Portugal 35

Portugal, a Europa, a CPLP e o porta-aviões açoriano

Ocorra o que ocorrer, teremos que nos acomodar ao New Chinese Century

Há dois factos que não me saem da cabeça: um são os mapas de acessos a este blogue, invariavelmente distribuídos, ao longo dos últimos quatro anos, entre Portugal e o Brasil, verificando-se uma ainda fraca sensibilidade das antigas colónias portuguesas africanas a qualquer referência aqui feita; o outro é a facilidade com que ucranianos, russos e moldavos aprendem a língua portuguesa, ao ponto de em dois ou três anos falarem o nosso idioma melhor que muitos de nós e sem pronúncias estranhas, uma proeza difícil de alcançar pelos vizinhos espanhóis! Mas o facto de o Sitemeter raramente assinalar acessos de Espanha ao António Maria, ou então registar quotas na ordem dos 1%-2%, em grande medida da responsabilidade da minha filha, que vive em Madrid, deixa-me estarrecido!

Estes dois factos algo insólitos fizeram entretanto faísca depois de ler duas crónicas do Expresso desta semana.

Numa delas, Luísa Meireles chama a atenção para a atracção que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), exerce, não apenas e naturalmente sobre a Galiza, que é hoje uma comunidade autónoma da Espanha (e amanhã, quem sabe, um novo estado europeu independente), mas ainda sobre países que nem sequer falam o idioma de Pessoa: Marrocos, Ilhas Maurício, Guiné Equatorial, Ucrânia e Croácia! Por outro lado, a expansão do português brasileiro na América do Sul é crescente, especialmente no Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia e Venezuela.

Na segunda crónica, assinada pelo pró-Yank Miguel Monjardino, transmite-se um recado: os americanos têm pressa na renovação do Acordo das Lajes, para lá colocar os F-22 Raptor e dar apoio firme à sua nova força de intervenção estratégica na África Ocidental, baptizada de Africom. Africom ou África Dot Com?

Para pressionar um bocadinho mais José Sócrates, o dito açoriano acrítico lá vai sugerindo que o socialista Carlos César, actual governador do arquipélago, também tem pressa e quer oferecer (ilusórias) boas-novas eleitorais em Outubro. Em suma, tudo muito bem engendrado e muito conveniente para todas as partes menos uma: Portugal!

O pensamento europeu mais lúcido defende há muito uma rápida diminuição da dependência estratégica europeia face aos Estados Unidos, e uma maior atenção ao potencial protagonismo da União Europeia como força de interposição estratégica global e veículo democrático de harmonização diplomática à escala mundial. Os Estados Unidos são claramente um império em declínio. E como todos os impérios declinantes, sofre a tentação do disparate bélico sem limites, desconhecendo que tais aventuras apenas apressam o indesejado declive.

Os sucessivos fiascos das guerras, invasões e ocupações do Afeganistão e do Iraque são a este título bem ilustrativos. Bush — sobre quem o congressista democrata Dennis Kucinich desencadeou um processo de cassação de mandato (1) — não ganhou nenhuma das guerras, levou o seu país à falência e está neste preciso momento a recuar atabalhoadamente do Médio Oriente, deixando a imprensa americana que o apoiou sem palavras. No fundo, a decisão vem de baixo, isto é, das empresas privadas a quem o clã Bush e o coiote Cheney encomendaram a guerra, em regime de bloody catering. Estas empresas privadas, que formam o vasto e complexo conglomerado bélico americano, aperceberam-se que o tsunami financeiro em curso se abaterá sobre elas sem piedade se não largarem o osso quanto antes. É o que estão a fazer! Daí as inesperadas e surpreendentes declarações do presidente americano. O maior fiasco americano desde a Guerra do Vietname chegou ao fim. Alguém que pague a factura! Estamos a pagar!!

As vantagens entretanto ganhas por países como a China, a Rússia e o Irão, ao oporem-se à tentativa americana de manter a todo o custo uma supremacia económica apoiada na sua evidente supremacia militar, são mais do que evidentes. O potencial produtivo do Ocidente, sobretudo o americano, emigrou para o Oriente. Depois emigraram o ouro e boa parte da liquidez mundial. Como se isso não bastasse, a China criou em 2001 uma resposta credível (cada vez mais credível) à NATO, chamada Shanghai Cooperation Organization (CSO), da qual fazem parte a China, a Rússia, o Casaquistão, o Quirguistão, o Tajaquistão e o Usbequistão. Entre os países observadores contam-se, o Irão, o Paquistão, a Índia e a Mongólia. E são ainda convidados a Commoenwealth of Independent States (CIS), a Association of Southeast Asian Nations (ASEAN) e o Afeganistão. Ou seja, nada mais nada menos do que a metade oriental do mundo, a que falta tão só aderir o Japão, compreensivelmente receoso dos efeitos que a supremacia estratégica da China terá sobre os seus próprios graus de liberdade.

