Portugal 48

A cenoura e o pau do Bloco Central

Ou muito me engano, ou a falência do BPN é apenas o começo do fim da banca privada portuguesa tal como existiu e se aventurou até agora pelo submundo da economia virtual e da especulação. Os governantes já provaram que mentem sempre, e objectivamente protegem os corruptos! Que prevê a Constituição nestes casos?

Sabiam, por exemplo, que o BCP, no final do primeiro semestre de 2007, no balanço consolidado das suas contas registava 526,8 milhões de euros na rubrica “depósitos de bancos centrais”, e que este valor subiu para 1.564 milhões de euros no primeiro semestre deste ano? Ou seja, alguém nos disse – nomeadamente o imbecil do BdP – que o BCP não consegue financiar-se no mercado interbancário vai para dois anos pelo menos?! E sabiam que o Banco de Portugal (BdP), gerido pelo dito imbecil, sem dizer nada à Assembleia da República, tem vindo a ceder liquidez à banca privada, passando de 234 milhões de euros em 2007, para 2.516 milhões de euros até Junho deste ano? O antigo ministro Bagão Félix — que muito aprecio, apesar das suas opções partidárias, que obviamente não partilho — sugeriu ontem na SIC que o senhor Vítor Constâncio devia demitir-se. Eu sugiro que o metam na cadeia — por destruição subreptícia do erário público! Sempre quero saber o que é feito do ouro português a estas alturas do campeonato. Ainda existe alguma onça efectivamente nossa em Fort Knox, ou já foi todo comprometido em gold swaps, por conta do financiamento da balança de transacções correntes, e sobretudo por conta da nossa imparável dívida externa? Claro que o demagogo Doutor Louçã não tinha ainda reparado neste detalhe. Para ele tudo se resolve com a redução a zero da poupança nacional e a venda internacionalista do país a terceiros. Coitado do Trotsky!

A hidra dos Derivados gerou um incontrolável buraco negro financeiro na economia mundial. Por mais liquidez que se lhe deite por cima, esta esfuma-se num ápice, pela simples razão de que há um intransponível fosso entre as dívidas da economia real e o monstro da dívida virtual. Esta gera sem parar responsabilidades inadiáveis à economia real, que a economia real jamais conseguirá satisfazer até ao fim, ainda que se suicide. Só há uma saída: fazer o reset do sistema!

Resta saber quem dará o primeiro passo e as consequências do mesmo. Barak Obama, se for eleito, talvez seja forçado a fazer duas coisas: substituir o dólar actual por uma nova moeda (o novo dólar, ou o famigerado Amero), e reformar radicalmente as regras da Organização Mundial de Comércio por forma a introduzir um sistema ponderado de pautas aduaneiras à escala global, dividindo o planeta em duas grandes metades: a Ocidental, euro-americana, e a Oriental, indo-asiática. No fundo, como a actual crise é uma crise sistémica, a única saída para a mesma, se exceptuarmos uma III Guerra Mundial, é a recriação do Tratado de Tordesilhas, acompanhada da reinstauração de uma medida de valor de troca universal fortemente ancorado na materialidade monetária e no valor do trabalho. A economia do crescimento contínuo acabou, por razões energéticas, demográficas, de recursos e ambientais. E a prova disto mesmo é que a dita economia se deixou transformar, ao longo das últimas décadas, numa economia assente na expansão suicida do endividamento, de cuja irracionalidade viria a resultar o presente colapso financeiro e económico mundial. Os sinais irrompem diariamente como evidências cada vez mais aflitivas.


Camilo Lourenço: “Que sirva de lição”

Era um desastre à espera de ocorrer… a falência do BPN. Mas antes de analisar as consequências, nomeadamente quanto ao que o contribuinte português vai pagar pelo “bail-out”, vale a pena falar da “ausência” de várias instituições (para ver se se aprende alguma coisa com o que aconteceu).

