Crise Global 30

O colapso da América XI

Europa pode afogar-se nos resgates cada vez mais frequentes de instituições financeiras falidas


Dear Marcy Kaptur, please come to Lisbon!

Manuel Pinho diz que acabou o mundo tal como conhecíamos

30-09-2008 (Diário Económico). “Hoje é o dia que marca o princípio de uma nova era”. Foi assim que o ministro da Economia, Manuel Pinho, reagiu ontem, no encerramento da cerimónia de entrega dos prémios da revista Exame às melhores e maiores empresas nacionais, ao chumbo do “Plano Paulson”, o plano de emergência da administração Bush que previa injectar no sistema financeiro norte-americano 700 mil milhões de dólares.

Para Manuel Pinho, o mundo tal como conhecíamos até agora acabou. “Durante 10 a 15 anos vivemos num mundo de prosperidade assente em quatro motores: num sistema de financiamento eficiente; na inovação; na expansão do comércio, o que trouxe para a nossa área de influência países como a China, Índia ou Rússia; e na energia barata para todos. Pois bem, esse mundo acabou”, disse o ministro, mas alertando que este era um cenário que já se previa.

“Quando os cinco maiores bancos norte-americanos dão 12 mil milhões de dólares em prémios aos seus funcionários isso não é saudável. Quando se exporta mais para a Suiça do que para a China, já se estava a prever o que ia acontecer”, comentou.

Sócrates assegura que famílias portuguesas com poupanças podem estar tranquilas

30.09.2008 – 15h40 Lusa/ Público. O primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou hoje que as famílias portuguesas com poupanças podem estar tranquilas apesar do actual quadro de crise – cuja responsabilidade atribui a Washington – e elogiou a capacidade de resistência das instituições financeiras nacionais.

… Em contraste com as críticas que fez às autoridades de Washington, Sócrates defendeu que “os governos europeus mostraram já uma determinação total para dar confiança aos seus cidadãos”. “As poupanças dos europeus estão garantidas. É por isso essencial que os Estados Unidos aprovem rapidamente uma solução para acabar com uma desconfiança que mina a confiança no sistema financeiro internacional”, reforçou.

No actual quadro de crise, Sócrates advogou que “a Europa já pagou um preço”.
“Há um ano que estamos a pagar esse preço, com restrições no crédito e com o crédito mais caro. É altura para os Estados Unidos intervirem”, acrescentou. Numa mensagem ideológica, o chefe do Governo português sustentou que a presente crise “também demonstrou que o sistema europeu de regulação dá mais garantias” do que “os comportamentos pouco prudentes” dos Estados Unidos.

Ferreira Leite diz que palavras de serenidade de Sócrates vieram tarde

30.09.2008 – 20h37 (Lusa/ Público). A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, lamenta que o primeiro-ministro não tenha vindo mais cedo deixar uma palavra de serenidade perante a crise nos mercados internacionais e criticou declarações de responsáveis do Governo que “diabolizaram” o sistema financeiro.

Em conferência de imprensa, na sede nacional do PSD, em Lisboa, Manuela Ferreira Leite defendeu que “o sistema financeiro é essencial para o progresso económico e não pode ser posto em causa” e que “a primeira prioridade das autoridades deve ser o restaurar da confiança”.

A presidente do PSD disse subscrever, por isso, a ideia transmitida hoje pelo primeiro-ministro de que os portugueses podem estar tranquilos em relação aos seus depósitos bancários. O discurso do primeiro-ministro só “podia ir nesse sentido, só que veio tarde”.

