Portugal 54

BPP: quem levou o Governo a mudar de opinião?

Há aqui qualquer coisa que não bate certo!

A primeira opinião de Teixeira dos Santos e a primeira opinião de Victor Constâncio sobre o risco de deixar falir a gestora de fortunas e especuladora financeira BPP confluíram para a tese de que não viria daí mal ao mundo, nem sobretudo nenhum risco sistémico para a “saudável” banca portuguesa. O pedido de 750 milhões de euros difundidos pelo Banco Privado seria, por causa desta confluência, liminarmente recusado. E no entanto, bastou uma reunião de emergência dos principais accionistas do BPP —onde pontificaram nomes como os de Francisco Pinto Balsemão (presidente do Conselho Consultivo), João Vaz Guedes (vice presidente do Conselho Consultivo), Stefano Saviotti (vice presidente), José Miguel Júdice (presidente da Assembleia Geral), entre outros— para que Governo e Banco de Portugal dessem o dito por não dito, lançando-se numa corrida aventureira e ilegal para salvar o mais notório exemplar de shadow banking (1) à portuguesa. Que se terá passado? Que terão ouvido os “socialistas” que tanto os assustou?

Os nossos obscuros economistas e analistas de serviço, mais a generalidade dos telejornais, vêm proclamando desde o Verão de 2007 que a banca portuguesa não só é uma das mais modernas do mundo, como teria colocado todos os preservativos para evitar o fatal Subprime e Derivados tóxicos semelhantes. Começamos a saber agora que não era verdade. A banca portuguesa está falida, como tenho vindo a alertar há mais de um ano. O desastre começou no Millennium BCP, continuou pelo BPN e acaba de estilhaçar a especialista lusitana em Derivados — a muito chic gestora de fortunas, João Rendeiro e C.ª. O problema é que a coisa não vai ficar por aqui!

Pensem apenas nestes números:

  1. Operação de salvamento do Banco Privado: 450 M€
    • Caixa Geral de Depósitos: 120 M€
    • Millennium BCP: 120 M€
    • BES: 80 M€
    • Banco Santander-Totta: 60M€
    • BPI: 50M€
    • Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo: 20 M€
  2. Avales da República ao sector financeiro (estimativas avançadas pelos OCS):
    • CGD: 2000 M€
    • BES: 1500 M€
    • BCP: 1000 a 5000 M€
    • BPI: 2000 M€
    • Santander-Totta: ?

Ou muito me engano, ou os mosqueteiros que decidiram subitamente salvar o BPP encontraram uma boa cobertura (e certamente um grande empurrão!) para recorrer rapidamente ao aval previsto no Orçamento de Estado. Fazem figura de banqueiros bons, quando na realidade estão a matar dois coelhos com uma cajadada: emprestam ao BPP para que este lhes pague os créditos actualmente mal parados e, sem que ninguém repare, obtêm uma autorização da República para se endividarem à grande, em troca de activos contaminados cujo valor não pára de decrescer. Teria sido uma jogada de mestre se todos se calassem (algo cada vez mais difícil no estado em que estamos). As denúncias de Francisco Louçã (BE) e de Paulo Rangel (PSD) prenunciam, pelo contrário, dias difíceis para o pior ministro europeu das finanças, bem como para os reguladores virtuais e cada vez mais nervosos do sector financeiro português. Ao que parece, até o Procurador-Geral da República anda com tonturas!

Mas volto à pergunta inicial: o que é que eles (os governantes) viram, ouviram e souberam da boca, por exemplo, do dono da Impresa, que lhes tirasse o sono, forçando-os a dar o dito por não dito e a lançar-se numa operação de resgate ruinosa e endossada à carteira vazia do contribuinte?

