Portugal 176

A armadilha de Cavaco

Passos Coelho deve dar sinais claros de que a sua agenda não está sincronizada com a do actual presidente da república, até que este perceba que o melhor mesmo é desistir da recandidatura.

Cavaco felicita Passos Coelho e diz que Portugal precisa de estabilidade

Segundo o Presidente, o país deve ter “muito cuidado” para não contribuir para que os mercados internacionais julguem mal o programa português porque assim as famílias e as empresas terão ainda de pagar “juros mais elevados”. — in Público.

Os militantes e simpatizantes do PSD têm uma costela de sadomasoquismo e outra de estupidez. Só assim se pode explicar a sua fidelidade canina a Aníbal Cavaco Silva. Para o actual presidente da república o PSD tem sido apenas uma caixa de Kleenex cujos lenços —i.e. dirigentes— usa e deita fora com displicência, para sua óbvia e estrita conveniência. Daí ter feito tudo para impedir a eleição de Passos Coelho —um velho inimigo (que eu, na minha ignorância da história do PSD ignorava)—, incluindo a cunha que seguramente meteu a Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite para que estes empurrassem Paulo Rangel para a arena eleitoral contra o recém eleito presidente do PSD. O objectivo seria, no mínimo, impedir uma vitória expressiva da Pedro Passos Coelho. Mas o tiro saiu pela culatra. E o morto, desta vez, foi (ou será) Cavaco Silva.

Repararam como o homem de Boliqueime se pôs em bicos de pés no dia seguinte à vitória, por uns clarificadores 62%, de Passos Coelho? E viram como o comentador-mor Marcelo começou já a perfilar-se como redentor candidato laranja para defrontar Fernando Nobre e Manuel Alegre?

O argumento de Cavaco Silva sobre a estabilidade política é pacóvio. Agita o espectro da subida dos juros maus que vêm de fora (se não estivermos muito caladinhos), como se não fosse a banca portuguesa que anda por aí há mais de dois anos a executar hipotecas e a cobrar juros usurários —chegam aos 24,9% na CGD! Alguém lhe ouviu uma palavra sequer em defesa dos mais fracos?
Cavaco ignora ou faz por ignorar uma realidade simples: os nossos credores estão-se nas tintas para o barulho que fazemos ou deixamos de fazer. O que eles querem saber, e medem com os seus próprios instrumentos de avaliação, é se vamos continuar o bacanal da despesa pública improdutiva, ou não; se os escandalosos orçamentos da Assembleia da República, do Conselho de Ministros e da Presidência da Republica vão sofrer cortes decentes, ou não; se a corrupção galopante vai ser travada, ou não; se os tribunais e a burocracia vão ser postos nos eixos, ou não. Em suma, se o lugar do Estado na sociedade vai reduzir-se a proporções razoáveis, ou se o Leviatã vai continuar a engordar como uma serpente-sanguessuga insaciável até rebentar de gula.

O espantalho que um Cavaco Silva subitamente enamorado pela prudência de José Sócrates agita entre dentes e sorrisos amarelos não passa, na realidade, duma tentativa desesperada para se fazer ao caminho da reeleição presidencial. Acontece, porém, que o senhor decepcionou completamente o seu eleitorado ao longo deste seu primeiro e esperemos que último mandato. E por conseguinte, por mim, a manobra não pega!

Lipsky Says Debt Challenges Face Advanced Economies

March 21 (Bloomberg) — Advanced economies face “acute” challenges in tackling high public debt, and unwinding existing stimulus measures will not come close to bringing deficits back to prudent levels, said John Lipsky, first deputy managing director of the International Monetary Fund.

All G7 countries, except Canada and Germany, will have debt-to-GDP ratios close to or exceeding 100 percent by 2014, Lipsky said in a speech  today at the China Development Forum in Beijing. Already this year, the average ratio in advanced economies is expected to reach the levels seen in 1950, after World War II, he said. The government debt ratio in some emerging market nations had also reached a “worrisome level.” 

O problema do nosso endividamento é semelhante ao da Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Islândia, Reino Unido, França, Japão, Rússia, etc. Todos chegaram já, ou ultrapassaram, ou vão chegar em breve, e ultrapassar, níveis de dívida pública superior aos respectivos produtos internos brutos. Ou seja, a gravidade do problema ultrapassa-nos e muito. Para já, a Irlanda e a Grécia são, e em breve nós e a Espanha seremos, os Porquinhos-da-Índia de uma experiência nunca tentada: esvaziar o monumental endividamento soberano sincronizado de boa parte dos países outrora ricos do planeta.