Desde logo o Banco de Portugal, cuja supervisão anda a apanhar bonés, como já se tinha visto no caso BCP: o BPN confirma que o banco central tem na supervisão bancária o elo mais fraco (o que é preocupante, porque é a única área onde o banco mantém totais poderes). Desde logo, também, o jornalismo. Há sete anos que se sabia das irregularidades (algumas dão direito a cadeia) no BPN. No entanto, poucos meios de comunicação tocaram na ferida. Apesar das reservas dos auditores às contas do banco.

Em Março de 2001, a “Exame”, que na altura dirigia, arriscou. Oliveira e Costa, sobre quem impende a maior parte das dúvidas de comportamento ilícito, não perdoou: levei um processo de alguns milhares de euros (que se resolveu com a minha saída da revista e um pedido de desculpas à instituição). O que menos me interessa é regozijar-me por saber que, sete anos depois, a revista (cujos profissionais de então quero elogiar) está vingada… mas fazer votos para que quem dirige grupos de comunicação confie mais nos jornalistas. Porque a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima. Pode demorar, mas vem.


Commerzbank, segundo maior banco privado alemão, pede 8 mil milhões emprestados e um aval estatal de 15 mil milhões

03-11-2008 (TSF). O segundo maior banco privado alemão vai solicitar ao governo do país um empréstimo de 8,2 mil milhões de euros. Os maus resultados do banco Commerzbank no terceiro trimestre de 2008 estiveram na base da decisão.

O banco alemão Commerzbank vai pedir um empréstimo de mais de 8 mil milhões de euros ao governo do país, devido aos maus resultados que a instituição obteve no terceiro trimestre de 2008, com perdas de 285 milhões de euros.

Além do empréstimo a incluir directamente no capital do banco, que subirá assim para 11,2 por cento, será ainda solicitado um aval de 15 mil milhões de euros para negócios interbancários, adiantou esta segunda-feira a administração do Commerzbanz, em comunicado.


BMW suspende produção e manda 40 mil trabalhadores para casa

03-11-2008 (Efe/ Folha Online) O fabricante alemão de automóveis BMW suspendeu sua produção para toda esta semana e enviou 40 mil funcionários para casa diante da fraca demanda de veículos em todos os mercados.

Um porta-voz da BMW anunciou que desde hoje e até sexta-feira não funcionarão as linhas de produção nas fábricas alemãs de Munique, Regensburg e Dingolfing.

Após suspender na semana passada a produção em sua fábrica de Leipzig durante quatro dias e um dia a de Berlim, a BMW calcula que sua produção será cortada este ano em cerca de 25.000 automóveis.

Em setembro o fabricante já registrou um retrocesso em suas vendas de 14,6%, para 121 mil.

Como a crise financeira precipitou o colapso da indústria automóvel dos Estados Unidos, por Luis Rego (em Detroit)

03-11-2008 (Diário Económico). “Quando vim para aqui trabalhar disseram-me que o futuro desta indústria era tão radioso que precisávamos de andar de óculos escuros. Os todo-o-terreno eram o novo sonho americano. Agora, como isto está, não sei se tenho emprego no Natal”. Gary, 42 anos, é um engenheiro da Chrysler em Warren (nordeste de Detroit), uma das unidades de produção a abater no quadro das actuais negociações de fusão com a General Motors. Duas empresas que simbolizavam a vanguarda industrial americana lutam agora para evitar a falência. Mas o desemprego é apenas um dos ingredientes de um cocktail explosivo de tragédias económicas que se está a abater em Michigan, o Estado que conduz os piores indicadores de recessão nos EUA.


Eurozone is on verge of recession

3-11-2008, 11:48 (BBC). The eurozone is on the brink of recession with economic growth falling 0.2% in the second quarter, the European Commission has announced. A Commission statement warned: “In 2009, the EU economy is expected to grind to a standstill.” The slowdown will mark the eurozone’s first recession since the currency’s inception in 1999.

