Portugal 69

Uma esperança no centro-direita?

Carta aberta a António Sampaio e Mello, ex-director do Centro de Estudos do PSD

Estimado Prof.,

Gostei de o ouvir na entrevista conduzida ontem pelo Mário Crespo, um dos jornalistas mais inquietos e importantes do nosso empobrecido panorama jornalístico. Fiquei com dúvidas sobre a sua demissão do gabinete de estudos do PSD. Que se passou? Quando li a notícia do Expresso, pensei: o costume, ou seja, o dito gabinete não teria passado de uma fantasia para inglês ver. Foi isso?

Apesar de não me rever no seu provável liberalismo, subscrevo quase tudo o que disse à SIC-N, com uma possível excepção: a sua preferência pela Alta Velocidade Porto-Lisboa, em vez da ligação Lisboa-Madrid.

Repare: não são alternativas entre si, pois ambas constam do desenho da rede ibérica de AV/VE.

O que há é um problema de prioridade e outro de oportunidade.

Ambos os problemas, porém, favorecem a ligação Lisboa-Madrid, que na realidade, é uma ligação Lisboa-Espanha! A ligação Lisboa-Madrid é muito mais barata e simples de realizar do que a ligação Lisboa-Porto, além de contar com o apoio, nomeadamente económico-financeiro de Madrid. Quanto à oportunidade, talvez valha a pena pensar no impacto que o cumprimento dos prazos da linha Lisboa-Madrid poderá ter na procura turística espanhola dos destinos portugueses, numa conjuntura, porventura duradoura, em que o turismo inglês deverá cair a pique, e o turismo espanhol deverá optar por pacotes menos dispendiosos e arriscados do que o actual turismo intercontinental.

Por outro lado, o aeroporto da Portela seria imediatamente aliviado da pressão exercida pela actual ligação entre as duas capitais ibéricas. Basta ver o que se passou com a ponte aérea Madrid-Barcelona depois de inaugurar o AVE entre as duas principais capitais espanholas: o comboio roubou metade dos passageiros que costumavam tomar o avião, colocando mesmo em crise o actual aeroporto de Barcelona!

Os benefícios resultantes do investimento na ligação Lisboa-Madrid são óbvios: mais turismo, menor pressão sobre a Portela, e a possibilidade (pela qual deveremos apostar) de transportar mercadorias a Velocidade Elevada entre Lisboa e qualquer destino espanhol e/ou europeu.

Uma ligação rápida entre as duas capitais ibéricas faria de Lisboa uma cidade ainda mais atractiva do que já é para a deslocalização de empresas e sucursais espanholas que, ou pagam rendas demasiados altas em cidades como Madrid e Barcelona, ou descortinam na frente marítimo-portuária de Lisboa-Setúbal-Sines (mas também Figueira da Foz, Aveiro, Matosinhos e Viana do Castelo) uma excelente oportunidade para contribuir para o cluster das economias do mar em que nós, como os espanhóis, querem inteligentemente apostar. Por último, mas não menos significativo, é o impulso económico que a ligação ferroviária de AV/VE entre Madrid (Espanha) e a grande cidade-região de Lisboa dará ao futuro porto seco/plataforma logística do Caia, com benefícios óbvios para toda a zona transfronteiriça do Alentejo/Extremadura (espanhola).

As ligações AV/VE entre a Galiza e Portugal, e entre Porto-Aveiro e Salamanca (Espanha) são igualmente da maior relevância. Eu diria mesmo que a prioridade são estas ligações à rede ibérica de AV/VE, e não a caríssima linha AV entre Lisboa e o Porto. Neste percurso o que há a fazer é pôr o Alfa a correr à velocidade para que foi desenhado, mas que a incompetência do Bloco Central (com culpas especiais imputáveis aos Eng. João Cravinho) e a péssima administração política da Refer e da CP, já para não falar da corrupção (1), inviabilizaram até hoje!

Eu sei que o Senhor Zapatero afirmou levianamente que o AVE seria a melhor ferramenta para unificar a Espanha! Mas sabe, caro Professor, há tiros que saem pela culatra de quem os dispara.

Um voto de Ano Novo: não desista das suas ideias. E sobretudo não desista de influenciar o PSD, ou na impossibilidade de o fazer, de contribuir para o surgimento de uma nova força partidária na zona ideológica do desgraçado PPD/PSD.

Bom Ano!

NOTAS

  1. Hoje, 3 de Janeiro de 2009: Denúncia interna na CP contra “comportamentos criminosos”.


OAM 506 03-01-2009 14:35

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