Crise Global 51

A morte da classe média

Os dados sobre a conjuntura económica europeia conhecidos hoje indicam a maior queda na actividade industrial europeia desde que o índice mensal da Markit Economics —Eurozone Manufacturing PMI— começou a ser elaborado, há onze anos. Ao longo de 2008 a quebra produtiva acumulada no sector industrial foi, segundo o economista chefe da Markit, Chris Williamson, de 12%! Duas consequências imediatas da revelação deste relatório de conjuntura: o Euro perdeu terreno relativamente ao USD e avizinha-se para muito breve uma nova redução na taxa de juro de referência do BCE. O caminho da deflação está traçado, como há mais de um mês aqui se anunciou. O maior perigo desta quebra generalizada dos preços e dos juros é, porém, a sua provável interrupção a prazo, por um surto, que pode ser muito violento, de hiperinflação! Daí a recomendação que venho fazendo há mais de dois anos: livremo-nos das hipotecas e de todos os empréstimos a taxa variável quanto antes! Gastemos apenas segundo as nossas possibilidades.

Quem pensar, a este propósito, que tudo não passa duma crise passageira, que o intrépido papagaio Sócrates irá debelar num qualquer acto de propaganda, deve parar um momento para pensar. O despacho da Lusa de hoje, intitulado Investimentos: Uma década perdida, serve pelo menos para abrir os nossos olhos sobre uma dura realidade: os problemas são mais antigos do que imaginamos e só serão ultrapassados após uma dolorosa metamorfose do paradigma económico dominante, provavelmente na sequência de um reajustamento das placas tectónicas da geo-economia mundial. “Foi praticamente indiferente o activo em que se esteve investindo. Nos últimos 10 anos não se conseguiu ganhar dinheiro”, disse à Lusa a economista-chefe do BPI Cristina Casalinho.

Agora que os nossos economistas e políticos se convenceram de que o nosso maior problema é a gigantesca dívida externa acumulada ao longo da última década, para a qual pouco temos já que penhorar, é porventura o momento adequado para perceber a verdadeira raíz dos problemas que nos afligem, afligem a Europa e poderão levar os Estados Unidos a um estado de pré-guerra civil. Volto a recomendar, a este propósito, a leitura urgente do livro de Ann Pettifor, The Coming World Debt Crisis. Desta leitura perceberemos uma verdade fundamental: praticamente toda a liquidez bancária ocidental advém directa e imediatamente do endividamento pessoal, empresarial e público dos chamados povos ricos e desenvolvidos (e ainda dos desgraçados povos do Terceiro Mundo!) Mas como a acumulação de dívidas acaba de atingir o limiar da sua própria sustentabilidade estrutural, em grande medida como resultado do declínio económico, político-militar e cultural do Ocidente, resta-nos mudar, porventura de forma violenta, boa parte dos paradigmas que têm guiado o declínio objectivo do Capitalismo, bem como as nossas ilusões mais arrogantes.

A conferência de Elisabeth Warren, que recomendo vivamente (assim como a entrevista Conversations with History: Elisabeth Warren e o livro The Two Income Trap), sobre a falência da classe média americana e a divisão da sociedade americana entre uma upper class abastada e uma imensa maioria de gente a caminho da pobreza —the under class—, traça um panorama cruel sobre a história do mais recente fracasso do Capitalismo. Refiro-me à destruição autofágica do principal suporte social da democracia americana e um dos pilares culturais mais sólidos da civilização humana: a sua vasta e empreendedora classe média. No momento que passa há mais famílias americanas a declarar falência do que a divorciar-se! A epidemia não tardará a chegar à Europa e a Portugal, se entretanto não formos capazes de perceber claramente o que verdadeiramente está em causa.