Fundos soberanos árabes compram 1/3 do Barclays

02-11-2008 (RGE monitor). Talks of Sidelined sovereign wealth aside ….the amassed savings of the Gulf have re-emerged as a major capital source for some European banks – if not U.S. ones (For more details check out RGE accounting of SWF capital investment in financial institutions over the last year). Barclays turned to Qatar – Qatar holding, a subsidiary of the Qatar Investment Authority and an investment vehicle of Qatar’s Sheikh Hamad, will collectively almost double the stake the two investors accrued early this summer to almost 15.5%. And Sheikh Mansour of Abu Dhabi will take a 16% stake – in a personal capacity.

Em duzentas e três economias consideradas no World Factbook da CIA, Portugal tinha, em 2007, a 20ª maior dívida externa do mundo (200% do nosso PIB!), acima, em valor absoluto, de países como a China, a Rússia, o Brasil, a Argentina ou os Emiratos Árabes Unidos. Acresce ainda que a dívida pública, i.e. a dívida do Estado (juros incluídos) já chegou aos 64% do PIB, enquanto a balança de transacções correntes é também deficitária em cerca de 10% do Produto Interno Bruto. Ou seja, no momento em que ocorre o maior eclipse de liquidez monetária de que há memória, anunciando em todo o seu dramatismo o início de um colapso financeiro e uma depressão prolongada nas principais economias ocidentais, a banca portuguesa está virtualmente falida e sem credibilidade suficiente para contrair os vultuosos empréstimos de que necessita para sobreviver e ajudar a financiar o pântano deficitário em que todos nos estamos afundando — públicos e privados. Pior não podia ser!

O Conselho de Ministros extraordinário, realizado este Domingo (para não assustar a Bolsa, e para evitar uma corrida aos bancos), teve um e um único objectivo: anunciar que o Estado irá contrair uma dívida extraordinária, ainda por inscrever no Orçamento de Estado de 2009, de 6.450 milhões de euros. 2.450 milhões para pagar dívidas a fornecedores (a cenoura); mais 4000 milhões, cujo objectivo é adquirir acções preferenciais (1) em troca de empréstimos que as entidades bancárias venham hipoteticamente a contrair junto dos cofres do Estado (o pau). Tal como no caso do Fundo de Garantia que avalizará empréstimos bancários até ao montante global de 20 mil milhões de euros, a actual decisão governamental, por configurar apenas intenções e actos hipotéticos, não será inscrita na coluna das despesas do Orçamento de Estado 2009. E no entanto, o que parece cada vez mais provável, é os contribuintes virem a ser sobrecarregados com uma despesa não orçamentada de 26.450 milhões de euros — qualquer coisa como 15% do PIB, ou seja, cinco vezes mais do que o limite de 3% acordado no Pacto de Estabilidade e Crescimento! Alguém duvida da necessidade de um orçamento rectificativo a meio de 2009, ou então de um descalabro certo em 2010? Alguém duvida, pensando no resto da Euro zona, da provável morte do referido pacto? E se assim for, poderá ou quererá algum Estado evitar a emergência de um efectivo governo económico europeu e o reforço dos poderes executivos da Comissão e do Parlamento de Estrasburgo? Ou isto ou o fim trágico da Europa!

O Governo, o Banco de Portugal, os bancos e a imprensa não têm feito outra coisa que não seja mentir aos portugueses ao longo de toda esta crise. Não havia crise na América, tão só uma constipação; depois de o Subprime mostrar os dentes, disse-se que não chegaria à Europa; com o escândalo do BCP em pleno, proclamou-se aos quatro ventos que Portugal estava livre do lixo financeiro e que tinha um sistema bancário muito sólido; o BPN, não senhor, não estava à beira da falência (matem-se os rumoristas clamou o ministro que veio da Bolsa); e agora, depois da anunciada nacionalização do BPN, tudo ficará bem e recomenda-se. Se é assim, para que são então os 24 mil milhões de euros que a maioria resolveu destinar em exclusivo à banca instalada em Portugal, depois dos depósitos (que são, para todos os efeitos, empréstimos) já realizados pelo BdP, e que ascendiam em Junho deste ano a 2.516 milhões de euros?! Quando será que os manipuladores profissionais acordam para a realidade e sobretudo para o facto de não sermos todos atrasados mentais?

