Obama Nirvana

Caminhando em direcção à luz?
Será a mensagem sobre o Diwali, pelo homem mais poderoso do planeta, um sinal? Que sinal?

Os tempos que aí vêm já não se compadecem com as oratórias cansadas do cada vez mais insuportável populismo político predominante no Ocidente, venha o dito da Direita ou da Esquerda, do falso Centro ou da Extrema Esquerda quadrada e mumificada nas suas falidas ortodoxias litúrgicas. O desenrolar inicial das agendas partidárias após o recente ciclo eleitoral prenunciam infelizmente uma procissão de impasses até à grande crise que se aproxima vertiginosamente de todos nós. Quando uma situação apodrece e o caldo de hipocrisias e tensões começa a ferver lentamente, basta uma faísca qualquer para que a guerra civil estale. O milhão de espanhóis que ontem (Sábado) confluiu para Madrid (1), protestando contra o fundamentalismo anti-humanista do pensamento senil da Esquerda é tão só um aviso do que, de um dia para outro, pode fazer descarrilar de novo as democracias ibéricas.

O enigma do Prémio Nobel da Paz deste ano merece pois, neste contexto que se degrada dia a dia, uma reflexão nada leviana, mas atenta e futurista.

O Diwali […] é uma festa religiosa hindu, conhecida também como o festival das luzes. Durante o Diwali, celebrado uma vez ao ano, as pessoas estreiam roupas novas, dividem doces e estouram rojões e fogos de artifício. Este festival celebra o assassinato de Narakasura, o que converte o Diwali num evento religioso que simboliza a destruição das forças do mal — in Wikipédia.

O MITO DO ETERNO RETORNO

Para nossos propósitos, só uma questão deve nos preocupar: como pode o “terror da história” ser tolerado a partir do ponto de vista do historicismo? A justificação de um acontecimento histórico, pelo simples fato de ele ser um acontecimento histórico, em outras palavras, pelo simples fato de ter “acontecido dessa maneira”, não caminha no sentido de libertar a humanidade do terror que o acontecimento inspira. Deve-se compreender que não estamos aqui preocupados com o problema do mal, que, independente do ângulo a partir do qual possa ser visto, permanece como um problema filosófico e religioso; estamos preocupados, isto sim, com o problema da história como história, do “mal” que está limitado não pela condição do homem, mas pelo seu comportamento em relação aos outros. Deveríamos querer saber, por exemplo, como seria possível tolerar e justificar os sofrimentos e a aniquilação de tantas pessoas que sofrem e que são aniquiladas pela simples razão de que sua situação geográfica as coloca no caminho da história; por serem vizinhos de impérios que se encontram em estado de permanente expansão. Como justificar, por exemplo, o fato de o sudeste da Europa ter sofrido durante séculos — sendo portanto obrigado a renunciar a qualquer impulso no sentido de uma existência histórica mais elevada, na direção da criação espiritual no plano universal — pela única razão de que estava no caminho dos invasores asiáticos e, mais tarde, vizinho do Império Otomano? E, em nossos dias, quando as pressões históricas já não permitem mais qualquer fuga, como pode o homem tolerar as catástrofes e horrores da história — desde as deportações e massacres coletivos até os bombardeios atômicos — se, além deles, não consegue ver qualquer sinal nem significado trans-histórico; se esses acontecimentos são apenas as jogadas cegas de forças econômicas, sociais ou políticas, ou, pior ainda, unicamente o resultado das “liberdades” que uma minoria toma e exercita de modo direto sobre o cenário da história universal?