Os estados petrolíferos do Médio Oriente beneficiam obviamente do crescente e subtil protagonismo do chinês adormecido que agora desperta como obstáculo intransponível para quem, como americanos e ingleses, usufruiu de uma clara hegemonia nos direitos de acesso e exploração do petróleo ao longo de todo o século 20, e aparentemente persiste na ideia de prolongar, apesar de falido, os seus hábitos e arrogância imperiais.

A China e a Rússia (que a Europa dominada pelos piratas londrinos tão mal tratou desde a queda do Muro de Berlim) têm hoje dinheiro suficiente para comprar um novo Tratado de Tordesilhas, baseado numa neutralidade mutuamente assegurada aos principais países produtores de petróleo e na determinação dos meridianos que voltarão a dividir o planeta em duas grandes zonas económicas e culturais política e militarmente protegidas.

A alternativa credível a este cenário teria sido uma confrontação militar preventiva com carácter devastador. Foi essa a intuição dos trotskystas degenerados que teorizaram a aventura fracassada do chamado New American Century. O preço a pagar por tamanha ousadia foi o colapso financeiro do Ocidente (e do Japão) a que estamos assistindo incrédulos e assustados.

O previsto ataque israelita ao Irão (que Condoleeza Rice provavelmente meteu na gaveta, a conselho de algum sábio) não mudaria nada, a não ser acelerar vertiginosamente a queda do Império Capitalista do Ocidente. Ocorra o que ocorrer, teremos que nos acomodar ao New Chinese Century.

Nesta circunstância cada vez mais óbvia não faz nenhum sentido continuar a alimentar os sonhos de grandeza da América! Europeus e americanos terão que se acomodar e colaborar na gestão inteligente e humilde do seu “novo” mundo — começando por regressar aos bons hábitos do trabalho, responsabilidade e ética.

Apesar de Barak Obama poder vir a ser o primeiro presidente mestiço dos Estados Unidos da América, a verdade é que as ligações privilegiadas com África tem-nas sobretudo a Europa, e em particular este cantinho à beira-mar plantado chamado Portugal. O Atlântico do nosso imediato futuro não pode ser transformado numa nova presa apetecível dos Estados Unidos. É esta a mensagem que um pequeno país, na sua missão de honest broker, deve transmitir. Não foi isto mesmo que Marrocos ou a Ucrânia entenderam ao ler os astros? O Mare Nostrum Atlântico terá que ser forçosamente um lugar de cooperação e contrapeso à Nova Ásia, onde a América (toda a América!), a Europa, de Lisboa aos Urais (se não até Vladivostoque) e a África, do Mediterrâneo até à Cidade do Cabo, possam estabelecer um lugar de partilha e não mais um teatro de rapina e humilhação. Chega de vampirismo!

É por tudo isto, que Portugal deverá dizer claramente a Washington que é à Europa que compete, em primeira linha, usar o potencial estratégico dos Açores, nomeadamente no enquadramento duma NATO renovada e menos agressiva. Havendo, porém, nove ilhas (todas com aeroporto😉 não faltarão oportunidades para renegociar de forma ponderada a presença americana nas Lajes. Até porque um dia talvez faça sentido convidar o Brasil, Angola e a Rússia a disporem de facilidades logísticas em tão estratégico porta-aviões. Então, quando esse dia chegar, será uma verdadeira lotaria para o governador de turno de tão belo e aprazível arquipélago.

ÚLTIMA HORA

Equador notifica EUA para deixar Base Militar de Manta até Novembro

Quito, 30 Jul (Lusa) – O governo do Equador notificou oficialmente os Estados Unidos de que devem desalojar a Base Militar de Manta até Novembro, revelou terça-feira o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Quito. — MF./Lusa.

Iraque: Primeiro-ministro defende retirada militar norte-americana em 16 meses

Berlim, Sábado, 19 de Julho de 2008 23H58m (RTP/Lusa) – O primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, afirmou a um jornal alemão que apoia o plano do candidato democrata Barack Obama para a retirada militar norte-americana em 16 meses.

