Portugal 106

Votar contra esta maioria absoluta

A esperada derrota de Sócrates anuncia dois novos líderes promissores nas respectivas áreas ideológicas: Paulo Rangel e Nuno Melo.

Para quem não sabe, eu explico: a reeleição de José Manuel Durão Barroso para o cargo de presidente da Comissão Europeia, e a campanha para levar Tony Blair ao posto de primeiro presidente do Conselho Europeu, fazem parte dum mesmo objectivo: impedir a concentração de poderes no eixo franco-alemão, e prolongar por mais algum tempo o predominância secular das potências atlânticas no seu conjunto.

A China tornou-se este ano o principal parceiro comercial do Brasil, o que, como bem observou o boletim do GEAB de Maio passado (1) na sequência de uma notícia do The Latin Americanist, assinala a deslocação efectiva do centro de gravidade da economia mundial, de Nova Iorque, Londres e Frankfurt para Xangai, Seul e Tóquio. Os grandes parceiros comerciais do Brasil foram sucessivamente Portugal, Inglaterra e Estados Unidos. A chegada da China a idêntico estatuto é um facto histórico que marcará porventura todo o século 21.

Ou seja, o oceano Atlântico é cada vez mais sulcado por aquela que será em breve a maior armada comercial e militar do mundo — a armada chinesa. Tal como os navios portugueses, holandeses, franceses, ingleses e estado-unidenses há muito sulcam os mares da China (alguns dos países, desde o século 15 que por lá andam), o reconstituído poder marítimo chinês, auto limitado desde 1415 (2), colocará ao longo deste século o Atlântico Sul e o Atlântico Norte sob uma pressão económico-diplomática sem precedentes.

Dito doutro modo, nunca como neste século as alianças anglo-portuguesa, luso-americanas e anglo-americana, fizeram tanto sentido. Delas depende em boa parte a acomodação graciosa do Ocidente ao novo Sol Nascente, e ainda a capacidade de lidar pacificamente com o novo Islão, sobretudo se a mole fundamentalista produzir os previsíveis efeitos de unificação estratégica em todo o Médio Oriente.

Por tudo isto, e tendo em conta o bom trabalho realizado até agora pelo ministro dos negócios estrangeiros do governo de José Sócrates, Luís Amado, não devemos confundir a necessidade urgente de substituir o actual primeiro ministro, ou mesmo as vantagens de acabarmos com a actual maioria absoluta do PS socratino, com entregar sem mais o ouro ao outro partido do imprestável Bloco Central.

A situação é complexa e não se compadece com juízos assassinos, nem populistas. Temos que ser mais prudentes nas avaliações políticas. Reafirmo, porém, algumas das convicções que me levaram a recomendar o voto nestas eleições europeias contra o actual PS e sobretudo contra a actual maioria absoluta:

  1. Embora aceite que a tríade de Macau tem uma geo-estratégia globalmente correcta para o país e para a Europa, não aceito de maneira nenhuma o seu indecoroso modus operandi.
  2. Rejeito em absoluto a deriva autoritária, intrusiva e policial da actual maioria socratina, de que as figuras indigentes de Augusto Santos Silva, Rui Pereira, Alberto Costa, José Magalhães e o idiota chapado da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, são exemplo intolerável que urge enviar para o grande caixote do lixo inquisitorial da nossa História.
  3. O Bloco Central é o grande cancro do actual regime, pelo que urge removê-lo e provocar a emergência de novos partidos (3), bem como o crescimento de alguns já existentes, como sejam o Bloco de Esquerda e o PP de Nuno Melo, e ainda a reforma interna do PS e do PSD. A surpresa churchilliana chamada Paulo Rangel é seguramente o facto mais relevante do ano eleitoral que agora começa. Vamos ver como termina….
  4. Recomendo o voto no PSD e no Bloco e Esquerda, para abater de vez a maioria socratina.
  5. A nuvem de novas propostas partidárias parece-me para já pífia, sem imaginação e sem protagonistas convincentes. Precisamos de um verdadeiro boomerang, ou seja de um Partido Pirata!
  6. Vou votar no Bloco de Esquerda, fazendo votos para que os seus principais protagonistas saiam do armário.
  7. Continuo a ser um socialista fora do baralho.

NOTAS

  1. In April 2009, China became Brazil’s leading trade partner, an event which has always announced major changes in global leadership. This is only the second time that this has happened since the UK put an end to three centuries of Portuguese hegemony two hundred years ago. The US then supplanted UK as Brazil’s leading trade partner at the beginning of the 1930s. — in GEAB #35.
  2. Curiosamente o ano da conquista de Ceuta pelos portugueses, anglo-iluminados por Philippa of Lancaster!
  3. Suécia: Partido Pirata tem quase garantido assento no Parlamento Europeu (Público.) E por cá, que falta para criar novos partidos? Criatividade? Coragem?

OAM 588 05-06-2009 12:26

4 responses to “Portugal 106

  1. Viva António.

    Não sei se o Bloco Central “comandado” pelo Dias Loureiro (PSD) e pelo António Vitorino (PS) serão de fácil e imediata remoção.

    São muitos anos disto, e até o Cavaco apesar do seu “necessário” distanciamento foi identificado num dos tentáculos do polvo.

    O que eu acho mais fantástico no meio disto tudo (no caso do Vitorino) é que na TV às 2ª feiras ainda lhe dão tempo de antena.

    A malta habitua-se a tudo, o que não quer dizer que não sejam apontados.

    A

    Rui

  2. A minha convicção é esta: o colapso da Dona Branca e dos Porquinhos Especuladores que o Bloco Central da Corrupção alimentou e de que se alimentou ainda vai no adro! As comadres ainda não começaram a arrancar os cabelos. Mas lá chegaremos, entre 2010 e 2011. E aí, algumas pandilhas e associações empresariais de chulos terão poucas hipóteses de sobreviver. Assim os novos políticos que começaram a emergir saibam ler as estrelas! Já reparaste que quase todos os candidatos ao Parlamento Europeu precisam irremediavelmente de Botox?

  3. Parece-me abusivo dizer que a conquista de Ceuta e a expansão portuguesa em geral deve-se à inglesa Filipa de Lencastre. Devem sim ser inseridos num complexo mais amplo de guerra contra o Islão, o qual era bastante anterior. Aconselho-o a reler a história de Portugal.

    GP

  4. A minha reiterada referência à hipótese de Filipa de Lencastre ter sido um agente diplomático de primeiro plano da coroa inglesa é uma provocação directa aos historiadores que fomos tendo ao longo da História: quase sempre escritores de panegíricos atentos e obrigados do poder, sem grande coragem para problematizar os acontecimentos com honestidade total. A censura ao papel determinante de Filipa de Lencastre por parte de todos os nossos historiadores é bem a prova de que a minha provocação tem razão de ser…

    Obrigado pelo seu comentário😉

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