Portugal 121

Regresso a Tormes


Pousada da Juventude de Vilarinho das Furnas, Campo do Gerês.
Foto OAM (Moto U9).

“Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto), que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.

… Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a sopeira. Mas já, arredando a broa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousara na mesa uma travessa vidrada, que transbordava de arroz com favas. ora, apesar de a fava (que os Gregos chamavam «ciboria») pertencer às épocas superiores da civilização, e promover tanto a sapiência que havia em Sício, na Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana – Jacinto sempre detestara favas. Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo assombro, procuraram os meus. Outra garfada, outra concentração… E eis que o meu dificílimo amigo exclama: «Está ótimo!» Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres que em baixo remexiam as panelas, cantando o Vira, meu bem? Não sei: mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espeto de pau, terminou por bradar: «Está divino!» — Eça de Queiroz, in Civilização. (PDF)

Ao contrário do que o nome indica, as Pousadas da Juventude não são apenas para os adoradores imberbes do telemóvel. Sobretudo as de quatro e cinco estrelas (sim, há umas mais iguais que outras!) são cada vez mais assediadas por jovens de espírito como eu, que levam já um quarto de século em cada perna, ou mais, e também não dispensam, mas sem estarem propriamente agarrados, o iPhone, a magnífico Flip e o absolutamente indispensável TomTom, este último, depois de lhe substituirmos as terríveis vozes portuguesas, por prestações tão geniais como as de Homer Simpson, John Cleese ou Dennis Hopper. Sobretudo num momento em que o horizonte parece irremediavelmente tempestuoso, aproveitar o melhor que a tecnologia tem, para revisitar o que de adorável existe no atraso do meu país, no conforto e deleite de algumas das excelentes pousadas que a voragem neoliberal não teve tempo de privatizar, é um privilégio ímpar.

Se as pousadas de Foz Côa e Ponte de Lima deixam algo a desejar no desenho, na robustez e na climatização inconveniente, em grande medida por causa dos levianos arquitectos que as desenharam, e dos irresponsáveis empreiteiros que as construíram, outro tanto não sucede ao recém-recuperado complexo de Vilarinho das Furnas (no espectacular Chão do Gerês), ou às novas pousadas de Alijó e de Melgaço (um luxo, jovens!)

Deixar Lisboa por uns dias e respirar o que o nosso atraso felizmente poupou à voragem da modernidade é um dos mais tonificantes antídotos que posso tomar para depois suportar a guerra civil das palavras onde me meti desde que lancei este já longo “António Maria”.

Desta vez, o prazer organizado pela minha adorável mulher, na companhia da minha idolatrada filha (que acaba de somar à sua raíz lisboeta a nacionalidade espanhola!), passou por terras inesquecíveis de boas, como Ponte de Lima (ah grande Queijo Limiano!), Castro Laboreiro, Monção e Melgaço. Nestas duas últimas admiráveis vilas bebi os melhores Alvarinhos do mundo inteiro (e há-os bem bons na Galiza, na Califórnia, Argentina, Austrália e Nova Zelândia). São surpreendentes e divinos os Alvarinhos Soalheiros de Melgaço, como sólidos são os Alvarinhos de Rebouça e o Quinta da Pedra, de Monção. Até o Torre de Menagem, um vinho verde branco da casa Quintas de Melgaço, e o bem amanhado tinto verde da Adega Cooperativa de Monção (difícil de encontrar em Lisboa, como os demais citados…), deixaram saudades do irresistível cabrito do monte que o restaurante Adega Regional Sabino, situado em Melgaço, sacrifica diariamente e diariamente assa, com a simplicidade que tema tão sagrado exige, para êxtase gastronómico de quem não se passou ainda definitivamente para a dieta “veg”.