“Julgamos que é um calendário acertado para a retirada das tropas de combate norte-americanas do Iraque, sob reserva de algumas mudanças”, afirma Maliki em entrevista ao semanário Der Spiegel, cuja edição estará segunda-feira nas bancas.

As forças norte-americanas deverão deixar o Iraque “tão rápido quanto possível”, acrescentou Maliki

Colômbia adere a Conselho de Defesa Sul-americano

BBC Brasil. 19 de julho, 2008 – 21h34 GMT (18h34 Brasília)

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, disse neste sábado, após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aceita ingressar no Conselho de Defesa Sul-americano.
Uribe disse que suas “dúvidas” foram esclarecidas após o encontro com Lula e um telefonema à presidente chilena, Michele Bachelet, que atualmente preside a União de Nações Sul-americana (Unasul).

Ultimatum de Washington ao Irão

WASHINGTON (Reuters) – Depois das conversas inconclusivas com o Irã, os Estados Unidos disseram no sábado que Teerã terá de escolher entre cooperação ou conflito. Washington acrescentou que as negociações só poderão começar se parte significativa do trabalho nuclear iraniano for suspenso. — UOL, 19-07-2008 17:14


NOTAS
  1. US Congressional Panel Hears Testimony on Case for Bush Impeachment

    25-07-2008. A congressional committee has heard testimony about the case for impeachment of President Bush. VOA’s Dan Robinson reports, while majority Democrats have ruled out formal impeachment efforts, they approved the public hearing to examine limitations on presidential powers and arguments about what constitute impeachable offenses.

    Critics say President Bush and Vice President Cheney should be impeached because of a range of alleged legal and constitutional abuses.

    The list includes administration justifications to Congress and Americans for the war in Iraq, authorization of secret electronic surveillance, approval of harsh interrogation techniques, and defiance of congressional subpoenas. — Voice of America.


OAM 396 19-07-2008 19:27 (última actualização: 30-07-2008 11:53)

9 responses to “Portugal 35

  1. Caro António,Sem saber, este post é um grande argumento a favor da Regionalização. Porquê ?O que você relatou foi uma bem avisada estratégia para a presença de Portugal no mundo. É uma terefa do Estado Central que provavelmente deveria gastar ainda mais recursos nisso. Onde provavelmente a governação Sócrates tem governado melhor na política externa extra-europa, nomeadamente com a retoma do acordo ortográfico, os negócios com a Líbia, Venezuela e Angola. Só falta aproveitar melhor a rede de contactos de 4 milhões de emigrantes. Como referia, se o Estado Central se preocupasse mais com isto e passasse para as Regiões as responsabilidades das infraestruturas, educação e desenvolvimento económico, de certeza que iriam aparecer «upgrades» de linhas do Douro em vez de TGVs, competição entre regiões para ganhar olimpiadas da Matemática, ou QRENs de apoio às PMEs em vez do tráfico de influências habitual. Actualmente, com Lisboa a monopolizar as decisões de desenvolvimento do resto de Portugal, vai perdendo concentração, e você acaba por perceber mais de política externa do que o respectivo ministério…Você sem saber vai-se tornando um grande Regionalista…PS1: Então a «sua» MFLeite vai manter Alcochete (1ª página do Sol de hoje) ?!?! PS2: A Elaine hoje também tem um artigo interessante sobre Rússia/Irão/ASaudita/Eua.Cumprimentos

  2. dúvidas … não dívidas

  3. O palco está montado para o New Chinese Century, tenho ainda dívidas é se a China consegue fazer o “decoupling”, apostando sobretudo numa espécie de Fordismo social, promovendo o consumo interno..Li ontem algo que desconfiava, a crise no Ocidente, por muito grave que seja, e é e será, não terá os efeitos que poderia ter nos anos 70 do século passado porque o abaixamento do consumo traduz-se em despedimentos nos centros produtivos… nas fábricas asiáticas..Se a China conseguir fazer isso será uma boa oportunidade para todos, sobretudo para os operários ocidentais.

