Portugal 97

A esquerda envergonhada

De repente acordaram: o Santana pode mesmo voltar a ganhar o governo da capital!

Petição por uma “convergência de esquerda” para a Câmara de Lisboa

13.04.2009 – 08h30 Lusa/ Público — Personalidades ligadas ao socialismo, ao comunismo e ao BE lançam hoje uma petição a defender uma convergência de esquerda nas eleições autárquicas em Lisboa, já subscrita por cerca de 170 nomes.

A petição “Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa” poderá ser subscrita através da Internet e será entregue aos partidos políticos e movimentos de cidadãos que concorrem às eleições autárquicas.

Eu nutro uma profunda antipatia por Santana Lopes. Mas se ele ganhar Lisboa não fico envergonhado. Envergonhado estou há muito por ter votado no papagaio trapalhão e possivelmente corrupto que actualmente nos governa! Mas pelos vistos, a velha esquerda comunista, socialista, maoista e trotskista, não. O que esta teme é o desastre eleitoral autárquico que se avizinha. Acordou estremunhada para a possibilidade e resolveu tocar a rebate.

Querem, dizem candidamente, derrotar a direita que os envergonha! É a mais confrangedora confissão de fracasso por parte de uma nomenclatura sem préstimo que em 35 anos de serviço pouco mais fez do que coadjuvar a direita, de que diz ter vergonha, no progressivo aprisionamento pardidocrático da democracia, servindo-se do voto popular como se de um maná inesgotável se tratasse. O país vai a pique, mas a única coisa que preocupa Jorge Sampaio e Carlos do Carmo é, pelos vistos, manter o status quo. Alguma ideia nova? Nada. Vontade de decidir? Nem pensar! Então que sentido faz a sua mal amanhada e caricata frente popular autárquica? Nenhum.

Comecemos pelo princípio: António Costa e o Partido Socialista não têm nada que ver com as litanias de esquerda, pois não têm feito nem dito nos últimos quatro anos coisa diversa do reiterar à bruta da praxis neoliberal pregada pela criatura blairiana durante a sua conversão ao legado thatcheriano. Por outro lado, nem o PCP nem os ex-extremistas confederados no Bloco de Esquerda conseguiram até hoje modificar os respectivos códigos genéticos, incompatíveis ambos, como todos sabemos, com a pragmática e o ideal da governação. Ou seja, o PS é um partido plenamente burguês e sem princípios, o PCP é uma gerontocracia síndico-municipal sem liderança, e os bloquistas dificilmente serão mais do que uma turbamulta simpática de funcionários públicos, urbanitas e pequeno-burgueses. Algum político astuto pensaria alguma vez erguer uma frente popular com esta massa informe e contraditória? Só se fosse num jogo a feijões!

Se os inspiradores deste fogo fátuo tinham alguma esperança, desiludam-se. Não vai funcionar em Lisboa, não vai funcionar no Porto e não vai funcionar em São Bento. Este ciclo constitucional chegou irremediavelmente ao fim. Donde que, das duas uma: ou se regenera, com a necessária reestruturação do sistema partidário, o nascimento de novos partidos e a emergência de formas de democracia directa e solidária, ou então implode miseravelmente, deixando espaço e oportunidade a todo o tipo de aventuras populistas, incluindo regimes policiais estruturados a partir das novas tecnologias cibernéticas e biopolíticas.

Eu defendo a metamorfose do actual regime constitucional.

Defendo um presidente da república mais forte ou mesmo uma monarquia constitucional democrática. Defendo uma democracia autárquica com mais autonomia, poder e responsabilidade. Defendo a regionalização autonomista dos Açores e da Madeira, mas também das cidades-região de Lisboa e Porto. Defendo a emergência de partidos regionais e locais, além das formações partidárias nacionais. Defendo o fim dos governos civis e a diminuição drástica das burocracias. Defendo, em suma, uma democracia mais barata, mas ainda assim com mais partidos e novas formas de participação democrática no exercício da vontade colectiva.

No caso das próximas eleições autárquicas, defendo a proliferação das candidaturas independentes de cidadãos por oposição às exangues listas partidárias. Para as europeias e legislativas que se avizinham proponho tacticamente o voto activo nos pequenos partidos parlamentares (PCP-PEV, BE, CDS/PP), não por acreditar que possam governar, mas pura e simplesmente porque reforçando-os eleitoralmente se garante a inadiável desarticulação do Bloco Central que há mais de 30 anos governa este país, com os resultados de todos conhecidos. Estamos como estávamos em 1910!


OAM 573 15-04-2009 01:49

2 responses to “Portugal 97

  1. Reforço dos poderes do PR, concordo. Acho que o PR e o governo se empatam mutuamente. Monarquia constitucional é voltar para trás dois séculos. Se os outros se livraram desse arcaísmo porque vamos nós adoptá-lo no século XXI?

  2. O meu avô era um republicano revolucionário, anti-padres (odiava o ex-colega de seminário Cerejeira, que chegou a cardeal de Salazar) e sempre apostou no PSD como partido popular (i.e. inter-classista), defensor intransigente da pequena e média propriedade, da pequena e média empresa, e da liberdade empresarial. Eu fui educado neste republicanismo, por assim dizer, natural. Embora, por compreensíveis motivações geracionais, tivesse descambado até Trotski…

    No entanto, é preciso desanuviar a nossa mente do anti monarquismo radical.

    No caso de a actual república implodir, como as duas anteriores implodiram, a primeira por não ter sabido inverter o plano inclinado que vinha de trás; a segunda, por exaustão, por manifesta incapacidade de resolver o problema colonial e por ser uma ditadura obsoleta, o que eu digo é que o renascimento de uma monarquia avançada, democrática, constitucional, inteligente, sempre será uma alternativa aos cenários autoritários que poderão ressurgir de um dia para o outro…

    A III República está aparentemente ferida de morte. Se for incapaz de se renovar no plano partidário; se for incapaz de conferir maiores poderes à presidência da república; se persistir no populismo despesista e corrupto que há pelos menos 20 anos a caracteriza, então não vejo como evitar nova metamorfose. E neste caso —só neste caso—, antevejo a bondade potencial de um regresso à monarquia.

    O regime monárquico é um velhíssimo quadro organizacional das sociedades assente na biopolítica, a qual traduz um plano social avançado das matrizes familiar e gentílica das sociedades humanas primitivas. A vantagem deste tipo de genealogia do poder sobre o modelo republicano é que a linhagem da aristocracia é mais transparente do que as linhagens populistas, atrás das quais se escondem invariavelmente aristocracias secretas poderosas, frequentemente criminosas, e sobre as quais dificilmente as democracias exercem qualquer forma de escrutínio e controlo.

    Talvez valha a pena reabrir esta discussão. Não acha?

    Um dos aspectos mais curiosos da evolução desejável das monarquias pós-contemporâneas é a inevitabilidade da sua contaminação plebeia. Deu mau resultado em Inglaterra, porque o experimentalismo às vezes explode nas mãos, mas parece estar a correr bem em Espanha. As novas monarquias deixaram de estar condenadas à endogamia!

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