Se formos incapazes de salvar os sistemas públicos de saúde e de educação —para o que precisaremos de realizar uma reforma dura e determinada de toda a administração pública—; se formos incapazes de voltar a impor o primado da política e da cultura sobre as ditaduras financeiras que têm vindo a demolir sistematicamente o Ocidente; se formos incapazes de operar rapidamente uma verdadeira metamorfose dos actuais paradigmas energéticos e de mobilidade; se formos incapazes de reinventar a utopia humana, desta vez sob a forma de uma utopia simbiótica e panteísta universal, então a sorte que nos espera é a de uma lenta agonia civilizacional ensombrada por toda a espécie de padecimentos, perdas insuportáveis, destruição apocalíptica e, para os sobreviventes, uma infinita tristeza.

O que está em jogo é demasiado importante para todos nós, pelo que não podemos dar-nos ao luxo de não prestar a devida atenção ao comportamento irresponsável dos políticos que dançam a actual farsa democrática. É preciso fazer ouvir a nossa voz. É preciso modelá-la adequadamente ao momento grave que passa.


OAM 505 03-01-2009 01:58

5 responses to “Crise Global 51

  1. José,Duas obs.: 1) a sua obsessão com o centralismo alfacinha é legítima e não deixo de apoiá-la, sobretudo se for para gerar um movimento de cidadania regional forte, ou mesmo um partido, que faça o necessário contraponto com o Terreiro do Paço. Mas como já várias vezes escrevi, não devemos culpar os lisboetas pelo centralismo político da capital! Lisboa conta já poucos alfacinhas, que em geral vivem mal. Mas tem, isso sim, muitos imigrados e traidores de província! Separemos pois as águas, entre centralismo da capital e lisboetas (com quem aprendi a viver ao longo de mais de 30 anos).2) quanto ao modelo de bolha especulativa que sucederá ao colapso da especulação imobiliária e dos derivados, há quem diga que vem aí uma nova vaga de tecnologia e conhecimento, e que vão ser tais “imateriais” a atrair a especulação futura. Eu não estou convencido de tanta facilidade. E o principal motivo do meu cepticismo é este: a economia mundial que acaba de estourar repousa numa monumental montanha de dívidas que não sei como poderá ser desfeita!3) os modelos económicos alemão, japonês e chinês/coreano assentam todos numa premissa básica: produzir para exportar. Este modelo acabou por induzir uma selecção natural na economia mundial, pois não era possível que todos os países seguissem o mesmo modelo — baseado na superioridade tecnológica e organizativa, ou na competitividade salarial. Isto é, o mundo dividiu-se entre produtores e consumidores, e entre credores e devedores, numa espécie de simbiose oportunista, onde a morte de um dos parceiros implica o suicídio do outro!! Estamos nisto… E não vou estender mais este comentário, filosofando sobre as alternativas possíveis ao actual dilema. Um abraço.

  2. “É preciso fazer ouvir a nossa voz.”.Concordo, mas como?.Como?!

  3. António, a minha questão é contra as «Máfias» que, como você demonstra http://o-antonio-maria.blogspot.com/2009/01/portugal-68.html, currompem o futuro de Portugal. A única associação a Lisboa é o facto provado de 95% deles viverem na região de Lisboa. Nada tenho contra os demais lisboetas. E nda disto tem a ver com a naturilidade geográfica. Repare por exemplo que Sócrates nasceu no hospital de S.João, no Porto e não é por isso que o apoio.O mundo ocidental está hiper-endividado, mas ao contrário dos recursos naturais finitos, a dívida é um conceito matemático-social, sem restrições físicas. Há possibilidade mais dívida, desde que haja garantias, aneis para vender. Que tal a exploração em regime de PPP da estátua da Liberdade ? Aposto que os chineses alinham… Os EUA ainda tem muitos activos para vender… Há saída para mais dívida desde que se encontrem no bau mais bens da família para vender…Para Portugal, o importante seriam exportar bens e serviços. Conheço um exemplo de serviços de elevado valor acrescentado exportados há anos por empresa lisboeta que como português me deixa orgulhoso: http://www.siscog.pt/ repare só na lista de clientesA terapia correcta é reduzir o peso da dívida, aceitando alegremente um periodo extenso de recessão. Mas aposto que o caminho traçado a ocidente em em Portugal será vender os últimos aneis para se manter o status quo.Abraços

  4. Antonio Maria, como el Cardenal Rouco Varela y como Dom Antonio María Lunardi

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