Por Lisboa 27

Região Autónoma de Lisboa, já!
Transformar uma manta de retalhos na porta ocidental da Europa.


Obras na minha rua — Carcavelos. Foto: OAM.

O desenho não está ainda bem definido, mas andará numa geometria a meio caminho entre a antiga Região de Lisboa e Vale do Tejo (cerca de 3,5 milhões de habitantes) e a actual Região de Lisboa (2,8 milhões de habitantes). O importante mesmo é exigi-la quanto antes. E sabem que mais? António Capucho daria um bom presidente da nova região!

Fui ontem de manhã, 18 de Julho, passear pelo rio Tejo num Galeão do Sal do início do século 20, entretanto reconvertido para viagens de recreio. Tem o sugestivo nome Estou para Ver.

Há 36 anos que vim parar a Carcavelos. Sem querer, fui-me tornando num “menino da Linha”, pendulando entre o areal se São Julião da Barra e o Bairro Alto, Alvalade, Alfama, Cinfães do Douro, Porto, Matosinhos, Pico, Corunha, Badajoz, Madrid, Barcelona, Paris, Florença, Nova Iorque, Tóquio, Xangai, Pequim… Cascais! Até hoje, depois de cada escapadela, acabei sempre por retornar à minha praia de todo o ano, a uma das mais belas linhas de comboio do planeta, à irresistível Marginal de curvas rápidas e sensuais, aos melhores gelados do mundo (velho Santini, que já partiste, obrigado!), e aos inesquecíveis besugos do Cantinho da Belinha. No elBulli, de Adrian Ferrá, poderão fazê-los tão bem, pingando-os com azeite estereficado e decorando cada um destes peixes frescos com batata liofilizada e espuma de boletos, mas nunca melhor do que os pescadores que ainda pescam ao largo da Baía de Cascais e assam pimentos verdes como ninguém. Não será fácil tirarem-me daqui!

A China, porque vim de lá, porque de lá herdei o meu cosmopolitismo indestrutível e porque gosto de lá voltar quando posso; o estuário do Tejo, do labirinto que o Eléctrico 28 percorre, ao Miradouro de Nossa Senhora do Monte, do Cais do Ginjal ao Cabo da Roca; e o Douro a perder de vista que me oferece a Quinta da Vinha Velha, em Cinfães do Douro, fazem parte de um eco-sistema alargado pessoal que amo e me faz amar o resto deste planeta ameaçado.

Voltando à região dos grandes estuários, de onde nasceram as cidades de Lisboa, Santarém, Setúbal, Montijo, Almada e Barreiro, entre muitos outros povoados ribeirinhos, activamente frequentados e trabalhados ao longo dos séculos por Fenícios, Romanos, Mouros, Lusitanos, Galegos, Judeus e Africanos, a questão política da sua escala e organização volta a estar na ordem do dia. Faz sentido, e a União Europeia não quer outra coisa. A malha densa de interdependências várias que de há duas décadas para cá se vem intensificando entre a Lisboa antiga e as cidades e vilas que a rodeiam, desde Sintra, Mafra, Torres Vedras e Santarém, por um lado, a Setúbal, Montijo, Seixal, Barreiro e Almada, por outro, urge que elevemos esta cidade-região e esta grande comunidade humana, ao estatuto de região autónoma, tal como são os Açores e a Madeira, ou a Comunidade de Madrid. Menos do que isto é desconversar sobre os verdadeiros desafios estratégicos que temos pela frente, se quisermos, como deveremos querer, fazer a região dos grandes estuários uma das primeiras e grandes cidades verdes da Europa, e a sua principal e magnífica porta ocidental.

A Lisboa da Baixa Pombalina e do Largo do Município está encalhada, e mesmo em risco de soçobrar perante a mediocridade partidária local e o peso paquidérmico da burocracia municipal. Nem Santana, nem Costa, estão à altura de promover uma visão ampla da cidade metropolitana de Lisboa que todos precisamos. O primeiro é cabotino, e o segundo quer ser Primeiro Ministro, e não o alcaide lúcido e respeitado de que a região precisa para ter finalmente um verdadeiro ordenamento do território, uma lógica de governança democraticamente ancorada e um autoridade política realmente metropolitana. Mas a cidadania não pode parar diante deste escolho. Pelo contrário, deve procurar activamente alternativas e exigir a criação imediata da Região Autónoma de Lisboa. Mobilizemos pois a blogosfera para tal!

Ontem visitei a exposição sobre a obra feita e os projectos de Cascais. Fiquei muito bem impressionado, confirmando o acerto do meu voto autárquico em António Capucho, um político laranja, mas antes de mais, um homem que sempre me pareceu honesto, e sobretudo demonstra saber que a política hoje necessita absolutamente de transparência, qualidade técnica e criatividade. Porque não começar a pensar neste homem para governar toda uma região?

Votar de forma inteligente, não é votar em partidos, mas em pessoas e soluções.

Para os meus exigentes leitores do Norte do país, um conselho que há muito venho dando: o Porto deve ser a cabeça de uma cidade-região metropolitana, que deve ser uma Região Autónoma, mantendo ligações fortes com Lisboa, mas criando e desenvolvendo as suas próprias ligações estratégicas à Europa e ao resto do mundo, ultrapassando para tal e previamente as pequenas divisões provincianas e caciqueiras que os centralistas de São Bento e Belém sistematicamente alimentam.

OAM 604 19-07-2009 13:06

3 responses to “Por Lisboa 27

  1. Caro António,

    Continuamos com as “soluções” do costume para problemas que já sabemos nada terem a ver com isso.

    Abraço

  2. Viva António,

    Há muito que proponho a Fusão de Autarquias na lógica NUT3 como alternativa à Regionalização tradicional. Na prática retomar a reforma Relvas do tempo de Durão Barroso. POrtanto uma região autónoma de Lisboa é positiva.

    O problema em Portugal é que o Estado Central tem excesso de funções para as quais não é competente e o estado Local está pulverizado dado que foi criado no século XIX, à luz das atribuições e meios da época (a sede do concelho tinha que ser alcançável a partir da periferia a cavalo num único dia…).

    A solução sádia seria fundir autarquias criando regiões médias e passando para estas competências de gestão do território (ambiente, transportes), serviços públicos (saude, educação), fomento económico (min. economia, agricultura, turismo, Seg social) actualmente mal executadas pelo estado central. Esta ideia tem um grande problema: Reduz o nº de cargos políticos e portanto oportunidades de tráfico de influências…

    Outro assunto,

    Estou a pensar mudar de tipo de intervenção blogosférica, pelo que oportunamente entrarei em contacto consigo por email. Abraços.

  3. Caro José,

    Estou de acordo consigo: precisamos de mais democracia directa, de mais descentralização, de menos burocracia, de mais transparência, de mais avaliação interpares, de mais responsabilização, de mais entusiasmo na definição de objectivos e, por fim, de mais alegria!

    1ab.

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