Portugal 53

Os dilemas da crise

As Jim Rohm observed, “Failure is not a single, cataclysmic event. You don’t fail overnight. Instead, failure is a few errors in judgement, repeated every day.”

The crisis in debt markets has been rolling since the sub-prime collapse of August 2007. The increasing illiquidity of commercial paper, trade credit, municipal finance and other debt markets was foreseeable and inevitable. And yet the central banks and treasury authorities of the Western nations have done nothing to shield these essential sectors from the ill effects of the financial sector implosion while giving virtually unlimited funds to the banks authoring the collapse. — in What We Value Is What We Save In a Crisis, 28-11-2008, by London Banker.

“The IEA report […] warns strongly of the unsustainability of current global energy consumption trends, declaring that business as usual would take the world to a 6 degree Celsius rise in temperature – which would almost certainly mean the extinction of our species.” — in The Oil Depletion Analysis Centre (ODAC) Newsletter – 14 November 2008, Guest Commentary by Dr. Richard Miller.

Com os juros e os preços das matérias primas em queda, parece irrecusável a boleia de liquidez prometida por Bruxelas, bem como a sua maior tolerância face ao Pacto de Estabilidade. Resta saber se os milhares de milhões de euros anunciados vão servir a economia real, ou se, pelo contrário, estão destinados apenas a tapar o buraco negro criado pela especulação financeira mundial ao longo dos últimos 20 anos.

Os portugueses já carregam aos ombros uma descomunal dívida pública, externa e orçamental. E pior do que isso, suportam uma classe política indolente, irresponsável e atacada pelo destrutivo bicho da corrupção sistémica. Tenho pois as maiores dúvidas sobre o acerto das medidas erráticas que serão adoptadas ao sabor dos pregões eleitorais e do reality show televisivo.

E no entanto, não poderíamos estar numa encruzilhada mais decisiva para o futuro do país.

Se não atacarmos a actual crise financeira e económica rapidamente, poderemos acabar por ficar sem recursos, sem economia e sem ânimo para ajudar a travar as alterações climáticas e a ruptura ecológica do planeta que actualmente ameaçam a espécie humana, entre outras. Se, por outro lado, os políticos continuarem atrelados ao modelo demagógico do rotativismo democrático e, pressionados pela ameaça de uma estagnação prolongada, decidirem abandonar a agenda da sustentabilidade, estão a humanidade dificilmente escapará ao colapso previsto pelo modelo matemático do célebre Relatório de Roma (1972), Limits to Growth.

O debate orçamental na Assembleia da República traduziu, uma vez mais, o vazio intelectual e político do actual sistema de poder. Aluados pelos jogos eleitorais que se aproximam, governantes e deputados já só “trabalham” para as eleições. A discussão sobre os equilíbrios a estabelecer entre a salvação do sistema financeiro e a economia real, foi substituída pela costumeira retórica parlamentar, entre risadas parvas e tiradas pueris.

Vale a pena comparar este vazio de ideias e ausência de vontade com as respostas de Hong-Kong e da República Popular da China à mesmíssima crise económico-financeira. O elenco de medidas aprovadas (que vale a pena consultar nos documentos a seguir mencionados) dão bem a ideia da crescente vantagem competitiva da China relativamente à indecisa Europa.

  • WINSTON & STRAWN Global Financial Markets Spotlight – Hong Kong
    Summary of Measures Implemented by the Hong Kong Special Adm(as of November 19, 2008) — PDF.
  • WINSTON & STRAWN Global Financial Markets Spotlight – People’s Republic of China
    Summary of Measures Implemented by the PRC Government (as of November 21, 2008) — PDF.

Como escrevi no post anterior, é preciso definir um novo quadro de prioridades. O alinhamento que proponho é este:

  • regular drástica e imediatamente os mercados financeiros;
  • dar prioridade absoluta à eficiência e produtividade energéticas;
  • restabelecer a prevalência do capital natural sobre o capital resultante da exploração;
  • reinventar os paradigmas de crescimento;
  • criar emprego produtivo.

Indo ao pormenor das linhas de acção imediata, creio que deveríamos apostar num mistura sábia de decisões capaz de minorar os impactos preocupantes da depressão anunciada:

  • limitar a atribuição de crédito bancário nas operações financeiras de risco;
  • criar linhas de crédito especiais para apoio às PMEs, sobretudo no sector da exportação;
  • implementar um plano de conservação e modernização de infraestruturas locais;
  • fazer uma selecção criteriosa dos grandes projectos de obras públicas, tendo em conta a sua utilidade estratégica, o custo-benefício dos mesmos e a respectiva sustentabilidade financeira;
  • assumir a Zona Económica Exclusiva como uma prioridade estratégica e redefinir com carácter de urgência todo o sector marítimo da nossa economia (portos, indústria naval, transportes marítimos, pescas, aquicultura, energias sustentáveis e exploração das plataformas continental e insulares);
  • apostar de forma mais ampla, descentralizada e atempada, na eficiência e produtividade energéticas, gerando a partir desta linha de acção uma fileira inteiramente nova de actividades económicas, investigação e desenvolvimento, e emprego especializado;
  • desenvolver um programa de cidades ecológicas, a implementar, numa primeira fase, em todas as 18 capitais de distrito;
  • proceder a uma reforma educativa radical, tendo em vista adaptar a sociedade portuguesa à mutação do paradigma energético, às alterações climáticas, a uma nova sustentabilidade económico-social, e à necessidade de fazer renascer as actividades económicas produtivas e participadas
  • apostar num Serviço Nacional de Saúde gratuito e universal, gerido com critérios de economia, transparência e demonstração de resultados.

O tempo de desastre corre contra nós (1). Não podemos esperar eternamente pelos políticos. Continuaremos a fazer avisos à navegação. Continuaremos a clamar contra a sua indolência e irresponsabilidade. Mas teremos também que nos ir preparando para instaurar novas formas de democracia (de democracia em rede), no caso de a democracia formal que hoje temos colapsar perante a descoberta inesperada da sua própria falência económica e moral.

NOTAS

  1. On Friday November 21, the world came within a hair’s breadth of the most colossal financial collapse in history according to bankers on the inside of events with whom we have contact. The trigger was the bank which only two years ago was America’s largest, Citigroup. The size of the US Government de facto nationalization of the $2 trillion banking institution is an indication of shocks yet to come in other major US and perhaps European banks thought to be ‘too big to fail.’

    The 2009 year will be one of titanic shocks and changes to the global order of a scale perhaps not experienced in the past five centuries. This is why we should speak of the end of the American Century and its Dollar System. — in Colossal Financial Collapse: The Truth behind the Citigroup Bank “Nationalization”, by F. William Engdahl (Global Research).

OAM 483 01-12-2008 00:55

One response to “Portugal 53

  1. Não podemos estar à espera da democracia formal, quando visivelmente nos parece injusta e quando há dados técnicos, filosóficos, éticos que falharam nas propostas dos políticos, que nós ajudamos a eleger.

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