Há quinze dias atrás, quando já se sabia que o BPN afundava à velocidade dum prego atirado ao mar, o ministro das finanças do meu país veio mentir descaradamente sobre a situação do banco. Foi para evitar o pânico? Foi?! Pois eu acho que prestou um péssimo serviço aos 200 e tal mil clientes do sombrio banco que agora acaba de morrer. Quem sabia o que ia suceder safou-se do naufrágio. Mas que sucederá aos demais clientes atraídos por este banco de piratas cujos donos, soubemos já ao final desta tarde, é uma tal Sociedade Lusa de Negócios, presidida por Rui Machete e contando entre os seus administradores com o famoso Dias Loureiro? O irresponsável bem pago que preside ao Banco de Portugal, por um lado, e a CMVM, por outro, autorizaram a existência e livre operação de um banco (ainda esta manhã filho de pai incógnito), mesmo depois de a revista Exame ter revelado em 2001 (!) que algo iria muito mal no BPN. E agora? Ninguém vai preso?! O cúmulo do desvario foi ler no DN de hoje que a avestruz das Finanças tenciona indemnizar os piratas do BPN, em vez de os meter na cadeia, como devia! Ainda se espantam com o ambiente conspirativo que começa a brotar das casernas.

A crise bancária portuguesa é muito mais séria do que pretendem os seus protagonistas e protectores. Na realidade, estas entidades financeiras e os grupos económicos de que fazem parte, quase todos eles metidos até às orelhas nos mercados de Derivados e na especulação cambial, estão secos que nem carapaus e precisam desesperadamente de liquidez. Para acederem ao crédito, têm que exibir garantias sólidas de que podem honrar os contratos. A qualidade dos chamados Colaterais que acompanham os contratos de Derivados, os Hedge Funds, os CDS e os PRDC, etc. tornou-se condição sine qua non. Daí o interesse dos bancos nos avales do Estado, nas linhas de crédito que este generosamente anuncia e no ajustamento dos rácios de solvabilidade. As empresas de construção precisam, por outro lado, de substituir rapidamente os seus activos puramente financeiros, que já nada ou pouco valem, por coisas mais credíveis: barragens (sacrificando criminosamente vidas humanas e o capital natural do país), auto-estradas, aeroportos, linhas férreas de Alta Velocidade ou a antecipação caceteira da renovação do contrato de concessão do Cais de Alcântara à Liscont!

Resumindo e concluindo, está em curso a maior e mais escandalosa operação de hipoteca da riqueza nacional em nome da sobrevivência de negócios, tríades e máfias cujo produto mais conhecido é a presente ruína do país e o enriquecimento indevido de umas dezenas ou talvez mesmo centenas de piratas e figurões do Bloco Central.

NOTAS

  1. Acção preferencial – acções preferenciais são uma classe de acções que paga uma taxa pré-definida de dividendos acima do dividendo atribuído às acções ordinárias, e com preferência sobre estas relativamente ao pagamento de dividendos e à liquidação de activos.

    O dividendo preferencial é normalmente cumulativo, o que significa que se por qualquer razão não for pago, deverá ser adicionado ao dividendo do exercício seguinte. As acções preferenciais não conferem, habitualmente, o direito a voto.

    O não pagamento de dividendos durante um número de exercícios pré-estabelecido pode levar ao accionar de cláusulas que convertem as acções preferenciais em acções ordinárias, com todos os direitos destas (nomeadamente, o de voto).

    As acções preferenciais (preference share ou non voting share em inglês), são também conhecidas como papel de víúvas (widow stocks), constituindo uma categoria de acções que conferem direitos especiais ao seu titular, normalmente de carácter patrimonial, tais como o direito de satisfação prioritária a quinhoar nos lucros de exercício da empresa e o direito à quota de liquidação, em detrimento do direito de voto (controlo da sociedade).

    Normalmente não podem ser pagos dividendos às acções ordinárias sem antes terem sido satisfeitos os direitos do accionistas titulares de acções preferenciais.

OAM 469 04-11-2008 01:48 (última actualização: 05-11-2008 00:08)

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