Allgarve

Férias à beira do cimento

Os nove dias de praia e grelhados em Olhos de Água terminaram antes da hora prevista, por causa de um inesperado amanhecer fresco e nevoento (1). O famoso mar do Algarve não esteve tão cálido como seria de esperar. Mas nem por isso houve menos veraneantes, sobretudo do norte do país, ingleses, mais espanhóis do que alguma vez vi por aquelas bandas, eslavos, italianos, alemães e franceses. Alguns milhares de veraneantes que optaram este ano pelo “Allgarve” foram seguramente mais sensíveis à leveza das suas contas bancárias do que aos apelos publicitários da mente brilhante do BES e actual ministro do governo “socialista”, Manuel Pinho. Consequências, em suma, da crise económica e financeira em curso.

A longa e extraordinária falésia entre Olhos de Água e Vila Moura, que há mais de uma década me fascina continua sob uma criminosa pressão urbanística e automóvel. Os distraídos de Olhão, que certamente não ouviram falar do pico petrolífero, nem da água que deixou de chegar a muitos pomares e quintais, assinaram contratos para construir um autódromo e mais não sei quantos campos de golfe.

Sabiam que um campo de golfe com 18 buracos consome em média 5 metros cúbicos de água por dia, i.e. mais de 1800 milhões de litros de água por ano, o suficiente para satisfazer o consumo médio anual de 2000 pessoas? Quantos campos de golfe portugueses são alimentados com águas recicladas ou dessalinizadas? Está na altura de exigir auditorias regulares aos impactes ambientais destrutivos, quer dos desportos motorizados, quer dos campos de golfe que proliferam como coelhos no nosso país. Outro tipo de auditorias necessárias diz respeito ao próprio negócio multinacional especulativo dos campos de golfe, a maioria dos quais acaba na falência e ao colo dos bancos e sócios que foram no conto do vigário.

Ao que parece, há uma crescente presença da indústria turística espanhola no “Algarbe”. Prevejo, pelo andar apressado da carruagem, que los promotores, que em Espanha como cá mandam nos políticos de turno, estejam a ponto de parir um terramoto urbanístico no pouco que resta da costa algarvia ainda livre das barbaridades da dita “construção civil”. Quem deu cabo de toda a costa marítima espanhola, prepara-se agora, ao que parece, para rebentar de vez com o Algarve. Espero que os algarvios acordem a tempo e travem a corja que ameaça exportá-los para as degradantes periferias de Lisboa, Setúbal, Huelva e Sevilha. Não tenham dúvidas de que é a sorte que espera os vossos filhos, se não formos capazes de agir a tempo.

O ano passado visitei o horror de Ayamonte, a povoação andaluza vizinha de Vila Real de Santo António. A primeira coisa que vi foram bandos de prostitutas à entrada da povoação. Não me pareciam profissionais sofisticadas, mas antes pobre gente desempregada acudindo em desespero de causa à humilhação. Tinham o mesmo semblante envergonhado que há anos atrás encontrara no Vale do Ave num daqueles anos em que centenas de fábricas fecharam as suas portas. Claro que a “esquerda caviar” do PSOE, que é igual a toda a “esquerda caviar” europeia, i.e. neo-liberal, novo-riquista e aparvalhada, ignora estes pequenos detalhes da civilização e segue alegremente em frente na direcção do precipício social.

O dono de um simpático restaurante algarvio comentava os novos hotéis espanhóis de Olhos de Água: “Eles não compram cá nada! Nadinha mesmo. Até a água trazem de Espanha! É ver os camiões que chegam todas as manhãs ao parque do hotel: leite, pão, água, tomate, fruta, carne… e peixe espanhóis. Tudo espanhol! Uma vergonha. — Vá lá a Espanha montar um restaurante ou um hotel, e veja se o deixam fazer o mesmo. É ó deixas!! Olhe o Marrachinho foi vendido aos franceses e o Ali-Super vai pelo mesmo caminho! Uma tristeza, sabe. Uma tristeza”

As previsões sempre optimistas do futuro turístico do Algarve esbarram numa realidade cada vez mais dura, que os pequenos políticos não querem ver: o declínio económico-social da Europa. O turismo de massas e o bem estar social foram inventados por causa e sobretudo para as classes médias. No entanto, estas estão a desaparecer rapidamente, tanto nos Estados Unidos, como na Europa, enquanto prometem emergir noutros continentes! Os célebres 150 mil postos de trabalho prometidos pelo “socialista” José Sócrates são empregos maioritariamente temporários, precários, socialmente desprotegidos e mal pagos, que vão substituir nas estatísticas do emprego os profissionais produtivos com anos de formação, e os especialistas, por uma nova espécie de estivadores intelectuais mal pagos, descartáveis e mendicantes. Ou seja, um proletariado novo, socialmente inconsciente (veremos por quanto tempo) e sem qualquer rede social ou sindical a segurá-los. Fantástico, não é? O mal formado engenheiro que faz de primeiro ministro ainda tem a lata de inaugurar “call centers”! O Salazar mandava os seus ministros inaugurar chafarizes. Sempre tinha alguma noção das proporções!

As economias ocidentais estão a transformar-se em economias de telefone, casinos financeiros e prostituição sofisticada (de que a classe política é uma sub-espécie em franco renascimento.) Vêm no entanto substituir empregos outrora úteis à sustentabilidade económica, social e ecológica das sociedades, razoavelmente bem pagos, estáveis e socialmente protegidos. Alguém ouviu o Bloco de “Esquerda” desmontar este truque de prestidigitação do Capitalismo decadente, que está a levar os EUA e a Europa à beira do colapso civilizacional? Não não ouviram! É que o Bloco aprendeu a ser um partido “responsável”, rezando agora banalidades de “esquerda” do alto da sua frágil estabilidade parlamentar. Nunca pensaram muito na causa das coisas, mas agora menos. Do que mais gostam é mesmo viajar e exibir a sua ridícula maioridade política. Pobres diabos! Se Manuela Ferreira Leite continuar a dominar a agenda política como fez até agora — investimentos prioritários para o país, questão social urgente e eficiência do Estado, nomeadamente na prevenção e punição do crime individual e organizado –, pondo o necessário ênfase numa visão clara e pro-activa dos interesses nacionais, sem cedências ao Bloco Central do Betão, e manobrando habilmente os poderes fáticos das grandes famílias (Espírito Santo, Mello e Cª), tenho poucas dúvidas de que a esquerda adormecida que actualmente hegemoniza o parlamento (sem deixar herança que se veja), passará à Oposição em 2009.

No Algarve, desliguei-me da Net. Faz parte da terapia. Mas ainda assim fui lendo a nossa indigente imprensa escrita. Ignorava que estava tão mal fornecida de assuntos, de verdadeiros jornalistas e de escritores. Que desgraça! Em tempos fazia a diferença para a desmiolada televisão. Hoje está mil vezes pior que a desmiolada televisão. Santa Net!

Regresso ao trabalho.


NOTAS
  1. Pode ser que a causa deste Verão esquisito esteja na actividade explosiva de alguns vulcões:
    Vulcão Okmok Caldera (Alasca, USA), 12 Julho 2008
    Vulcão Llaima, (Cherqunco, Chile), 10 Julho 2008
    Vulcão Chaiten (Patagónia, Chile), 02 Maio 2008
    Vulcão Soputan, Sulawesi (Indonésia) 6 Junho 2008
    Vulcão Rabaul, Kokopo (Papua Nova Guiné), 13 Abril 2008
    Vulcão Galeras (Colômbia) 18 Janeiro 2008

OAM 424 02-09-2008 00:32

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