Por Lisboa 26

Cidade morta e corrupta

Lisboa é magnífica a 500 metros de distância, mas quando chegamos aos 5 metros, é suja, corrompida e frequentada por gente paralisada numa espécie de arrogância iletrada. O mundo, ao contrário de pertencer-lhes, como chegam a acreditar, segue infelizmente noutro lugar. Lisboa afunda-se na ignorância, na corrupção e numa extraordinária falta de sensibilidade cultural. Como me dizia ontem um amigo: Portugal e a sua capital morreram, mas ninguém se deu conta!

O endividamento catastrófico do país, numa Europa que ameaça rasgar em breve o Tratado de Lisboa, ou enfiar o dito numa espécie de caixão de boas intenções, vai levar-nos inevitavelmente à tragédia.

Há 500 anos que não sabemos viver sem uma árvore das patacas à mão. Há séculos que os desgraçados lusitanos e galegos deste país fogem espavoridos da miséria e da subserviência, deixando as terras e as aldeias ao Deus dará, e deixando também entregues ao vício das rendas e do soldo público as eternas manchas gentílicas que formam esta indecorosa sociedade clientelar. Provinciana, arrogante e sempre dependente de uma qualquer brisa de felicidade imerecida, a caricata sociedade portuguesa não tem desta vez a mais pequena ideia de como safar-se. O circo de corrupção e descaramento exibicionista do bloco das rosas e das laranjas, actualmente engalfinhado numa desesperada corrida pelos restos da despensa comunitária, é a mais confrangedora prova do que escrevo. Esta país morreu e ainda ninguém nos telefonou a comunicar o óbito, nem a hora do funeral!

Tudo leva a crer que os próximos resultados eleitorais conduzirão o país a um impasse total, prelúdio de uma crise de regime para a qual não existe ainda nem discurso crítico coerente, nem utopia. Ou muito me engano, pois, ou as bombas-relógio que irão provocar o colapso do regime já estão colocadas nos sítios: Funchal, Lisboa e Porto. Resta-nos ainda alguma saída, ou esperança? Temo bem que não. Pelo menos, sem antes passarmos por uma convulsão constitucional.

Se não formos capazes nos próximos seis meses de meter na prisão uma boa dúzia de notórios ladrões e piratas do regime, este colapsará necessariamente. A dimensão do drama dependerá tão só da forma como a Europa se comportar perante a actual crise mundial — que é de natureza simultaneamente energética, ambiental, económica, financeira, estratégica e institucional. Se vingar a decisão constitucional da Alemanha de não permitir mais endividamento público nos Estados da União, das duas uma, ou a Europa desaparece (e somos invadidos pela Espanha), ou todos ganhamos juízo e pomos na prisão os especuladores e ladrões que capturaram as democracias europeias, dando início a um período de adaptação estrutural aos novos constrangimentos e paradigmas da convivência mundial.

O que eu, nem ninguém de bom senso, deve fazer, é continuar a alimentar os simulacros de democracia representativa actualmente em curso, a pretexto das próximas eleições legislativa e autárquicas. Ou o senhor Cavaco e a gente honesta dos partidos resolvem em uníssono dar um murro na mesa e endireitar a situação, ou nada melhor nos espera em 2010 do que um colapso económico-social seguido de uma mais do que provável implosão da Terceira República.

As desistências de Manuel Alegre, e agora de Helena Roseta, no que toca à gestação de uma alternativa ao degenerado Partido Socialista — de Jorge Coelho, António Vitorino, Paulo Pedroso, Vera Jardim, Vitalino Canas, Edite Estrela ou Fátima Felgueiras —, fazem-me temer o pior. E pelas bandas do partido laranja, a saída de cena de Paulo Rangel deixa Manuela Ferreira Leite entregue à mediocridade e ganância da corja de piratas que capturou e perverteu o partido fundado por Francisco Sá Carneiro.

OAM 603 17-07-2009 23:25

5 responses to “Por Lisboa 26

  1. Antonio

    muito pertinente o seu post.
    Acho que a implosão da 3ª República já tem o rastilho aceso: incapacidade de laranjas e rosas de se entenderem em questões fulcrais veja-se o patético episódio do Provedor e incrível acordo no parlamento (todos votaram a favor menos o Tozé Seguro)acerca do financiamento partidário.

  2. O ponto de não-retorno, o ponto da singularidade, aproxima-se cada vez mais depressa.
    .
    Excelente postal!

  3. «Se não formos capazes nos próximos seis meses de meter na prisão uma boa dúzia de notórios ladrões e piratas do regime»

    Se não os conseguirmos meter na prisão (o que é de longe o mais provável, visto que a justiça está nas suas mãos), metamo-los no inferno, a pontapé, à facada ou a tiro!

  4. Chantal M Tremblay

    António, Estou longe de mais de Lisboa para comentar diretamente sobre a situação local que tu descreves, mas concordo numa coisa, “as crises” estão longe de ser resolvidas. Basta ver que pagamos o petroleo à preços similares aos preços dum baril duas vezes mais caros, contemplar os lucros dos bancos americanos salvos pelos contribuintes enquanto o maior estado americano, a California afunda-se nas dívidas para ter uma ideia de tudo que não fui resolvido.A direcção tomada pela guerra no Afganistan é tambem preocupante, como a velocidade da propagação da pandémia de H1N1.
    Aqui na América do Norte, dormemos bem, com um sistema de segurança social que ainda funciona, e a maior transferência de dinheiro jamais feita, com os Baby Boomers a herdar mil milhões de dolares da poupada geração que viveu a grande depressão e a II Guerra Mundial….

  5. Viva Chantal!
    Assim é, estamos a entrar num período confuso. Como se estivéssemos numa galeria de espelhos mágicos, que ora nos põem gordos e baixos, ora esguios e altos. As dívidas continuam a crescer rapidamente, enquanto os jogos de guerra se aceleram mais ou menos na sombra. Os políticos começam a ter um discurso desconexo. Muito preocupante…

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