Eu só consigo imaginar uma hipótese: a da existência de muitos milhões de euros oriundos da Caixa Geral de Depósitos e do Fundo de Pensões da Segurança Social entalados na panóplia de produtos financeiros especulativos viabilizados através do BPP, do BCP, do BPN e do BES, entre outros. Se, como é previsível, Pinto Balsemão foi informado sobre coisas parecidas com as que eu estou a supor, podemos adivinhar o seu imenso poder negocial nas difíceis circunstâncias que certamente correm contra a sobrevivência do Banco Privado.

O grupo Impresa, como a generalidade das empresas de comunicação e média, ou estão mal e vão piorar, ou estão assim assim e vão entrar em grandes dificuldades nos próximos dois anos. Não são só as transportadoras aéreas que se vão fundir. É bem provável que a TVI engula um dia destes a SIC! Mas antes que isto aconteça, é mais do que natural e humano que o fundador do Expresso não desista e use de todo o seu poder de destruição mediática para segurar o seu grande sonho.

O Sócrates do PSD (Pedro Passos Coelho) transmitiu recentemente (à TSF) um preocupante recado dos bonecreiros que o animam (Ângelo Correia, Miguel Relvas, etc.): os 20 mil milhões prometidos pela maioria PS não chegam; precisam-se, pelo menos, 30 mil milhões de euros!

O buraco negro dos Derivados não se contenta com os bancos e as gestoras de fortunas. Enquanto mastiga estas iguarias, o seu magnete destruidor começará em breve a sugar gabinetes de consultoria e o resto da economia real. Os ingleses, por exemplo (2), continuam a pagar dívidas da Primeira Guerra Mundial. Portugal não terá a mesma sorte macabra, pela simples razão de que não tem força nem alianças para tal.

E assim sendo, a única coisa decente a fazer é exigir o rápido esclarecimento sobre o efectivo grau de contaminação das nossas finanças, da nossa economia, e das poupanças de cada um, pelo endividamento em cascata resultante das apostas no maior esquema Ponzi de sempre. O saudável e moderníssimo sistema financeiro português deve-nos explicações.

NOTAS

  1. Beware our shadow banking system
    We have a secret banking system built on derivatives and untouched by regulation, says Pimco’s Bill Gross. Here’s how to protect your pocketbook.
    By Bill Gross, founder and chief investment officer of Pimco
    November 28 2007: 10:58 AM EST (CNN Money)

    (Fortune Magazine) — The tangled web of subprimes has claimed more than its share of victims in recent months: homeowners by the hundreds of thousands, to be sure, but also those who created, packaged, insured, distributed, and ultimately bought what should have been labeled “junk mortgages” but which by a masterstroke of marketing genius received a more respectable imprimatur.

    “Skim milk masquerades as cream,” warned Gilbert and Sullivan over a century ago, and sure enough, today’s subprimes, packaged into financial conduits with monikers such as SIVs and CDOs, pretended to be AAA-rated cubes of butter.

    Financial institutions fell for the ruse, and now we all suffer the consequences. Defaults are rising, the dollar’s sinking, and — good Lord! — even Google’s (Charts, Fortune 500) stock price is going down. Something must really be wrong.

  2. Hedge Fund Manager Hendry Bets on Deflation With U.K. War Loans

    By Tom Cahill

    Dec. 1 (Bloomberg) — Hugh Hendry, who oversees about $500 million as co-founder of Eclectica Asset Management in London, said he’s buying World War I debt on the bet the U.K. is due for its worst round of deflation since the Great Depression.

    The gilts, known as perpetuals because they have no maturity date, have a coupon of 3.5 percent compared with the U.K.’s 4.5 percent inflation rate. Investors hold about 1.9 billion pounds ($2.9 billion) of the securities that still pay interest 90 years after the end of the Great War, according to the U.K.’s Debt Management Office.

    “If you have a deflationary shock, the only instrument that will perform will be government debt,” said Hendry, 39, whose Eclectica Fund returned 38 percent this year, putting it in the top 1 percent of 1,817 funds tracked by Bloomberg. “Inflation is going to be back some day. But forget the next 12 years; it’s the next 12 months that matter.”

OAM 485 03-12-2008 02:24 (última actualização: 20:30)

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