A receita abastardada de Keynes não funciona no circuito aberto da globalização. E é fácil de entender porquê. Toda a liquidez injectada numa economia para estimular o consumo, que por sua vez faça retomar a produção, só pode funcionar na condição de que o mercado onde tal esquema é ensaiado cumpra a condição de ser um mercado homogéneo em matéria de moeda e preços.  De contrário, a liquidez injectada no mercado esvai-se nas importações de produtos e serviços mais baratos que o mercado concorrencial aberto internacional é capaz de oferecer. Foi isto que se passou nos Estados Unidos a partir das presidências de Reagan e Clinton — ao abrirem as fronteiras ao México e sobretudo à China. E é isto que também viria a suceder à Alemanha quando financiou as suas exportações para o espaço comunitário através da criação de uma moeda forte generosamente oferecida sob a forma de subsídios ao desenvolvimento (leia-se ao consumo), mas que acabaria por resultar num maná traiçoeiro para os países menos desenvolvidos da União, que assim se foram sobre-endividando muito para além do sustentável. Esta deriva, já de si arriscada, desembocou num desastre financeiro cuja gravidade foi largamente potenciada pela entrada entusiasta da União Europeia no barco neoliberal da globalização e da desregulamentação financeira.

A globalização acabaria por ser dominada por fenómenos poderosos mas mantidos invisíveis durante mais de uma década. Um deles foi a lenta mas finalmente maciça exportação das indústrias produtivas (siderurgia, automóvel, informática, telecomunicações, audiovisuais, etc.) dos Estados Unidos e posteriormente da Europa para o continente asiático (Coreia do Sul, Formosa e sobretudo China). Outro é a desmaterialização galopante da moeda americana e a sua consequente desvalorização. Finalmente, e não menos importante, é a especulação financeira sem limites, a qual tem permitido expandir para níveis inimagináveis o crédito mundial disponível — nomeadamente através do pouco estudado esquema FOREX conhecido por currency carry-trade (de que o Japão foi, até 2007-2008, o principal protagonista global), e ainda dos seguros em cascata das operações de crédito recorrendo a derivados financeiros cada vez mais complexos e fora do radar regulador e fiscalizador das entidades de supervisão económica, financeira e monetária.

Ou seja, para além dos fundos comunitários que os países pobres da União receberam de Bruxelas, existiu uma disponibilidade sem precedentes de liquidez financeira suplementar às empresas, pessoas e governos, oriunda da especulação financeira e cambial. Quando a China descobriu que estava a financiar as importações americanas muito para além do poder de compra efectivo daquele país, ou a Alemanha percebeu que andava a vender BMWs e Mercedes a países europeus falidos —ocorrência provocada pela exposição súbita das imparidades financeiras que explodiam por todo o lado depois de a torneira do yen carry-trade ter sido fechada (pelos chineses!)— o colapso sistémico da globalização capitalista teve o seu início. E está longe de terminar!

É por tudo isto que as ditas grandes obras públicas têm um importância estratégica decisiva na actual situação do país, e poderão ter graves consequência para a paz social portuguesa, caso não sejam objecto de uma reavaliação imediata e radical. Como disse e bem Bagão Félix, no Plano Inclinado (SIC-N) desta semana, o novo aeroporto de Alcochete, as novas autoestradas previstas, linhas de comboio mal planeadas, barragens assassinas, etc., se forem realizados, tal implicará mais e muito mais endividamento público. E uma tal loucura —que é sobretudo uma cedência dos políticos corruptos que temos à aristocracia financeira e às endividadas empresas de construção civil e energéticas— traduzir-se-à na destruição do actual estado social. Se vier a acontecer, o PS de Mário Soares será o grande responsável pela óbvia destruição anunciada da democracia que ajudou a fundar.

Cavaco Silva tem-se revelado um presidente inútil perante um primeiro-ministro intolerável em qualquer democracia decente. As próximas semanas mostrarão se a eleição de Pedro Passos Coelho para líder do PSD tem ou não virtualidades para evitar o desastre para onde estamos a caminhar muito rapidamente.

POST SCRIPTUM (28-03-2010 13:19) — Estará o Presidente da República doente?

Recebi um SMS alertando-me para possíveis problemas de ordem neurológica que estarão afectando a saúde do presidente da república. A este aviso, que por enquanto não passa de hipótese, junta-se uma estranha sugestão do candidato presidencial Fernando Nobre para submeter os candidatos aos altos cargos públicos do Estado a exames médicos preventivos — tal como acontece nos Estados Unidos da América e em muito outros países. Estará Cavaco Silva doente? A especulação e o rumor estão instalados. Conviria pois que o presidente esclarecesse os cidadãos sobre esta dúvida antes que se torne alarme público. A própria análise política precisa de saber o que realmente se passa com a saúde da principal figura do Estado, sob pena de especular em cima de falhas graves de informação.

OAM 676—28 Mar 2010 3:21 (última actualização 13:29)

One response to “Portugal 176

  1. Chegaram-me rumores de que Cavaco sofre de Parkynson

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