Angola 2

A caminho da democracia

Trinta e três anos de independência e oito de paz (embora com altíssimas taxas de criminalidade de origem sobretudo social) são dados que nos devem ajudar a pensar no futuro de um imenso país, sub-povoado, praticamente destruído por vinte sete anos de guerra civil, crescendo a uma taxa meteórica de 16% ao ano (ainda que o seu actual PIB não chegue a 40% do PIB português), mas presa inevitável da cobiça universal.

As riquezas naturais de Angola são o petróleo, o gás natural, os diamantes, o ferro, o ouro, o café, o algodão e um imenso território apto a receber no futuro as multinacionais agro-energéticas da era pós-petrolífera. A sua maior desvantagem reside na demografia e nas assimetrias antropológicas. A população é escassa para tamanho território e encontra-se profundamente dividida por linhas étnicas, culturais e sócio-económicas que a qualquer momento poderão voltar a submergir o país em dificuldades extremas.

Angola tem 1600 Km de costa atlântica e cinco bons portos que serão certamente ampliados ao longo deste século, por forma a dar escoamento ao caudal de matérias primas e biocombustíveis líquidos de que o resto do mundo precisa. Diria, portanto, que o maior problema deste jovem país a caminho da democracia, deriva menos do nepotismo e da corrupção de que tanto se fala nas “insuspeitas” democracias europeias, do que da ausência de uma percepção clarividente do futuro, no quadro potencialmente cismático da globalização.

O primeiro pensamento que me ocorre sobre o futuro de Angola é este: como estarão a sua economia e as suas populações daqui a 20-25 anos? Quando o mundo caminhar sobre novas plataformas energéticas, não petrolíferas, qual será a principal exportação de Angola? Estarão os angolanos a prever desde já os efeitos do pico petrolífero no seu país? Qual será o lugar da antiga colónia portuguesa na era pós-carbónica que se aproxima?

O mundo dependerá cada vez mais de energias renováveis baseadas em fórmulas avançadas de utilização do vento, do Sol, das ondas do mar, do Pinhão Manso (Jatropha curcas) e outras plantas não comestíveis, bem como do urânio e do tório que alimentará a próxima geração de reactores nucleares. Boa parte da produção eléctrica na segunda metade deste século terá origem, muito provavelmente, em tecnologias nucleares limpas e seguras.

Que lugar estratégico ocupará assim Angola no renovado contexto produtivo mundial? Quais serão as suas alianças dominantes? Ter-se-à deixado colonizar pela China, ou terá decidido, a determinado ponto da sua trajectória democrática, optar por uma estratégia claramente atlântica, privilegiando as suas ligações históricas ao Brasil, a Portugal e ao Golfo da Guiné? Quanto tempo demorará Angola a perceber que a sua posição é de facto central na definição de uma verdadeira potência lusófona? Norton de Matos havia sonhado, em 1912, com um novo império português com capital no Huambo. O mundo entretanto mudou, mas a geografia humana, felizmente, ainda não.

José Eduardo dos Santos, que não conheço, tem no decurso das eleições dos próximos dias 5 e 6 de Setembro uma oportunidade de ouro para lançar as bases institucionais e culturais da democracia angolana do século 21, peça chave de uma das zonas mais influentes do planeta — o Atlântico –, e condição, não duvide o senhor Presidente, da sobrevivência e estabilidade a prazo do seu imenso país.

A unidade de Angola é um bem insofismável para si própria, para a África e para a prosperidade e segurança atlânticas, de que os povos irmãos de Portugal, Brasil, Guiné, Cabo-Verde e São Tomé e Príncipe (para não falar de Moçambique e até de Timor) saberão tirar o melhor partido, retribuindo pelo lado da cooperação e da solidariedade indefectíveis.

Nas vossas primeiras eleições verdadeiramente democráticas desejo-vos, como se diz por cá, uma boa hora !

OAM 423 20-08-2008 17:08

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