Portugal 124

El AVE e a questão espanhola

Isabel de Portugal
Isabel de Portugal, imperatriz da Alemanha, esposa de Carlos V.


Madrid fortalece presença no mercado de logística português

A Plataforma Logística de Madrid (MPL) reuniu-se recentemente em Lisboa com representantes da tutela, do porto de Lisboa e, ao nível de empresas, com a Mota-Engil para apresentar o plano de desenvolvimento da infraestrutura e analisar as possibilidades de colaboração. As sinergias entre as infraestruturas do Plano de Logística da Comunidade de Madrid – com um investimento estimado em nove mil milhões de euros – e as infraestruturas da Rede de Plataformas Logísticas de Portugal foi um dos temas da reunião.

O plano de colaboração entre as entidades dos dois países passa por fomentar o desenvolvimento do transporte ferroviário na ligação entre Lisboa e Madrid, criando-se um eixo intermodal de competitividade ibérica para melhorar a eficiência do transporte e distribuição de mercadorias. De concreto, foi acordada a criação de um grupo de trabalho conjunto com a Comunidade de Madrid e do Ministério dos Transportes em Portugal, a que se seguirá a criação de um grupo de interesse (público e privado), envolvendo diferentes instituições e empresas portuguesas, representando os seus interesses nas plataformas listadas no plano. — in Cargo News 605 (2009-9-16).

Parece que o fogo aqui ateado (Prisa, Rua!) a propósito dos recentes jogos de estratégia entre Madrid e Lisboa (1) fez o seu caminho. Denunciada a simbiose oportunista entre a actual cúpula socialista portuguesa e os interesses seculares dos centralistas de Madrid, desta vez, em volta de um pássaro de ferro chamado AVE (Alta Velocidad Española), e exposto o ataque espanhol, sem precedentes, contra uma empresa de comunicação, a TVI, e a liberdade de imprensa em Portugal, como exemplo de um intolerável frete eleitoralista a José Sócrates, que por sua vez garantiu nos corredores diplomáticos a prioridade da ligação ferroviária de Alta Velocidade entre Madrid e Lisboa, fez estalar uma vez mais o fino verniz das relações sempre cordiais, mas susceptíveis e instáveis, entre Castelhanos e Portugueses.

Ambos podem objectivamente aspirar a governar a península onde há muitos séculos convivem com outros povos e nações. A Ibéria dos gregos, a que os romanos chamavam Espanha, e os Árabes, Al-Andalus, tem sido ao longo dos tempos, mais do que sonho, um pesadelo intermitente. A História tem contrariado o ideal de uma unidade política estável nesta peculiar cabeça europeia. As tentativas castelhano-aragonesas e posteriores nunca perduraram pacificamente por muito tempo, e a única tentativa galaico-lusitana de fazer um gambito a Castela acabou numa tragédia que portugueses e galegos não esquecem (2). O apaziguamento desta tensão indelével parece ocorrer apenas quando a visão estratégica da Política visa horizontes mais amplos: descer a costa africana em busca do Preste João, do ouro e das especiarias asiáticas; atravessar o Atlântico; ou entregar um bela princesa ibérica a um alemão culto e apaixonado. Guardando as devidas distâncias, diria até que a reeleição de Durão Barroso faz melhor ao ego ibérico do que a retórica comprometida de São Bento e de La Moncloa em volta da Alta Velocidade.

Ninguém contesta a importância da renovação da rede ferroviária ibérica, seja pela adopção generalizada de uma bitola europeia (ao invés da medida ibérica, criada em nome dos pânicos bonapartistas que ainda ecoavam na península ao tempo do aparecimento da ferrovia), seja pela implementação de um rede de Alta Velocidade/Velocidade Elevada ligando as principais cidades ibéricas entre si, e estas ao resto da Europa.

Até aqui, sempre defendi “o TGV”. E até defendi e defendo que a primeira ligação deva estabelecer-se entre Madrid e Lisboa, pelo seu significado simbólico (ligação de duas capitais de Estado), por conectar duas cidades-região da maior importância para a estabilidade ibérica, por ser a mais fácil e menos cara das quatro obras previstas (eixos Lisboa-Madrid, Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Faro-Sevilha) e por ser rentável, desde que considerada na sua dupla vertente de transporte de pessoas e transporte de mercadorias, e se limite, para já, à construção de uma linha entre Madrid e o Pinhal Novo — ou seja, adiando a terceira travessia do Tejo e usando com vantagens óbvias a actual Ponte 25 de Abril (3).

