Macau

10 anos depois

Sou suspeito, pois nasci em Macau, de lá vim para Portugal em 1956, e não regressei, até hoje, ao lugar da minha paradisíaca primeira infância. Tudo o que guardo daquela terra são pequenas fotografias coloridas à mão de cenas familiares, dos meus dois irmãos mais novos que lá nasceram, do meu pai, da minha mãe e de amigos de ambos. Os meus pais eram dois portugueses do Norte de Portugal, um da Senhora da Hora, no Porto, e a mãe, filha de um empresário de tipografia, e de uma brasileira, nascera em Ovar. Para escaparem ao veto matrimonial do meu avó materno, nada melhor do que viajar para Oriente. E assim fizeram!

O meu pai, oferecendo-se para a tropa, zarpou primeiro. A mãe, tomando semanas depois do casamento um barco holandês, contar-me-ia a história inesquecível daquele mês e meio de viagem através dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, até Macau, comunicando por gestos com a tripulação do navio sobre a intragável qualidade da comida, até os convencer a deixá-la entrar na cozinha onde passaria a confeccionar, e partilhar, as suas refeições. Impressionara-a sobretudo o calor tórrido que fazia naquela zona do navio, e as pingas de suor que escorriam da face do cozinheiro negro ao amassar e moldar a carne dos croquetes que mais tarde fariam as delícias de alguns passageiros.

Tudo o que guardo de Macau são memórias de fascínio, prazer e aventura. Fui educado pela mãe e pelo pai, claro está, mas com a ajuda indelével de duas criadas chinesas e de um impedido às ordens do meu pai, que era então tenente de artilharia — um soldado moçambicano a quem chamava Nãnã. As empregadas chinesas preparavam chás de lagarto, cobra e um sem número de plantas, para toda e qualquer dorzinha da idade. A minha mãe confiava completamente na medicina tradicional chinesa. O Nãnã passava a ferro, enquanto eu desesperava sentado no pote, e chamava Nãnã!, Nãnã!! Até que o bom homem me limpava o traseiro, levando-me em seguida para o jardim. A minha mãe contava-me que chorei baba e ranho ao deixá-lo. A grande aventura foi, porém, a minha ida forçada à China comunista, por ter atirado uma pedra contra um autocarro. Foi um castigo que sempre figurará na minha biografia como a primeira grande epopeia sentida na primeira pessoa! De Macau não guardo se não uma bela e inesquecível história. A tal ponto que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, a minha resposta tivesse sido, durante anos, uma só: governador de Macau!

Claro que Macau não era então um paraíso, apesar de a minha mãe não ter tido nunca outra imagem daquela terra, induzindo em mim uma indefectível ternura por aquele santo nome. Já então era uma terra de piratas, de pequenos e grandes piratas, estes últimos, sobretudo ligados ao comércio do ouro — tradição comercial que duraria, pelo menos, até 1974.

All over the world, trade in gold had been the favored device for evading national foreign exchange controls from the end of World War II to 1971. In 1946, the Bretton Woods regime adopted in 1944 became operational, thereby forbidding the importation of gold for private speculative purposes in signatory nations. Britain was a signatory but Portugal was not.

Thus a gold-smuggling operation between the Portugal colony of Macau and the British territory of Hong Kong flourished until 1974, two years after the United States took the dollar off gold, in effect abolishing the Bretton Woods system of fixed exchange rates, when Hong Kong abolished a law that requires a special license to import gold for re-export. Tiny Macau became one of the world’s biggest importers and re-exporters of gold during this period.

Instability in the exchange value of the British pound sterling in the late 1960s pushed Hong Kong, a British territory since 1841, to switch to a gold-backed US dollar pegged at $35 per ounce of gold. Hong Kong trading firms bought gold legally on the London gold market beyond the reach of US law forbidding private purchase and ownership of gold on US soil, at a pegged price of $35 per ounce. They then passed it along to Macau gold syndicates for a service charge to recast the gold into physical shapes suitable for smuggling back to Hong Kong, where it could be sold at above-peg prices for use in financial transactions around the world out of range of Bretton Woods regulations. — in “Gold, manipulation and domination”, by Henry C K Liu.

Outro negócio especulativo, proibido então na China e na britânica Hong Kong, que acabaria por elevar Macau ao estatuto de primeira potência mundial, foi o jogo. Quase tudo o que de bom e caro os meus pais trouxeram de Macau foi ganho numa noite de sorte, deambulando entre casinos e casas de penhores. Em 2006, a nova zona administrativa especial da China ultrapassaria mesmo o volume de negócios da mítica Las Vegas.

Macau tem hoje mais população do que Lisboa, num terço do território da capital portuguesa: 538 mil habitantes. O PIB de Macau, segundo o CIA World Factbook, quase triplica o português (USD40 400/ USD22 900). Recebe, enfim, mais de 30 milhões de turistas por ano, superando Hong Kong e Portugal neste capítulo.