A gesticulação retórica do Governo e da Oposição portugueses, no rescaldo da hecatombe financeira de anteontem em Wall Street, era o mínimo que poderíamos esperar dos zombies que deambulam pelo círculo estreito e gorduroso da gamela orçamental lusitana. Ainda por cima numa altura em que, lá como cá, cheira a eleições. Era o que faltava se nada dissessem! Disseram, como seria de esperar, o previsível. Por um lado, a clique governamental aproveitou para imputar subtilmente as dificuldades dos portugueses aos desvarios “liberais” da América, como se Clinton e os Democratas estivessem isentos de culpa. Há uma mudança de paradigma, balbucia o motorista do BES (Manuel Pinho.) Já demos! — repete socratintas. Do lado da Oposição, Manuela Ferreira Leite, pelos vistos atada às ignorâncias profundas dos sound bytes emitidos pelo spin doctor do Abrupto (Pacheco Pereira), meteu os pés pelas mãos e veio a terreiro defender-se da tentativa governamental de colar as convicções do PSD à praxis desvairada dos piratas de Wall Street e da Casa Branca. Ou seja, caiu na esparrela! Em vez de ler os clássicos da teoria económica (Malthus, Adam Smith, Ricardo, Marx, Polanyi, Keynes, Schumacher, …), ou alguns economistas actuais muito recomendáveis, como Stiglitz ou Ann Pettifor, ou ainda as palavras sábias do senador republicano Ron Paul sobre o declínio da América e a ruína do US dólar, leu infelizmente as prosas intragáveis de João Carlos Espada. Porque não lê Sarkozy, MFL?

Já toda a gente, menos alguns jornalistas e os corretores do PSI20, começou a perceber que a crise americana não é apenas uma crise americana, nem sobretudo se esgota na verborreia ilusória sobre o famigerado Subprime, segundo a qual o colapso do modelo económico-financeiro da Euro-América se teria ficado a dever a uns desgraçados sem dinheiro que se puseram a comprar vivendas com créditos temerários 100% financiados por uma turma de vigaristas sem lei nem ordem.

A ponta do icebergue que irrompeu com a famosa crise do Subprime é isso mesmo: a ponta de um icebergue que ameaça rebentar com o modelo económico parasitário que foi sendo paulatinamente montado nos Estados Unidos e na Europa, ao longo dos últimos 30 anos, e que pode ser resumido assim:

  • deslocalização da produção industrial para o Oriente;
  • terciarização descompensada das economias ocidentais;
  • atomização e precarização dos saberes profissionais;
  • obsolescência programada dos produtos;
  • alienação ideológica das massas através da reificação do consumo;
  • dependência e intensificação energéticas das economias ocidentais;
  • envelhecimento populacional e crises demográficas;
  • destruição das células familiares como unidades de resistência social;
  • deterioração dos termos de troca entre os países ocidentais desenvolvidos e os países produtores de energia e de matérias primas;
  • endividamento estrutural da Euro-América face ao Japão e às economias industriais emergentes;
  • transformação suicida dos processos de endividamento em economias virtuais e veículos de especulação financeira (muito semelhantes aos velhos e ilegais esquemas piramidais de enriquecimento ilícito.)
  • transferência maciça da liquidez soberana dos grandes países consumidores para os grandes países produtores.

O momento que a América e a Europa estão neste momento a atravessar pode ser resumido desta forma: os países ricos, quer dizer, que possuem gigantescas capacidades produtivas instaladas e em operação, ao mesmo tempo que detêm as maiores reservas de ouro e monetárias do planeta, exibindo ainda excedentes comerciais e financeiros, deixaram de querer subsidiar o colapso financeiro da América, e mostram-se aparentemente dispostos a descolar das velhas economias imperiais. Nesta circunstância a Europa não tem outra saída que não seja segurar a moeda americana e nacionalizar, se for preciso, todo o sistema bancário europeu! Nisso estamos, perante o ar aparvalhado dos adeptos fanáticos da “mão invisível” do mercado. Pelo vistos, trata-se de uma mão completamente imprevisível!


Les banques européennes très exposées

30-09-2008 (Courrier International). La presse européenne s’inquiète de voir les banques du Vieux Continent fragilisées à leur tour. Mais le pire n’est pas à venir, si l’on en croit l’économiste italien Mario Deaglio.

… Selon le quotidien britannique, la situation est d’autant plus inquiétante que les banques européennes, très exposées aux actifs “toxiques” liés aux crédits immobiliers américains, possèdent également “des montagnes de créances douteuses liées aux marchés de l’immobilier britannique, espagnol, français, néerlandais, scandinave et est-européen”. Et, pour ne rien arranger, “les marchés européens du crédit [interbancaire] sont pratiquement paralysés”.

