Madeira 2010

Desastre previsível

 

A hora é de solidariedade sem reservas. Faça-se o que for preciso para retomar a normalidade. Depois, quando tudo acalmar, haverá que pedir responsabilidades a quem as deve. Desde logo, e em primeiro lugar, ao senhor Jardim e ao seu PSD, que governa o arquipélago desde 1974!

O aquecimento global traz consigo —já não é novidade para ninguém— fenómenos climatéricos extremos, que vão desde as secas prolongadas e respectivos incêndios, aos inesperados e avassaladores nevões, passando por ciclones, tornados e precipitações catastróficas. Já todos sabemos, e os políticos não podem invocar ignorância em matéria tão sensível, que as zonas costeiras e as pequenas ilhas serão as mais afectadas pela perigosa intensidade dos fenómenos climáticos extremos, em boa parte causados pela acção humana. No caso da Madeira, para além da desfavorável topologia da ilha, há que registar também a nefasta irresponsabilidade e ganância humanas, nomeadamente dos corruptos políticos locais, e de entre estes, do cacique que há décadas governa alegremente aquele paraíso fiscal sem nunca ter sabido favorecer a maioria pobre e inculta da sua população. Alberto João Jardim, tal como antes, Jorge Coelho —na sequência da queda vergonhosa da ponte Hintze Ribeiro (Entre-os-Rios)— deve pedir desculpa aos que trata como súbditos, e demitir-se.

Construir sistematicamente em leitos de cheia é uma sina de políticos irresponsáveis e corruptos. Fez-se na Madeira e faz-se no Continente. Basta pensar nas construções turísticas sobre as arribas algarvias, na Costa da Caparica, na frente urbanística em cima da praia da Póvoa do Varzim, na ribeira alfacinha de Alcântara, na projectada plataforma logística de Castanheira do Ribatejo, ou no anunciado aeroporto da Ota, felizmente abortado por força da opinião pública.

A bolha imobiliária dos últimos trinta anos já rebentou e não voltará tão cedo, mas as consequências nefastas da mesma far-se-ão contudo sentir por tempo indeterminado. Saibamos, ao menos, penalizar os principais e avisados responsáveis, e evitar cair nos mesmos vícios de corrupção.

 Post scriptum — em Abril de 2008 o programa da RTP2, Biosfera (que vejo sempre que posso), transmitiu um trabalho terrivelmente premonitório da calamidade que acabaria por abater-se sobre a Madeira no passado dia 20 de Fevereiro. Esta não é aliás a primeira vez que o desastre se agiganta por causa da actuação irresponsável e gananciosa das pessoas, começando pelos governos locais e municipais. Mas talvez agora seja o momento de exigir dos políticos que autorizaram, e porventura promoveram, as aberrações territoriais e urbanísticas da Madeira, que assumam as suas responsabilidades políticas e eventualmente criminais. Não há nenhum motivo válido para branquear o cacique Alberto João Jardim, por mais lágrimas de crocodilo que verta à hora dos noticiários televisivos! Ele e Sócrates vão passar a andar de braço dado, mas nem por isso conseguirão enganar toda a gente.

Ver também a cronologia das enxurradas e deslizes de terras (e vítimas mortais), que antecederam o desastre de 20 de Fevereiro, publicada pelo JN.

EQUIPA FAROL DE IDEIAS:
Reportagem: Sílvia Camarinha
Imagem: Sérgio Morgado
Edição: Marco Miranda
Apresentação: Maria Grego
Coordenação Editorial: Arminda Deusdado

EMISSÃO:
Esta Reportagem foi para o ar no Biosfera em Abril de 2008.

COPYRIGHT
© RTP/ Farol de Ideias 2008

OAM 689 — 23 Fev 2010 00:44 (última actualização 24 Fev 2010 15:36)

3 responses to “Madeira 2010

  1. Caro António, ainda que seja apenas um detalhe no seu texto bem elaborado e com idéias bem assentes, não esperava encontrar em si um defensor da teoria do aquecimento global antropomórfico, que não tem qualquer base científica e que tem alimentado o sensacionalismo dos media, os “tachos” do IPCC, do vendedor-vigarista Al Gore e de outras entidades. Por favor informe-se junto de fontes credíveis. É um assunto que tem muito que se lhe diga. Alguém com as suas capacidades de investigação vai ficar muito surpreendido se dedicar algum tempo a este assunto.

  2. O escândalo recente em volta dos e-mails do IPCC, e da tentativa de criar um mercado de derivados financeiros pendurado na compra e venda de créditos de CO2 equivalente, são argumentos fortes contra o oportunismo esverdeado, mas serão suficientes para negar o impacto humano na degradação da Terra e no respectivo sistema climático? Não creio. Mas ainda assim vou estar mais atento aos cépticos do clima!

  3. António, ninguém nega o impacto muito negativo do Homem em numerosos aspectos da natureza. A questão é a a extensão da influência humana no aspecto particular do clima. Pessoalmente, e já sigo este assunto muito antes do incendiário filme do Sr Gore, ainda não vi provas científicas conclusivas da origem antropomórfica do aquecimento global, ou melhor, da sua antecipação. Estamos a “sair” de uma era glaciar, é óbvio que há aquecimento global. Poder-se-á especular acerca da influência humana na aceleração do aquecimento global mas nunca se poderá dizer que o homem provocou este aquecimento. Eu sou tão céptico acerca do comportamento dos ambientalistas como acerca dos cépticos do aquecimento global. Acredito que o ser humano tem que mudar radicalmente a sua maneira de estar no mundo mas não à custa de uma mentira. Por vezes, fazer a coisa certa pelos motivos errados é contraproducente.

    Saudações cordiais

    RP

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