  4. Caro José,Você sabe que eu apoio a constituição de algumas novas regiões autónomas, para além da Madeira e Açores: uma Região Norte à volta da cidade do Porto, e a Região de Lisboa e Vale do Tejo, englobando os dois grandes estuários, à volta da capital; e ainda apoio a criação da Região do Algarve. No resto do território defendo menos municípios (menos cidades!) e muito mais poderes e recursos para as freguesias, que serão os verdadeiros nós de resistência às grandes crises energéticas, climáticas e político-institucionais que nos esperam num futuro próximo.Tem razão sobre o Sócrates. Como já escrevi, a nossa política externa está aparentemente bem entregue (“Porreiro pá!”) Se o governo se concentrasse fortemente na política externa, estaria a fazer muito mais pelo país do que perder tempo em debates parlamentares inócuos.Mas a regionalização não pode ser uma dádiva. Tem que ser conquistada! Se o Norte não for capaz de formar um partido regionalista (aspirando a ter pelo menos 15% do eleitorado) não merece a região. Almoços grátis acabaram… Idem para o Algarve. Até as ilhas, se querem mais autonomia, terão que ir pelo mesmo caminho.Mas voltando à nova centralidade atlântica, eu sugiro que o Sócrates nomeie o Jorge Coelho Ministro Plenipotenciário do Oriente, com a missão expressa e urgente de montar uma rede de interesses naquela metade do mundo. O homem tem estofo para isso e já deve falar algum patuá. De caminho rompia-se o principal pilar “socialista” da Bloco Central do Betão… e aí deixaria de haver tanta pressão sobre a “minha amiga” MFL.Quanto ao NAL da Ota em Alcochete, não estou muito preocupado. A menos que a aviação de longo curso se torne de repente na bolha especulativa que sucederá ao arranque falhado dos biocombustíveis, não tem pernas para andar. Seja como for, só haverá NAL se houver fundos soberanos disponíveis. Da China, da Líbia, da Rússia ou de Angola, tanto faz. De contrário, nada feito.Seja como for, a “minha amiga” MFL está com um sério problema: forçou o PS a rodar à esquerda, e isso poderá revelar-se fatal para os seus planos eleitorais. A crise económica favorece a esquerda…

  5. Caro CCZ,Não esteja tão seguro sobre a dimensão moderada da crise em curso. Em Setembro-Outubro veremos a fronha mais assanhada do colapso dos mercados de derivados e da implosão do USD — e daí todos tiraremos conclusões mais seguras. Seja como for, temo bem que seja uma crise de proporções nunca vistas. A menos que os chineses resolvam pagar para ver. Isto é, resolvam propor ao Ocidente um novo Tratado de Tordesilhas, Estados Unidos e Europa vão passar por um muito mau bocado! Se a China aceitar crescer a 6-7% e o Ocidente voltar aos 3-4%, talvez se evite a III Guerra Mundial. De contrário, temo pelo pior. Utopia? Catastrofismo? Veremos.

  6. António,O Norte tem que conquistar o poder é certo. Mas, para toda a sua argumentação de nova exploração do Atlantico ou do mundo lusofono fazer sentido, cabe ao escasso nº de estrategas de Lisboa, onde você está incluído, serem razováveis e facilitarem o processo.Já agora, a nova política esterna nacional foi formatada por Freitas do Amaral, não foi ? Quanto vale de facto a experiência de contactos internacionais para as correctas antecipações do futuro !

  7. externa

  8. Caro José,Se mandasse, poria imediatamente em marcha a formação das regiões metropolitanas de Lisboa e Porto, com estatuto de regiões autónomas, acabando ao mesmo tempo com os inúteis governos civis, meras sobrevivências oportunistas do antigo regime.Estive ontem a beber três imperiais (i.e. finos) junto à Foz do Douro, numa esplanada da Portugália. Que prazer! Nem tudo vai mal neste país. O passeio marítimo em ambas as margens da foz do Douro são um perfeito exemplo de boa aplicação de dinheiros públicos e de emulação política transformada em serviço público. Nunca vi tantos jovens italianos na Invicta! Uma receita tão simples e tão barata: deixar vir até nós as Low Cost! Nada fez mais pelo turismo no nosso país nos últimos dois anos do que a Ryanair e a easyJet. Só precisamos mesmo de despedir os conselhos de administração da TAP, da ANA, da NAER e da CP, substituindo-os por gente jovem, séria, executiva e com sentido de oportunidade, para que tudo isto melhore! Claro que o dromedário-mor do reino e a <>Yes Girl<> que rodopia em bicos de pés à sua volta, também estão a precisar de licenças ilimitadas A malta do Terreiro do Paço não tem má vontade para com o Porto. Anda é sempre muito distraída. O mal pega-se, aliás, à malta do Norte quando assenta o cu em Lisboa;-)

  9. O mal pega-se, aliás, à malta do Norte quando assenta o cu em Lisboa;-)É verdade e tem muita piada !JSilva

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