“Si les Etats européens ont pu jusqu’à présent éviter que la faillite d’un établissement ne se transforme en risque systémique, les appels en faveur d’un plan de sauvetage concerté se font de plus en plus nombreux”, constate Le Temps. Le quotidien suisse rappelle que Nicolas Sarkozy a réitéré, le 29 septembre, son projet d’un sommet pour la refondation du système financier international.

Esta citação mereceu um comentário muito instrutivo, que me foi enviado na tarde de 30 de Outubro, por uma economista, antiga diplomata e querida amiga canadiana, que reproduzo com a devida vénia:

Este artigo do Courrier International contextualiza bem o problema. Mas o que mais me chama a atenção são as noticias que a seguir destaco, no dia em que o Euro passou de 1,60$ há 3 meses atrás, para 1,40$ à hora que escrevo, sendo a maior queda desde 2001. Creio que esta queda brutal se ficou dever à injecção de 2 mil milhões de YEN pelo Banco do Japão, mas também aos apelos da Comissão Europeia, e de Angela Merkl, para que os Estados Unidos assumam um “global stewardship in the economic crisis”.

Quem pede a outro que assuma um “global stewardship”, está a admitir que não pode fazê-lo. Dá que pensar, não dá?

No entanto, a imprensa portuguesa preferiu destacar o seguinte:

A Comissão Europeia lamentou hoje que o Congresso norte-americano tenha rejeitado o plano de resgate financeiro proposto pela Administração Bush, atribuindo aos EUA parte da responsabilidade pela crise financeira mundial. (Público)

Os espanhóis do El País sempre são mais realistas:

Segundo a edição online do diário espanhol “El País”, Bruxelas pede aos norte-americanos para assumirem as suas responsabilidades porque a Europa “está a fazer que lhe toca”.

Comparar os destaques e comentários do Público e do El País a este respeito é muito engraçado. Como impagável é saber o que disse Sócrates (segundo o Jornal de Negócios de hoje):

“Quero tranquilizar os portugueses quanto às suas poupanças. O sistema financeiro português tem mostrado boa resistência e boa saúde, mas isso não dispensa que os EUA façam o que têm que fazer para resolver um problema que eles próprios criaram. Não fazer nada não é solução”, afirmou o primeiro-ministro.

Ainda sobre as operações de salvamento dos bancos europeus, em curso há vários meses, e que se vêm acumulando rapidamente nos últimos dias, com punções brutais nas disponibilidades financeiras dos principais bancos centrais europeus e do BCE, preocupa-me o que possa vir a suceder à banca helvética. Começam a surgir no ar receios sobre o futuro de bancos como o UBS. Enquanto os bancos da União Europeia são salvos por consórcios de Reservas nacionais e/ou de Bancos Centrais da União, pergunta-se o que acontecerá a um banco europeu em quebra situado fora da “rede” de protecção da União?!

Finalmente, para mim, o mais grave de tudo, no que se refere à sorte imediata da Europa, é o congelamento total do crédito Inter-bancário. O comportamento neurótico da banca faz-me lembrar aquela história dos esquilos obcecados com as suas bolotas, não as trocando com nenhum outro da mesma espécie: “squirrels hoarding their acorns, and not wanting to loan to one another”. Eu nunca vi as taxas Euribor assim!

01 Semana 4,8390%
01 Mês 5,0500%
03 Meses 5,2770%
06 Meses 5,3770%
12 Meses 5,4950%

Esbateu-se quase totalmente a diferença entre Euribor a 1 mês e Euribor 1 ano!

Isto indica INCERTEZA E VOLATILIDADE total. A esta incerteza soma-se a queda do Euro — que cai tão fortemente agora porque já se sabe que o BCE vai enfim baixar em breve a taxa de juro de referência (para os 4% ou 3,75%) –, bem como uma taxa Euribor perto de 6%. Isto é muito grave! Não é Estagflação, é depressão pura e dura, como não conhecemos nunca durante as nossas vidas. Só alguns dos nossos avós passaram por coisa semelhante. Refiro-me aos que viviam na cidade, pois no campo safaram-se bem, como dizia o meu avô materno. — CMT


OAM 449 01-10-2008 02:04

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