Mas o que também repito há vários anos é que portugueses e espanhóis estão endividados até ao tutano, impondo-se por isso que revejam os prazos de execução dos ambiciosos planos de obras públicas que têm entre mãos — sob pena de, se o não fizerem, perderem o controlo sobre o emprego, a inflação financeira e o peso dos impostos.

Deve ser garantida, por outro lado, uma mais equilibrada ponderação dos interesses e prioridades de cada um dos países à medida que forem introduzidas as inevitáveis correcções de espaço e tempo nos respectivos programas de obras públicas. Assim, por exemplo, a prioridade do corredor Aveiro-Salamanca-Valladolid-Irún, a par da ligação Porto-Corunha, precisam certamente de um update cronológico, por forma a garantir que o prémio a pagar pelo protagonismo dado à ligação Madrid-Lisboa não será nem comprometido, nem o seu pagamento, atrasado para lá do razoável.

Por outro lado, devemos fazer sentir aos cortesãos do Prado que a visão de Zapatero sobre o poder de coesão territorial do AVE é politicamente incorrecta e levanta naturais suspeitas quanto à boa fé negocial de la Moncloa. Madrid quer chegar mais depressa ao mar, quer controlar as principais plataformas logísticas da península e os próprios portos atlânticos, tal como quer exportar ainda mais para os mercados portugueses, e através destes chegar ao Brasil e às antigas colónias portuguesas em África. Muito bem! E que mercados serão, em contrapartida, abertos às empresas portuguesas no hinterland de sua majestade, e na Iberoamerica que tão ciosamente continuam a controlar? Para quando o fim do nacionalismo económico promovido sistematicamente por uma Espanha que ainda se vê a si mesma como arremedo de projecto imperial? É disto, creio, que tratam os avisos bem avisados de Manuela Ferreira Leite. A prová-lo estão as reacções crescentes das novas sumidades do espanholismo pós-franquista: José Luiz Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy — curiosamente, os principais antagonistas da nomenclatura político-partidária do país vizinho. O senhor do El País, neste jogo, fez apenas o papel de mensageiro interessado — claro está.

A Espanha que vai de Badajoz à Catalunha, e da Andaluzia à Galiza, Astúrias, Navarra e País Basco, viveu na última década e meia uma economia largamente especulativa, assente em doses descomunais de investimento externo. O crescimento foi extraordinário, mas assentou por vezes em bases frágeis que destruíram ou ameaçam destruir alguns dos seus recursos vitais: terra arável, água, bacias hidrográficas e ouro, para mencionar apenas os mais evidentes. A euforia chegou agora ao fim, e a factura poderá revelar-se demasiado pesada para a sempre difícil estabilidade territorial (4) de um país com uma denominação oficial incorrecta e sempre um passo à frente da sua própria possibilidade. Com o rating do reino em queda livre, e a expectativa negra de uma massa de desempregados ultrapassando os 20%, já em 2010, nada melhor —pelo lado português— do que elevar os níveis de prudência e segurança em todo o tipo de transacções e acordos. Não está em causa a amizade entre os povos da península, e menos ainda o muito afecto que tenho por dezenas de amigos castelhanos, estremenhos, galegos, canarinos, catalães, andaluzes ou asturianos, mas tão só a confiança que devemos depositar na verborreia dos políticos de ambos os lados da fronteira. Sim, continuam a existir fronteiras por essa Europa fora, e na Ibéria também. Vencê-las é uma tarefa sobretudo cultural e um exercício permanente de sabedoria.

NOTAS

  1. Quer dizer, entre os estrategas de La Moncloa e a ignara tríade de Macau —que tomou de assalto o PS depois de lá colocar provisoriamente o ingénuo Guterres, e se faz representar há quatro anos e meio pelo engenheiro de aviário e papagaio beirão, José Sócrates.

  2. Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruito,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuito,
    Aos montes insinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    (Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto 120)

  3. Nesta hipótese, o buraco da Feira Popular deveria ser usado para construir a Grande Estação Central de Lisboa, que assim ficaria bem situada no ponto nodal chamado Entre-Campos, bem no centro geográfico da capital, escoando e recebendo sem artifícios tráfego ferroviário de e para Sul, Norte, Leste e Oeste. Com o Aeroporto da Portela a duas ou três estações de Metro de distância, que solução mais conveniente e expedita poderíamos encontrar nos tempos de crise que começaram e tardarão a passar?
  4. Portugal é e deve manter-se rigorosamente neutral relativamente ao problema cada vez mais sério das autonomias tendencialmente independentistas que afligem de forma crescente o Reino de España. Mas daqui não decorre nenhum tabu para a discussão pública em Portugal sobre o tema. Ou pelo menos não deveria decorrer.