Sabemos como, no passado, a humanidade conseguia suportar os sofrimentos que já tivemos oportunidade de enumerar: eles eram considerados como uma punição aplicada por Deus, a síndrome do declínio da “era”, e assim por diante. E era possível aceitar os acontecimentos precisamente porque tinham um significado meta-histórico, porque, para a maior parte da humanidade, ainda apegada ao ponto de vista tradicional, a história não tinha, e nem poderia ter, valor em si mesma. Todos os heróis repetiam o gesto arquetípico, todas as guerras ensaiavam a luta entre o bem e o mal, cada nova injustiça social era identificada com os sofrimentos do Salvador (ou, por exemplo, no mundo pré-cristão, com a paixão de um mensageiro divino ou deus da vegetação), cada novo massacre repetia o glorioso fim dos mártires. Não nos compete aqui decidir se tais motivos eram pueris ou não, nem se uma tal rejeição da história mostrava-se sempre eficaz. Em nossa opinião, só um fato importa: em virtude deste ponto de vista, dezenas de milhões de homens, século após século, foram capazes de suportar enormes pressões históricas sem se desesperar, sem cometer o suicídio nem cair naquela aridez espiritual que sempre traz consigo uma visão relativista ou niilista da história. — O Mito do Eterno Retorno (1954), Mircea Eliade (1907-1986). Ed. Mercuryo Ltda. (1992).

Ler também artigo em inglês na Wikipedia, e em particular este trecho da versão inglesa original de The Myth of the Eternal Return: Cosmos and History, de Mircea Eliade:

“In our day, when historical pressure no longer allows any escape, how can man tolerate the catastrophes and horrors of history—from collective deportations and massacres to atomic bombings—if beyond them he can glimpse no sign, no transhistorical meaning; if they are only the blind play of economic, social, or political forces, or, even worse, only the result of the ‘liberties’ that a minority takes and exercises directly on the stage of universal history?

“We know how, in the past, humanity has been able to endure the sufferings we have enumerated: they were regarded as a punishment inflicted by God, the syndrome of the decline of the ‘age,’ and so on. And it was possible to accept them precisely because they had a metahistorical meaning […] Every war rehearsed the struggle between good and evil, every fresh social injustice was identified with the sufferings of the Saviour (or, for example, in the pre-Christian world, with the passion of a divine messenger or vegetation god), each new massacre repeated the glorious end of the martyrs. […] By virtue of this view, tens of millions of men were able, for century after century, to endure great historical pressures without despairing, without committing suicide or falling into that spiritual aridity that always brings with it a relativistic or nihilistic view of history”. — Mircea Eliade, The Myth of the Eternal Return: Cosmos and History. Princeton: Princeton UP, 1971 (1954); in Wikipedia.

NOTAS

  1. Em Espanha, como é sabido, o aborto é praticado livremente e tornou-se aliás num negócio próspero há já vários anos. Pois bem, a tonta Esquerda espanhola, certamente pensando distrair o povo do buraco negro para onde foi conduzido pelas mãos laicas e corruptas da aliança entre os armani-marxistas do PSOE e a corja mundial da especulação imobiliária e financeira, resolveu escarafunchar a legislação sobre a IVG e propor que qualquer jovem mulher com 16 anos ou mais possa decidir individualmente (no foro íntimo da sua consciência, dizem) sobre a sua gravidez até às 16 semanas de desenvolvimento do feto que eventualmente traga no útero. Quer dizer, sem necessitar de autorização dos pais, nem do namorado ou marido, caso tenha. No entanto, esta mesma jovem adulta está proibida por lei de fumar e tomar bebidas alcoólicas. A noção de livre arbítrio tem para o exibicionismo decadente da Esquerda actual, como se vê, dois pesos e duas medidas. Descriminalizar a prática do aborto é uma exigência de saúde pública e de tolerância social e humanista, liberalizar comportamentos irresponsáveis e conferir poderes absolutos à mulher em matéria de procriação é, pelo contrário, ilegítimo, contra-natura e uma insensatez cultural que pagaremos caro, mais cedo do que alguns previram.

OAM 636 18-10-2009 01:25

One response to “Obama Nirvana

  1. excelente texto, apetece-me citar um amigo de Mircea também romeno, Cioran: Dever da lucidez: chegar a um desespero correcto, a uma ferocidade olímpica.
    obrigado pela tua lucidez.

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