Melhor é impossível? Ahhhh… falta resolver o eterno problema da corrupção e da distribuição ainda muito desigual do rendimento disponível.

No dia da celebração do 10º aniversário da reversão administrativa do território, designação subtil que descreve o regresso de Macau à administração chinesa, embora sob um estatuto especial que vigorará até 2049, a tomada de posse do novo “chefe executivo” macaense, Fernando Chui Sai-on, a que assistiu o Presidente chinês Hu Jintao, foi palco de uma manifestação contra a corrupção, sob o lema: “Lutar contra a corrupção, combater pela democracia e manter o nível de vida dos residentes!

Hundreds protest in Macau on handover anniversary

Sun Dec 20, 2009 4:45pm IST — By Stefanie McIntyre
MACAU (Reuters) – About a thousand people marched through Macau’s streets on Sunday, urging the government to fight corruption and grant them more political freedom, as the territory marked its 10th anniversary under Chinese rule.

The protesters waved banners that called for universal suffrage in 2019 and chanted anti-corruption slogans hours after Chinese President Hu Jintao attended the swearing-in of the territory’s new chief executive, Fernando Chui.

“Now is the time to start again the timetable for democratic development for Macau,” Antonio Ng, a Macau legislator and one of the key organisers of the protest, told Reuters.

A manifestação de que a Lusa dá hoje conta estava prevista e traduz, por assim dizer, a nova dinâmica democrática de um território que já não deixa simplesmente impunes os corruptos caídos nas malhas da justiça, ao contrário do que antes dos portugueses saírem sucedia naquele território, e pelos vistos continua a ser o timbre da antiga metrópole.

Macau leader raises integrity doubts
By Olivia Chung – Dec 1, 2009 | HONG KONG – The appointments by Macau’s new chief executive, Fernando Chui Sai-on, of the heads of the government’s watchdogs on public spending and corruption have raised concern over the integrity of his government, which is due to take over next month.

…A notable absentee from the new government in Macau, which derives the bulk of its income from gambling and related projects, is former commissioner of audit, Fatima Choi Mei-lei, who has uncovered major cases of government misspending. The only top official to miss out on reappointment, she is replaced by Ho Weng-on, the head of the outgoing chief executive’s office.

Also raising eyebrows is the appointment of Vasco Fong Man-chong, a Court of Second Instance judge, to be commissioner against corruption. Fong’s younger sister, Fong Mei-lin, was directly linked to former secretary for transport and public works, Ao Man-long, who has been jailed for corruption. His case is still being investigated.

…Ao was detained by Commission Against Corruption agents in December 2006 and sentenced in two separate trials in January 2008 and April this year to a total of 28 years and six months behind bars for corruption, money laundering, abuse of authority and unjustified wealth. — in ASIA TIMES

Macau não é só um balão de ensaio, como Hong Kong e Xangai, para o novo capitalismo chinês. É também, aos olhos do resto do mundo, sobretudo aos olhos atentos dos EUA e da UE, um teste ao seu proclamado desejo de democracia e transparência. Daí que não tenha passado despercebido à imprensa internacional o facto de o movimento de protesto contra o novo governador empossado hoje ter origem no sector católico de Macau.

Protest and prayers on the 10th anniversary of Macau’s return to China
By Annie Lam — On 20 December, Macau’s bishop will call for prayers for the territory, a former Portuguese colony. The new Chief Executive Chui Sai-on will be sworn in before President Hu Jintao. On the same day, a civic group led by two Catholic legislators will launch a march for democracy and against corruption. — in Asia Times.

Macau mudou muito, e porventura nada tem já que ver com as minhas memórias daquele paraíso.

Macau/10 anos: Um aniversário ambíguo na cidade das duas caras

Luís Andrade de Sá, Agência Lusa — Em 10 anos, Macau mudou radicalmente: o PIB triplicou os 45,8 mil milhões de patacas de 1999, os visitantes passaram de sete para 30 milhões por ano, as receitas fiscais do jogo aumentaram dez vezes, a população subiu de 430 para 541 mil e o desemprego caiu para metade. Mas, por vezes, a internet é desesperantemente lenta.

Não há muitos locais com ligação sem fios à rede, em alguns serviços públicos não é fácil encontrar alguém fluente em português ou inglês, atravessar na passadeira para peões é um teste de resistência cardíaca e, sim, continua a cuspir-se nas ruas e nas alcatifas perfumadas dos casinos.


“Brilho para o exterior, podridão para o interior”
— como proclamaram os manifestantes? Será? E será diferente, se for assim, do que antes era? Por dever de nascimento, tendo a ser benevolente. Espero um dia poder visitar aquele torrão asiático com a tranquilidade de pensar que Macau não morreu de sucesso.


OAM 664 20-12-2009 19:18

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