Portugal 156

Orçamento vigiado – 2, um país à deriva

Ao fim de um dia de opereta, Teixeira dos Santos acabou por entregar duas “memory cards” —que a comunicação social insiste em apelidar de “pen”— à segunda figura do Estado. Passava das 10 horas da noite! E foi preciso esperar ainda uma hora mais para então se ouvir o ministro expor a tímida Proposta de Lei do Orçamento de Estado para 2010. Este cardápio sem vértebras foi certamente negociado numa mesa de credores onde pontuaram jovens executivos do FMI e das agências de rating, mas nenhuma arara da Oposição. Salvo os jogos florais destituídos de qualquer interesse, com o PSD e o CDS —que serviram basicamente para dar esperança aos empresários do regime, que alimentam o actual sistema partidário na condição de se alimentarem previamente do erário público— o governo teve efectivamente um único negociador a sério: os detentores da dívida pública portuguesa!

Ainda não tenho o documento, mas do que depreendi das palavras de Teixeira dos Santos e de alguns comentários televisivos oportunos, o ponto de negociação a que se chegou será provavelmente insuficiente para enganar os mercados, e acabará por dar maus resultados, agravando nomeadamente o preço do dinheiro que todos os dias pedimos emprestado ao estrangeiro para financiar o nosso desmiolado estilo de vida. Paradoxalmente, a previsível subida dos spreads na contratação de futuros empréstimos bancários nas praças internacionais (uma subida paulatina que pode ser imparável durante 2010, 2011, 2012…), mais a subida dos seguros dos títulos da nossa dívida pública (os famosos CDSCredit Default Swaps), acabarão por estrangular de tal forma a nossa economia que a mesma acabará eventualmente por entrar nos eixos das chamadas boas contas. Quanto mais tarde este abanão ocorrer maior será a destruição. E uma das coisas que poderá colapsar no decurso das colisões que se avizinham é o próprio sistema político-partidário actual. Se for esta a consequência futura da cobardia dos decisores e representantes político-partidários que temos, então talvez deva aprovar as contas do merceeiro manhoso que nos saiu na rifa das Finanças!

Vai haver, apesar de tudo, um apertão na Função Pública, e muita agitação por causa do anunciado congelamento de vencimentos. Vai haver, ao contrário do que as histéricas sirenes das agências piratas de comunicação gritaram todo o dia, um adiamento da maioria dos grandes investimentos públicos, incluindo o super aeromoscas de Alcochete (um buraco anunciado 100 vezes maior do que o de Beja, ainda sem data de inauguração, apesar de pronto desde Junho passado!) Mesmo as privatizações da ANA, TAP, INAPA e REN deverão evoluir a passo de caracol, até que o próximo governo, com a corda ao pescoço e a rebelião das massas nas ruas, dê o dito por não dito. Apenas a linha de Alta Velocidade ferroviária entre Caia e Poceirão (ou Pinhal Novo, ou mesmo Campo Grande) cumprirá aproximadamente os prazos previstos.

E por aqui me fico, até ler o miolo da famosa “pen” que tardou um dia inteiro a percorrer a 24 de Julho, entre o Terreiro do Paço e São Bento.

OAM 677 — 27 Jan 2010 02:33

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