundada tradição de liberdade e a sua essencial distracção?

Antes de alimentarmos o escândalo hipócrita em volta de Bolonha (1), talvez devêssemos ler com cuidado a verdadeira história dos actuais sistemas públicos de ensino, não apenas à luz das reflexões oportunas realizadas por Michel Foucault nas idas décadas de 60 e 70 do século passado, mas também do oportuno escrito de Thom Hartmann sobre a verdadeira origem histórica e peripécias do famoso ensino público obrigatório.

Plato gave up on his experiment after only a few years, and the theocrats who ruled Salem Massachusetts gave up their state-run school when it was determined that a majority of the teachers were witches. The King of Prussia was the first to put compulsory schools into place and to make it stick.

His theory, attributed to the German philosopher Fichte, was that by forcing children to attend school at a young age they would become more loyal to and afraid of the power of the state than they would be loyal to or afraid of their parents. If they didn’t go to school, people with guns would come to take them; if they or their parents tried seriously to resist, the police of the state could imprison or even shoot and kill the rebellious parents. The kids were no dummies: they knew that their parents had no choice but to send them to school, and that therefore the state was more powerful than their own families. Therefore, Fichte and the King reasoned, these children would grow up to be good soldiers, respecting the power of the state.

Additionally, the King wanted soldiers who didn’t question their orders but immediately did what they were told. So the Prussian school system instituted a system of “no interruptions allowed.” Children could not even ask a question about the topic under discussion unless they first asked the question of, “May I ask a question?” by raising their hand and being called on. In this way they became “properly socialized” to respect and not question authority figures.

The system, in other words, was designed to beat out or weed out what we today would call ADD-like behaviors* and perspectives from the “commoner” citizenry. It was one of modern history’s first full-scale assaults on those people who inherited the Hunter genes of our distant ancestors.

And, finally, all the children who were products of this school system would have the same opinions about “matters of importance to the state.” This particularly pleased the King, since he would be able to choose what these matters were, and what opinions the children should have.

The King, however, didn’t want his own children to be subject to such a treatment. They, after all, would one day become the rules of the country. They’d be the leaders, and instead of follower-skills would have to have the skills of leadership, creativity, and independence. The King also realized that the sons of the leading merchants and government officials would need similar skills, and would be less effective at running business and government if they’d been processed by the public school system he’d created.

So he ordered the creation of a second, parallel public school system. While the first system was called “the People’s School” (Volkshochschule), the second was to be the place where true education would take place. Recognizing this, it was called simply “the Real School” (Realschule). Ninety three percent of students would attend the People’s School, and the seven percent who represented the elite of the nation and would be its future business and governmental leaders would attend the Real School.

The Realschule was set up originally in a way which would probably be very friendly to kids with ADD. There was emphasis on interaction, on participation, on asserting one’s opinions and ideas, on critical thinking skills and leadership training. It resembled in many ways some of the more progressive “experimental” schools we find today in the United States and elsewhere. — in The Real School is Not Free, by Thom Hartmann. Copyright © 1999, 2000, 2001 by Thom Hartmann, all rights reserved.

* – ADD: Attention Deficit Disorder, describes the characteristics of inattention, impulsivity and hyperactivity that may be present in some children and adults. (NTr)


NOTAS
  1. Em vez de prestarmos demasiada atenção aos jogos florais dos opinocratas de serviço, espécie de marretas atacados pela síndrome Salazarista da cadeira (só removíveis por acidente), deveríamos colocar frontalmente em discussão as questões realmente estruturais do nosso sistema educativo, sem o que nada de substancial se reformará. Para mim, os obstáculos e pecados mortais da Educação Pública são estes:
    1. A caducidade instrumental do sistema, do ponto de vista da sua génese e missão histórica: formatar a cidadania democrática de acordo com os interesses verticais do Capitalismo e do Estado Nacional;
    2. A multiplicidade de instâncias de formação dinâmica actualmente disponíveis no mercado, fora dos quadros institucionais dos Estados e Uniões de Estados nacionais, cada vez mais ajustada ao desenvolvimento em rede das sociedades e dos modos de produção, e contra a qual apenas remam as sociedades onde predominam ainda, apesar das enganadoras aparências democráticas, regimes políticos corruptos e corporativos;
    3. O centralismo, a macrocefalia e a natureza intrusiva da burocracia educativa de Estado, cujos elevados graus de incesto público-privado e corrupção corroem irremediavelmente a credibilidade e capacidade de acção dos governos nesta área de domesticação social;
    4. A inutilidade e corrupção endémica das corporações profissionais, a começar pelas hierarquias universitárias, professorado em geral, sindicatos e associações de estudantes;
    5. A recuperação das praxes académicas enquanto instanciação neofascista dos procedimentos de aquartelamento e hierarquização social.

No imediato, o Estado deve retirar-se de boa parte do sistema educativo, seja abandonando a prestação de serviços onde não faz falta, seja deixando de regular e ter autoridade onde não tem que ter e só atrapalha, seja reduzindo drasticamente a burocracia existente. A pseudo-liberalização realizada em Portugal pelas corporações do ensino, em simbiose corrupta com a burocracia política, foi um embuste total e serviu apenas para iludir os eleitores sobre a necessidade artificialmente construída da persistência do actual imprestável, caríssimo e corrupto sistema de doutrinação e domesticação social. O sistema está falido. Não prosseguirá. E as confusões e atira culpas multiplicar-se-ão numa espiral demagógica cujo único resultado será prejudicar ainda mais o endividamento público do país, e sobretudo a sua competitividade cognitiva, tecnológica e cultural. Desfaçamos os mitos!

OAM 380 25-06-2008, 02:58 (última actualização: 10:21)

2 responses to “Escolarizar

  1. Há outras explicações menos bizantinas e mais socráticas: Degradando a qualidade do ensino público, cria mercado para o privado.Abraços

  2. Caro José,Infelizmente não é assim! O que cria é uma crescente e fatal entropia do sistema, e por via desta, do próprio regime político. Temos que ir, quanto antes, à origem e à causa das coisas.

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