    A união ibérica nunca foi nem será possível se não por períodos curtos e instáveis. Ou seja, o sonho dos Reis Católicos, que apenas durou enquanto durou a expansão ultramarina e o colonialismo que uniram a Castela, Aragão e Andaluzia, o País Basco, a Catalunha, a Galiza e o resto das regiões livremente aderentes ou submetidas ao poder do eixo Sevilha-Toledo, tem vindo a desmoronar-se sem remédio desde a Guerra Hispano-Americana. Uma confederação, ou uma federação de esforços e de diplomacias aliadas, como sucede ente os estados alemães, entre os estados escandinavos, ou mesmo entre as nações helvétivas, é possível e desejável. Mas para aí chegarmos teremos que abandonar as visões iberistas convencionais, e sobretudo o olhar imperial caduco de Madrid. Por isso sou pessoalmente defensor das independências políticas das velhas e históricas nações ibéricas, entretanto submetidas a Madrid. Refiro-me, claro está, e sobretudo, à Catalunha, ao País Basco, à Galiza e mesmo à Andaluzia. A Espanha de que os romanos falavam, a Ibéria descrita pelos gregos, só tem a ganhar com a livre aliança de vontades entre os seus distintos povos, culturas e sensibilidades. Ao contrário do que pensa e teme Madrid, a coesão estratégica da Península seria muito mais sólida do que actualmente é.

    Ler ainda sobre a actualidade da questão nacional em Espanha esta notícia do El País: “Arenys vota masivamente a favor de la independencia de Cataluña” (El País.com).

REFERÊNCIAS

  1. “A vingança de Manuela Ferreira Leite” (in Público).
  2. “A política da especulação — uma introdução aos investimentos britânicos e franceses nos caminhos-de-ferro portugueses”, por António Lopes Vieira.
    “Parece então que Portugal constituía um exemplo inequívoco dos investimentos especulativos ingleses nos caminhos-de-ferro. O País não valia o esforço de investimentos directos e o campo estava preparado para empreendimentos puramente especulativos e fraudulentos. Tal como já se disse, as companhias de caminhos-de-ferro inglesas pediam quer uma taxa de juro garantida sobre o capital, quer um subsídio por quilómetro. De qualquer forma, mal a garantia era paga pelo Governo Português, ou o subsídio concedido excedia o capital investido, apareciam os problemas e, inevitavelmente, ou o Governo era obrigado a comprar a linha, ou a companhia falia e o seu património era posto à venda. Ao fazerem isso, os especuladores ingleses matavam dois coelhos com uma cajadada — eram amortizados do capital inicial (mais juros) e reinvestiam-no comprando obrigações do Estado que, entretanto, haviam sido emitidas para angariar o dinheiro necessário para recuperar as linhas e acabar as obras. Se tivermos em consideração o estado crítico das finanças portuguesas nessa época, os empréstimos negociados no estrangeiro eram normalmente concedidos com um elevado desconto sobre o valor nominal e os investidores, subsequentemente, gozavam de taxas de juro muito altas sobre o capital: os dividendos dos papéis de crédito do Estado Português andavam pelos 7,2% e foram superiores a 14,5% no período de 1870-80, comparados com os 6,1% para todos os investimentos ingleses no estrangeiro66. Perante um país atrasado, com perspectivas de desenvolvimento incertas, onde havia uma ignorância completa acerca da construção de caminhos-de-ferro e do seu financiamento, administrado por um Governo fraco e por uma Administração Pública corrupta, o especulador estrangeiro, e o inglês em particular, não hesitava em alargar o controlo comercial através do domínio financeiro.” (ler PDF completo).

OAM 621 18-09-2009 02:05 (última actualização: 11:43)

3 responses to “Portugal 124

  1. Caro António, lembra-se de no início do ano ter escrito sobre a próxima bolha, a bolha das renováveis? Usou até um texto base de uma artigo de uma revista americana a Harper’s Magazine de Fev.08
    .
    Não vá mais longe, a bolha das renováveis já aconteceu, veja o WSJ:
    .
    http://online.wsj.com/article/SB125193815050081615.html

  2. Sim, sim! Não é só o betão k rebentou pelas costuras da especulação. A banha da cobra verde, também! Mais um sonho húmido do socratintas pelo cano da sanita abaixo… Por algum motivo o BES cai!

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