No regresso, visitámos a anémica, embora muito incensada Pousada de Terras do Bouro —um projecto tão pretensioso quanto pífio de Eduardo Souto de Moura. Jantámos mais tarde uma inigualável posta arouquesa n’O Meu Gatinho, em Cinfães do Douro, por dever de homenagem à terra do meu avô paterno e de uma longa linhagem de aventureiros e bons vivants. Finalmente Braga, terra da minha mulher, e Porto, antes de tomar a A1 pela madrugada fora. Na cidade dos curas e do Bacalhau à Zé do Pipo, encontrámos uma esplanada-jardim civilizada, digna dos melhores recantos da Europa do Norte, na célebre Casa dos Coimbras. O Bar dos Coimbras é um projecto dos arquitectos Amadeu Magalhães e Guilherme Sequeira, de visita e usufruto obrigatórios. Experimentem o delicioso chá de Mate gelado e perfumado com hortelã — uma salvação laica em terra de batinas, numa tarde de ananases — como diria o Eça.

Hoje, antes de começar esta crónica de regresso de férias, passei pelo mercado bio do Príncipe Real. A capital também tem coisas amáveis, inteligentes e boas. Antes de passar pelo celeiro em busca de algas e óleo de abóbora (próstata oblige!), entrei na igreja jesuíta de São Roque, ao Largo da Misericórdia. Lágrimas de amor e raiva escorreram sem travão possível sob a cortina escura dos meus óculos de Sol.

A jihad literária recomeça amanhã!

OAM 616 30-08-2009 20:41

4 responses to “Portugal 121

  1. «A jihad literária recomeça amanhã!»

    Só um cheirinho. Donde, a melhor solução para o país seria o desaterro total entre a península de Setúbal e a de Lisboa para que o país possua um descomunal porto de águas profundas. Evidentemente que o estarmos numa extremidade da Europa não risca nada.

    Os que não se apercebem da vantagem desta extraordinária solução serão velhos do Restelo…

  2. Caro Antonio Maria
    Celebro o seu regresso! Cada vez mais me surpreende partilhar tantas coisas consigo: desde o bom gosto do sempre “nosso” Eça, ao vinho verde tinto a acompanhar o cabrito dos montes dessas terras do Bouro e transmontanas,(o da A.C.de Ponte de Lima tb nao está nada mal!), à binacionalidade da sua casi Iberica filha, e principalmente à lucidez de analise dos temas que se nos deparam nesta sociedade post gótica y post moderna que também nao aceito como perene y imutavelmente “contemporanea” !?. Todo este “rollo” para lhe pedir que abra tribuna sobre a vexata questio do iberismo a ver se se desmistificam muitos clichés.Sou o seu leitor “Observador” e , desde já, o convido a serrar comigo umas fatias de presunto -muito fininho- da minha passageira bandeira.

  3. Diogo,

    Eu não creio q seja necessário um porto de águas profundas descomunal, que arrase a diversidade da região entre estuários: zonas húmidas, serra, cursos de água, presença humana milenar, etc. Eu contentar-me-ia com o fecho da golada, a interdição da ponte Chelas-Barreiro, o aproveitamento/ampliação estratégico do porto de Setúbal e do seu potencial económico, e com a possibilidade de um dia ligar os dois estuários por um canal ecológico dissuasor de mais metástases urbanículas. Ab/ a

  4. Caro Observador,

    O verde da AC de Ponte de Lima é virtualmente o único verde tinto que se encontra em terras de mouros. Gosto dele, que remédio! Mas a prova do verde tinto de Monção foi como descobrir um segredo que não chega a Lisboa…

    Quanto ao iberismo, tenho um desafio preparado para publicar em breve. Já estava escrito, o rascunho, mas a ocasião faz o ladrão. Ou seja, o frenesim catalão em volta do uso constitucional —mais do que merecido— do termo “nação” para designar a sua velha identidade, somado ao Niet estratégico de Manuela Ferreira Leite em volta do AVE que quer penetrar unilateralmente em Portugal, são dois excelentes pretextos para falar da jangada ibérica. Antes do fim-de-semana, terá o meu artigo sobre as Espanhas!

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